MPF e DPU protocolam na Justiça ação contra data center do TikTok no Complexo do Pecém

As entidades alegam que as atividades não podem ser iniciadas antes da realização de consulta livre.

Escrito por Bergson Araujo Costa bergson.costa@svm.com.br
14 de Setembro de 2026 - 21:43 (Atualizado às 21:56)
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Legenda: O TikTok Brasil formalizou o investimento de mais de R$ 200 bilhões para a construção de um data center no Complexo do Pecém.
Foto: Divulgação/Governo do Ceará.

O Ministério Público Federal (MPF) e a Defensoria Pública da União (DPU) entraram com uma ação civil pública para impedir que o Data Center Pecém, o maior centro de processamento de dados do Brasil e o primeiro da ByteDance, dona do TikTok, na América Latina, em construção no Complexo Industrial e Portuário do Pecém (CIPP), inicie suas operações.

As entidades alegam que as atividades não podem ser iniciadas antes da realização de consulta livre, prévia e informada ao povo indígena Anacé, sediado no entorno do empreendimento, e da elaboração de Estudo de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto Ambiental (EIA/Rima).

A ação também cobra medidas para avaliar e monitorar os efeitos do empreendimento sobre os recursos hídricos, o sistema elétrico, o ruído e as comunidades da região. A demanda foi apresentada contra a Omnia, empresa responsável pela construção, e a Superintendência Estadual do Meio Ambiente (Semace).

Após despacho inicial da Justiça, o estado do Ceará e o município de Caucaia passaram a fazer parte do polo passivo do processo.

Ao Diário do Nordeste, a Semace informou que, até o presente momento, não foi formalmente notificada acerca da ação mencionada, e que aguarda a comunicação oficial para tomar ciência do inteiro teor da demanda e adotar as providências cabíveis.

A reportagem também entrou em contato com o MPF, DPU, TikTok e Prefeitura de Caucaia. O conteúdo será atualizado com as devolutivas.

PEDIDOS DO MPF E DPU

O MPF e a DPU pedem, como medida urgente, que a Semace não emita a licença de operação nem qualquer outro ato que autorize o funcionamento do data center até que as medidas apontadas pelas instituições sejam cumpridas. 

Os órgãos pedem ainda que a Justiça impeça a empresa de iniciar a operação e a energização definitiva das instalações nas mesmas condições. Segundo a ação, duas das três etapas do licenciamento ambiental, as licenças prévia e de instalação, já foram concedidas.

As instituições destacam que o objetivo é corrigir as "falhas identificadas no licenciamento antes do início das atividades". A ação defende um ‘licenciamento corretivo controlado’, para que as lacunas sejam supridas antes de eventual dano irreversível.

ESTRUTURA DO DATA CENTER

O Data Center Pecém, também conhecido como Data Center do TikTok, tem área prevista de cerca de 70 hectares, 2 edificações principais e estruturas de apoio, incluindo 120 geradores a diesel, estação de tratamento de esgoto, subestação elétrica e captação de água subterrânea para resfriamento. A potência instalada prevista é de 300 MW.

De acordo com a ação, apesar da dimensão do projeto e dos potenciais impactos, ele foi enquadrado pela Semace como empreendimento de baixo ou médio impacto, o que exigiria apenas um Relatório Ambiental Simplificado (RAS), dispensando a elaboração de EIA/Rima. 

O MPF e a DPU também afirmam que o processo de licenciamento não estabeleceu inicialmente a exigência de consulta livre, prévia e informada ao povo indígena Anacé. O empreendimento fica a cerca de dois quilômetros da Área de Proteção Ambiental do Lagamar do Cauípe, que coincide parcialmente com a Terra Indígena Anacé, que está em processo de estudo pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai). 

O documento também ressalta que comunidades do entorno dependem majoritariamente de poços para abastecimento em "uma região marcada historicamente pela escassez hídrica".

SOBRE O DATA CENTER PECÉM

Em novembro do ano passado, o Conselho Nacional das Zonas de Processamento de Exportações (CZPE) aprovou a instalação de cinco datacenters no Pecém. Entre eles, os projetos da empresa Bytedance.

Com início da operação em 2027, o data center da empresa chinesa proprietária do TikTok quer injetar o total de R$ 108 bilhões até 2035 em equipamentos de alta tecnologia.

Conforme o governo, para o decênio posterior a 2035 (36-46), a companhia espera investir outros R$ 135 bi em atualizações tecnológicas. Na operação, são estimados 550 empregos diretos e indiretos. Nas obras de infraestrutura, mais 3.800 postos de trabalho.

Em dezembro, o Diário do Nordeste noticiou que o TikTok Brasil formalizou o investimento de mais de R$ 200 bilhões para a construção de um data center no Complexo do Pecém, em parceria com a Omnia e a Casa dos Ventos.

O investimento foi oficializado pela diretora de políticas públicas do TikTok Brasil, Mônica Guise, em evento com o presidente Lula no Centro de Eventos, em Fortaleza.