Baú do Jogada #4 - O ano em que Ceará e Mastruz com Leite formaram um dueto
Em 1996, o Ceará estampou na camisa um patrocínio inusitado: a marca da banda de forró Mastruz com Leite
Esta camisa é um ícone do futebol cearense. Com o perdão do torcedor do Fortaleza: na terra do forró, nada foi mais marcante do que esse manto do Ceará de 1996. Mas como a Mastruz com Leite foi parar nessa camisa? Esse é o tema de mais uma edição do "Baú do Jogada".
Confira as outras edições do Baú do Jogada:
- #1 - O dia em que Ceará e Fortaleza se uniram e venceram o Flamengo de Zico
- #2 - O ídolo do Ceará que morreu após passar mal em campo no PV
- #3 - O dia em que o Leão entrou em campo com um leão
Graças a Emanoel Gurgel
Wesley Safadão, Xand Avião e Simone. Se hoje eles são estrelas da música, devem em parte a Emanoel Gurgel. No início dos anos 90, foi ele quem inventou o forró moderno.
O ex-camelô nascido em Jaguaribe pegou a música tradicional dos sanfoneiros e zabumbeiros e inseriu instrumentos eletrônicos. Assim, Emanoel construiu um império com 500 funcionários e mais de uma dezena de bandas de forró. A mais conhecida delas, a Mastruz com Leite.
Presidente mecenas
Em 1996, o empresário decidiu ajudar seu time de coração, que vivia uma crise financeira. Ele gostava de futebol e até havia sido árbitro, então assumiu a presidência do Ceará.
Sem boas ofertas de patrocínio, Emanoel resolveu a necessidade de recursos em casa. Ele estampou a marca de sua principal banda na camisa do time, que acabou levando o título estadual daquele ano.
"As empresas ofereciam 10 vezes menos do que o Ceará merecia receber. Ninguém cobriu a proposta da Mastruz com Leite", conta Emanoel, que assim virou presidente e o principal patrocinador.
Um clássico do futebol cearense
Foi ideia dele, por sinal, a criação da primeira camisa preta do Ceará, que evidenciou ainda mais a logomarca colorida do patrocinador. "Quando o time entrava em campo, a torcida adversária dizia: 'Lá vêm os urubus'. Eu achava era bom. Foi a partir dali que o Botafogo passou a usar camisa preta", resgata o empresário.
Trinta anos depois, Emanoel se impressiona com a aprovação atemporal. "Todo mundo, quando vê a marca da Mastruz com Leite na camisa, diz: 'Eu quero essa camisa'. Não existe isso em lugar nenhum do país", reflete o empresário, hoje com 73 anos.
Outros clubes patrocinados
No rastro desse sucesso, a Mastruz com Leite patrocinou ainda Ferroviário, Quixadá, Icasa, Guarani de Juazeiro e Calouros do Ar - este último ligado aos oficiais da Aeronáutica em Fortaleza.
"Eu era muito pobre, estudava no colégio da Base Aérea. Eu passava de bicicleta pelo rancho dos oficiais, pegava a comida dos jogadores e na volta almoçava junto com eles. Foi uma dívida de gratidão com o Calouros", relembra Emanoel.
Já a parceria da Mastruz com Leite com o Ceará, a mais famosa, durou até o início de 1997, quando Emanoel Gurgel deixou a presidência do clube. O patrocínio permaneceu pouco mais de 12 meses.
Maior banda do Nordeste
A Mastruz com Leite segue na ativa, com 51 discos lançados em 36 anos de estrada. Em alguns critérios, como arrecadação com direitos na internet e com Ecad (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição), ela pode ser considerada a maior banda do Nordeste.
Relíquia em brechós
Enquanto isso, a camisa do Ceará de 1996 hoje é vendida em brechós de futebol por valores maiores que a blusa de 2026, que foi uma releitura dela.
"Meus filhos tinham cada um a sua, mas botaram tanta proposta que eles acabaram não resistindo e terminaram vendendo. Não vendo a minha", garante Emanoel. "Quando eu morrer, vou ser enterrado com ela. E não vou ser cremado, pra não queimar a bandeira do Ceará", ri.
Os mais antigos chamavam uniforme de futebol de terno. Esse de 1996 fez jus ao termo.
Confira as outras edições do Baú do Jogada:
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