Quando os ventos alísios de leste sopram de forma constante e em paralelo ao litoral cearense, o turismo de esportes ganha força. O fluxo de visitantes de aventura deve saltar 37,8% neste ano, com a vinda de 410 mil turistas, contra 297,5 mil em 2024. Os dados são da Secretaria do Turismo do Ceará (Setur).
O kitesurf lidera essa expansão ao passar, no mesmo período, de 145.782 para 213.200 praticantes, uma alta de 46,2%. O volume de turistas movimenta uma engrenagem econômica em reais, dólares e euros, com visitantes de várias partes da Europa e Américas do Sul e do Norte.
A receita turística direta do segmento projeta alcançar R$ 1,66 bilhão em 2026, frente a R$ 1,14 bilhão em 2024. Os números são projetados para a alta temporada dos ventos, de julho a janeiro.
No Ceará, onde o turismo representa entre 7% e 10% do Produto Interno Bruto (PIB), os esportes de vento consolidaram-se como uma das forças primárias da economia turística.
Gustavo Montenegro, secretário do Turismo do Ceará, diz que o esporte atua de forma estratégica na economia.
"O Ceará tem nos ventos um dos seus maiores diferenciais competitivos. Os esportes náuticos movimentam além de atletas e turistas, porque geram emprego, renda e oportunidades para comunidades inteiras, além de levar o visitante a conhecer diferentes destinos do nosso litoral", afirma o secretário.
Segundo o presidente da Câmara Setorial da Economia Azul e praticante de kitesurf, Rômulo Alexandre, ainda não é possível mensurar quanto o kitesurf representa do PIB turístico do Ceará.
Ele também afirma que não há dados estatísticos suficientes sobre o efeito multiplicador do turismo de vento em relação ao turismo tradicional. "Certamente, o kitsurf tem muita força nesse contexto (do PIB). Já temos relevância econômica, mas ainda precisamos transformá-la em números".
Rômulo Alexandre relembra que 1,4 mil kitesurfistas quebraram um recorde do Guinness World, na praia do Cumbuco, em 2022. "De lá para cá, tivemos centenas de novos praticantes. O kitesurf é, sem dúvida, um dos esportes aquáticos mais fortes da atualidade".
Ele destaca, contudo, que é intuitivo que o turismo de vento tem características muito favoráveis, como permanência mais longa no destino, consumo de serviços especializados e circulação por diferentes localidades.
“Por isso, a questão não é apenas quanto o turista gasta por dia, mas também quanto tempo permanece e quanto desse dinheiro fica na economia local. Sou praticamente de kitesurf e não tenho dúvida do seu impacto na economia local. Basta olhar o ecossistema que se forma em torno do esporte", explica.
Turismo de travessia com kite pode chegar a R$ 10 mil
A economia do esporte no Ceará ganha tração com os downwinds — as velejadas a favor do vento. Ao percorrerem longos trechos do litoral no mar, os praticantes transformam o próprio deslocamento entre as praias na principal experiência da viagem. Assim, o trajeto deixa de ser mero transporte e se torna o produto central do turismo esportivo.
Rômulo Alexandre destaca que o downwind tem transformado distância em receita e ajudado a distribuir o turismo pelo território.
Quem opera essas viagens de perto testemunha o fluxo dinâmico de capital. O italiano Francesco Colletti, 50 anos, co-fundador da operadora Downwind Kite Safari, que organiza expedições pelo litoral dos estados do Ceará, Piauí e Maranhão, desde 2011, detalha a estrutura de mercado.
Um pacote de downwind dura, em média, de 6 a 10 dias e custa por volta de R$ 10 mil por pessoa".
Esse montante, segundo ele, é dividido em uma rede de apoio da ação, formada por pousadas, guias, motoristas e fornecedores locais ao longo do percurso.
Ele relata que o roteiro mais realizado, atualmente, é o que sai do Cumbuco e sobe em direção ao norte do país.
Na iniciativa há paradas nas praias do Guajirú, Icaraizinho de Amontada, Preá, Jericoacoara e Camocim, no Ceará. Ainda percorrem Barra Grande, no Piauí, realizam a travessia do delta do Rio Parnaíba, Tutoia e finalizam na praia do Atins, no Maranhão (local integrado ao Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses).
Essas travessias contam com suporte logístico complexo, operado por parceiros locais. "Sempre para dar apoio e assistência a nossos clientes ao longo do percurso", detalha Francesco.
Ele comenta que o público do seu negócio é caracterizado por alto poder aquisitivo e perfil socioeconômico de "renda média e alta".
"A maioria é um pessoal que tem um bom poder aquisitivo. Esse é o nosso perfil", aponta o italiano, destacando que a maioria dos clientes já são velejadores experientes e vindos da Suíça, Alemanha, Canadá, Estados Unidos e Inglaterra.
Gasto do turista do kite chega a R$ 900 por dia
A despesa do turista de kitesurf com serviços em terra também é elevada. Levantamentos da Setur/CE indicam que o gasto per capita atinge cerca de R$ 4 mil em 2026, com gasto médio diário individual variando entre R$ 600 e R$ 900.
Renan Brum, cofundador da escola Wind Coast no Cumbuco, relata que os pacotes de experiência da empresa geram um consumo disseminado.
"Temos fornecedores para além da hospedagem, como o taxista, o posto de combustível. Contratamos também fisioterapeuta, fotógrafa. É toda uma experiencia paga", exemplifica Brum.
Para usufruir dos ventos do Ceará, o velejador arca com gastos logísticos específicos, que podem ser o aluguel diário de equipamentos por uma média de R$ 350 ou a compra de kits próprios que podem variar de R$ 12 mil a mais de R$ 30 mil, dependendo do ano de fabricação, tipo e se é usado ou novo.
Nas companhias aéreas, o transporte dos "sarcófagos" (malas de bagagem especial para as pipas) é cobrado à parte, encarecendo a jornada tanto para viagens dentro do Brasil quanto para quem vem de fora do país.
Na alta temporada de vento — predominantemente entre julho e janeiro —, as diárias hoteleiras custam em média R$ 750 no Duro Beach Hotel, empreendimento voltado ao esporte fundado há 22 anos.
"Depois da pandemia começamos a receber também muitas famílias, principalmente de Fortaleza, mas o kite, posso dizer que hoje ainda representa uns 70% do nosso movimento", atesta o gerente operacional do hotel, Alex Ritchie.
Ele conta que, relacionado ao esporte, o público internacional ainda é a base de sustentação do Duro Beach, representando 70% da ocupação.
"Recebemos muito espanhol, francês, alemão e belga. Porém, o que aumentou significativamente nesses últimos dois anos são os argentinos. Dolarizados, cada vez mais os argentinos têm vindo para o Cumbuco", comenta Alex.
Com a parceria com a Wind Coast, o hotel tem visto também o mercado interno se expandir. Isso é explicado pelo perfil de clientes atendidos na escola.
"A Wind Coast hoje tem 70% do público nacional e 30% de estrangeiro, como argentinos, uruguaios, italianos e franceses. Já o público nacional vem mais de BH (Belo Horizonte), Rio de Janeiro, São Paulo, Floripa (Florianópolis, Santa Catarina), e Porto Alegre (Rio Grande do Sul)", explica Renan, que é gaúcho e veio montar base no Ceará por conta das "melhores condições para a prática do esporte".
Sobre as aulas, o pacote de 10 horas é o padrão de mercado mais adotado pelas escolas e instrutores credenciados pela Associação Brasileira de Kitesurf (ABK). As aulas custam de R$ 2 mil a R$ 3 mil em média.
Além disso, para ser instrutor velejador precisa investir em certificações da ABK ou ainda da Organização Internacional de Kitesurf, a International Kiteboarding Organization (IKO).
Esporte une nacionalidades e perfis diferentes
Na lagoa do Cauípe, em Caucaia, o italiano Fabio Laurora, de 50 anos, aproveita os dias com a família praticando o esporte.
Há nove anos ele viaja regularmente ao Ceará, neste período do ano, ficando um mês no estado para aproveitar os ventos. Fabio gostou tanto daqui que se casou com uma cearense. A família vem também ao Estado para visitar os parentes.
O italiano lembra que aprendeu o esporte no Ceará e que, desde então, não deixou de praticar. "Aprendi e me enamorei pelo esporte. Aqui é tudo legal, é o vento, é a praia, não sei quantos quilômetros de costa que pode fazer kite. É muito lindo", comenta.
Questionado sobre os custos locais, ele pondera: "Posso dizer que é acessível, mais ou menos. Tem coisa muito cara, se comparada à Europa, mas coisa muito barata também".
A capixaba Sara Brunn Antunes, de 37 anos, praticante de kitesurf há 13 anos e ex-atleta do esporte, já viaja com o marido para o Cumbuco há anos. Ela afirma que o kitesurf é acessível para todas as idades e pode ser praticado por todos.
Ela comenta que com o aumento da oferta, os valores dos equipamentos estão menores nos últimos anos.
"Mas a pessoa pode começar com equipamento de segunda mão, tem grupos que dão aula e vendem equipamentos usados com preço acessível. Então, dá pra começar com pouco investimento", reitera.
Sara, que também pratica wingfoil (combinação de surf com uma vela segura com as mãos), ainda reforça que além dos ventos, o encanto pelo Cumbuco vem da simplicidade e democracia do local.
Aqui, você tem desde grandes hotéis até pequenas pousadas. Consegue jantar em bons restaurantes ou com as tiazinhas nas panelinhas do centro, por R$ 15, R$ 20 reais. Aqui você está com o pé na areia, todo mundo muito simples, você não sabe quem é rico, quem não tem dinheiro. É todo mundo junto o tempo inteiro e todo mundo do esporte interage muito bem. Isso é o que me encanta."
Kitesurf gira economia nas comunidades litorâneas
O fluxo econômico da atividade esportiva alcança os moradores do litoral do Ceará e gera empregos que ajudam a mitigar a vulnerabilidade local.
Edmundo Ferreira da Silva, conhecido como Bê do Kite, afirma ser o primeiro instrutor de kitesurf do Ceará ao iniciar a atividade em 1997. Hoje ele comanda sua própria escola e restaurante, empregando 18 pessoas na Lagoa do Cauípe.
"Hoje cobramos R$ 200 a hora aula, que aí eu tenho um pacote de 10 horas, que dá o total de R$ 2 mil, onde eu ofereço todo o material, como pipa, prancha, barra, capacete, colete".
De acordo com Bê, a demanda é crescente e exige contínua expansão. "A cada ano aumenta o número de velejadores e aumenta mais a procura por aulas, por escolas e pessoas procurando cada vez mais aprender o kite e o wingfoil também."
Já no Centro do Cumbuco, o artesão José Santos da Silva, conhecido como "Carlinhos do kite", construiu o Desmantela Kite, negócio de reparos e reciclagem de kitesurf com sua mãe, Maria de Lourdes, de 74 anos.
Na oficina da família, consertam-se até 50 pipas semanais no pico da temporada, com serviços que variam conforme a complexidade.
"O serviço mais barato é R$ 20, que é o reparo de um microfuro na bexiga ou no tecido do kite e pode chegar a R$ 1 mil dependendo do tipo de costura, ou da substituição de uma bexiga original", explica Carlinhos.
Nos períodos de menor movimento das velas, a família recolhe o material descartado ou recebe doações para produzir vestuário e acessórios sustentáveis. Jaquetas corta-vento confeccionadas a partir de kites inutilizados são comercializadas por valores que flutuam de R$ 500 a R$ 800. Bolsas e mochilas podem custar de R$ 30 a R$ 100 em média.
Carlinhos atesta a eficiência ecológica do material, afirmando que "todo o kite pode ser reaproveitado". Ele explica que as cordas podem virar pulseiras ou outros acessórios confeccionados de acordo com os pedidos e criatividade dos clientes, na sua maioria estrangeiros. Assim, o que seria descartado no meio ambiente vira vestuário de alto padrão e economia circular.
O gargalo da qualificação profissional
Apesar de a cadeia produtiva gerar renda e sustento, a hotelaria e as escolas enfrentam dificuldades para contratar trabalhadores locais aptos ao atendimento internacional. A escassez de mão de obra é apontada pelo setor como um gargalo de expansão no Ceará.
O gerente operacional do Duro Beach Hotel, Alex Ritchie, relata essa falta de profissionais. "O pessoal acaba tendo que buscar fora mão de obra, porque a gente não tem a demanda suficiente para atender o que a gente precisa nas funções essenciais para o turismo, como camareiras, cozinheiras, recepcionistas".
Alex comenta também da dificuldade de conseguir profissionais que queiram ter a carteira assinada. "Por conta dos benefícios, muitos não querem trabalhar formal, preferem continuar na informalidade. Porém, eu só trabalho com pessoas registradas, aí tenho mais dificuldades em conseguir", diz.
Sobre o preparo para atender turistas estrangeiros, o gerente do complexo hoteleiro reforça que oferece gratuitamente aulas de inglês para os funcionários.
"Mas a adesão não é grande. Mesmo tendo de graça, nem 70%, às vezes, tem o interesse de querer aprender. O que torna tudo ainda mais difícil", reforça.
Sobre a capacitação profissional, o especialista em economia do mar, Rômulo Alexandre, defende que ela deve ser feita nas comunidades tradicionais e para todos os níveis de trabalho.
"O desafio é fazer com que a população local não ocupe apenas funções operacionais, mas também os postos de maior valor. Isso exige idiomas, certificações internacionais, hospitalidade, gestão e empreendedorismo".
O secretário do Turismo, Gustavo Montenegro, reafirma o papel do poder público em fomentar ações de qualificação de modo integrado. "Nosso compromisso é continuar investindo em infraestrutura, qualificação e sustentabilidade para que esse desenvolvimento chegue cada vez mais longe e beneficie quem vive do turismo".
O paradoxo do saneamento básico litorâneo
O desenvolvimento do kitesurf também contrasta com a carência de investimentos estruturais de saneamento básico em praias de fama internacional. Hotéis e estabelecimentos do Cumbuco, por exemplo, ainda dependem de estruturas privadas para suprir demandas de água e tratamento de efluentes.
"Não temos água e esgoto. Isso ainda depende aqui de fossa e poço artesiano", revela Alex Ritchie, do Duro Beach.
Rômulo Alexandre destaca que esses problemas estruturais e ambientais constituem o principal fator de atenção do setor litorâneo. "Se eu pudesse escolher um ponto, eu falaria que saneamento e gestão de resíduos são nosso maior gargalo".
Segundo a Setur-CE, o Governo do Ceará busca equalizar esses problemas com parcerias, incluindo o Programa de Saneamento das Localidades Litorâneas do Ceará (Prosatur), financiado em parceria com a Corporação Andina de Fomento (CAF).
A ação visa a implementar melhorias em esgotamento sanitário e abastecimento para preservar o ativo ecológico que sustenta a própria economia do turismo de vento.
Segundo Leonardo Torquato, gerente de Sustentabilidade de Negócios da Agência de Desenvolvimento da Economia do Mar de Fortaleza (Ademfor), o turismo pode se consolidar como uma alternativa viável para impulsionar o desenvolvimento das comunidades tradicionais, desde que esse crescimento ocorra de forma ordenada.
"O desafio é fazer com que essa expansão da economia dos ventos aconteça de forma sustentável e gere benefícios ambientais, econômicos e sociais, especialmente para as comunidades que historicamente dependem do mar".
Créditos
Paloma Vargas, Repórter | Kid Junior e Ismael Soares, Fotógrafos | Bruna Damasceno e Hugo R Nascimento, Editores de Negócios | Victor Ximenes, Coordenador de Jornalismo | Gustavo Pellizzon, Coordenador de Audiovisual | Ivila Bessa, Gerente de Jornalismo | André Melo, Gerente de Audiovisual | Gustavo Bortoli, Diretor de Jornalismo e Esporte