Vestibular da Fuvest em Fortaleza gera debate nas redes sociais: 'medo dos cearenses'

Alguns candidatos brincaram com 'fama' dos estudantes cearenses, mas outros teceram comentários xenofóbicos.

Escrito por Alexia Vieira alexia.vieira@svm.com.br
22 de Agosto de 2026 - 07:00
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Legenda: O total de 8.147 vagas será ofertado para os cursos de graduação da USP.
Foto: Shutterstock.

O anúncio de que Fortaleza será sede de aplicação da prova da Fundação Universitária para o Vestibular (Fuvest) em 2026, principal porta de entrada para a Universidade de São Paulo (USP), provocou um debate acalorado entre estudantes nas redes sociais. 

Alguns candidatos expressaram preocupação devido ao bom desempenho dos cearenses em outros vestibulares. Outros opinaram contra o incentivo para concorrentes de regiões externas a São Paulo. 

“Estou com medo dos cearenses que agora vão fazer a Fuvest”, disse um usuário da rede social X (antigo Twitter). “Cearenses já colonizaram o ITA agora vão rumo a Fuvest”, comentou outro.

“Estou vendo um show de xenofobia só porque a Fuvest vai ser aplicada no Ceará. Se vocês se sentem tão ameaçados, estudem ainda mais”, provocou uma estudante.

Fortaleza será a única cidade fora de São Paulo que receberá o Vestibular USP 2027, com a primeira fase marcada para 1º de novembro.

Um dos argumentos dos concorrentes paulistas para criticar a aplicação da prova em Fortaleza é o fato da USP ser uma universidade pública estadual, mantida por impostos do Estado de São Paulo. 

A instituição tradicional de 92 anos, no entanto, não tem restrições para estudantes de outros Estados. Em edições anteriores do vestibular, a prova já foi aplicada em outras unidades da federação, como Minas Gerais e Distrito Federal.

Segundo o Anuário Estatístico da USP de 2025, a USP também tem 291 estudantes de graduação estrangeiros. 

"A USP é mantida com o ICMS, o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços. Qualquer pessoa que estude em São Paulo vai ficar morando aqui 4, 5, 6 anos, a depender da duração do curso, vai fazer supermercado aqui, vai contratar serviços aqui e vai auxiliar no financiamento da universidade", afirma o diretor-executivo da Fuvest, Gustavo Monaco. 

"A USP nunca fez discriminação entre estudantes de outros estados ou até do exterior. É um vestibular que está aberto a qualquer pessoa", completa.

Por que o vestibular USP 2027 será aplicado em Fortaleza? 

A decisão de aplicar a prova em Fortaleza partiu de uma necessidade logística dos estudantes das regiões Norte e Nordeste, conforme o diretor-executivo.

“É muito caro para os candidatos de outros estados virem até São Paulo duas vezes para fazer a prova, para a primeira e depois para a segunda fase. A gente chegou à conclusão de que fazer em algum local distante poderia ser um fator de incentivo para as pessoas pensarem pelo menos em disputar as vagas da Universidade de São Paulo”, disse.

É o caso de Beatrice Sales, 18, estudante de cursinho do Colégio Christus, em Fortaleza. Com o sonho de cursar Direito na USP, a jovem gastou mais de R$ 10 mil para ir até São Paulo e realizar a prova em 2025. 

Os custos envolveram passagens, estadia e alimentação para as duas fases do vestibular, tanto para ela quanto para um dos pais, já que a estudante era menor de idade e precisava de um acompanhante. 

Neste ano, tentando novamente a sonhada vaga, a vestibulanda já havia comprado as passagens para a época da prova quando soube da notícia de que a aplicação ocorreria em Fortaleza. Perder os tickets, no entanto, é mais vantajoso para a família de Beatrice do que custear o restante das despesas.

“Ao mesmo tempo que foi uma surpresa, foi uma coisa muito gratificante saber que o nosso Nordeste está sendo reconhecido pela nossa inteligência, nossa capacidade e que cada vez mais há o movimento de buscar essas mentes de ampla capacidade. A gente tem muitas pessoas inteligentes aqui”, afirma. 

Segundo o diretor-executivo da Fuvest, Fortaleza não foi escolhida por ter um número maior de candidatos ou aprovados, mas por ser um ponto de mais fácil acesso para as duas regiões. Em média, anualmente, 10% a 12% dos candidatos residem fora de SP, sendo a maioria do eixo Sudeste e Sul.

Apesar dos custos de transporte da prova para o Ceará  — realizado por rodovias com escolta armada — ser mais elevado, a aposta é que o rendimento adquirido com mais inscrições cubra os gastos da Fundação.

“É importante dizer que a USP não gasta um centavo com o vestibular. Ele é custeado integralmente pela Fuvest com o valor das taxas de inscrição. Nós não estamos usando dinheiro público para aplicar a prova em área externa ao Estado de São Paulo. É um dinheiro da Fuvest, que é uma fundação privada”, esclarece Monaco.

Xenofobia e a culpa dos que vem “de fora”

Quando viu a reação de alguns candidatos nas redes sociais, Beatrice disse que ficou “abismada”. Para ela, o preconceito é injusto com pessoas que não conseguiriam fazer a prova por serem de outros Estados, por questões econômicas ou logísticas. 

“São vários empecilhos que impediam pessoas brilhantes de fazerem essa prova. Eu acho muito errado pensar nessa forma limitante de que isso seria roubar a vaga de alguém do Sudeste. É ampliar oportunidades para quem quer fazer e quem tem ampla capacidade de conquistar grandes coisas”, opina a jovem.

O professor Alexandre Queiroz, do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Ceará (UFC) e pesquisador do Observatório das Metrópoltes, explica que a lógica xenofóbica tem se acirrado. O fenômeno é visto tanto no Brasil quanto em outros países.

“Determinados grupos, diante de um problema ou situação, como por exemplo a concorrência por vagas numa universidade, por empregos ou por outra dimensão da vida pública, social e econômica, é muito comum que joguem a culpa para o que vem de fora. É o estrangeiro, é o de outra região. Cria-se um argumento muito fácil: ‘nossos problemas derivam da concorrência com esses que, em tese, são beneficiados’”
Alexandre Queiroz
professor da UFC

Alexandre afirma que, apesar de o Ceará ter escolas privadas e cursinhos que se especializaram na preparação para vestibulares e de ter virado um “polo de convergência regional” que atrai estudantes de outros Estados, ainda sofre impactos das desigualdades regionais históricas. 

“Hoje, a região Sudeste é aquela que concentra a dinâmica econômica por uma série de razões, não é porque lá as pessoas são mais, digamos, empreendedoras ou porque lá se trabalha mais. Há toda uma discussão da formação territorial brasileira”, diz.

Cronograma da prova

O total de 8.147 vagas será ofertado para os cursos de graduação da USP, mesmo número do ano passado. Destas, 4.888 vagas vão para ampla concorrência, enquanto 2.953 são para candidatos egressos de escolas públicas e outras 1.206 para egressos e autodeclarados pretos, pardos ou indígenas.

Conforme o cronograma, a divulgação dos locais de aplicação ocorrerá no dia 21 de outubro. A prova será realizada no dia 1º de novembro.

Confira abaixo todas as datas divulgadas:

  • 9 de outubro – Encerramento das inscrições;
  • 21 de outubro – Divulgação dos locais de prova da 1ª Fase;
  • 1º de novembro – Prova da 1ª Fase;
  • 23 de novembro – Divulgação dos convocados e dos locais da prova da 2ª Fase;
  • 6 e 7 de dezembro – Provas da 2ª Fase;
  • 8 a 11 de dezembro – Provas de Competências Específicas;
  • 26 de janeiro de 2027 – Divulgação da 1ª chamada para matrícula.
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