Fortaleza terá estações meteorológicas e termômetros portáteis para monitorar calor durante El Niño

Protocolo de Calor e Saúde deve ser lançado em outubro, com diretrizes para lidar com as altas temperaturas

Escrito por Alexia Vieira e Ana Alice Freire* producaodiario@svm.com.br
04 de Setembro de 2026 - 20:00
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Legenda: Calor será monitorado por 20 estações meteorológicas em Fortaleza.
Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil.

Em preparação para os possíveis efeitos de um El Niño muito forte até o início de 2027, a Prefeitura de Fortaleza compartilhou nesta sexta-feira (4) ações de monitoramento que serão implementadas na Capital. Segundo a gestão municipal, Fortaleza pode atingir sensação térmica de 40° C nos próximos meses e maneiras de lidar com o calor extremo devem ser prioridade. 

O El Niño, fenômeno climático associado ao aquecimento anormal das águas do oceano Pacífico Equatorial, tem impactos nos regimes de chuva e temperatura no mundo todo. No Ceará, as consequências estão ligadas à diminuição do volume de chuvas, temperaturas mais altas e menor índice de umidade do ar. 

O aquecimento do Pacífico, que já é considerado forte, deve ser agravado até o fim de 2026, com grandes chances de atingir a categoria muito forte a partir de outubro. O impacto dele deve ser sentido até os primeiros meses de 2027

A partir da criação de um Comitê de Enfrentamento dos Efeitos do El Niño, a Prefeitura pretende elaborar sistemas de monitoramento do calor, estabelecer planos setoriais para secretarias e definir ações para cada estágio de atuação — desde a situação de normalidade até a de crise. 

Novas estações meteorológicas e termômetros portáteis

Para gerar dados em tempo real de diferentes regiões da cidade, 10 novas estações meteorológicas serão instaladas na cidade até setembro, de acordo com o coronel Haroldo Gondim, coordenador da Defesa Civil de Fortaleza (DCFor).

Somadas às estações meteorológicas implantadas em 2025, a Capital passará a contar com 20 pontos de coleta de dados sobre chuva, temperatura, sensação térmica, radiação ultravioleta (UV) e umidade, entre outros. 

“São diversos dados muito importantes para a tomada de decisão, seja na quadra chuvosa, seja no período de estiagem”, explica. Até 2028, mais 10 estações serão incluídas no sistema da Prefeitura, totalizando 30 equipamentos. 

Além disso, 12 termômetros portáteis serão distribuídos em comunidades das 12 regionais. Locais mais vulneráveis, adensados e periféricos serão estratégicos para esse modelo de monitoramento, em parceria com membros das Zonas Especiais de Interesse Social (Zeis). 

Conforme o coordenador, moradores serão escolhidos e capacitados para operar os equipamentos e realizar as medições seguindo um protocolo preestabelecido. O responsável comunitário fará a aferição da temperatura três vezes ao dia a uma distância de 1,50 metros do chão, alimentando um aplicativo.

Por estarem no nível da rua, a ideia é que os aparelhos portáteis registrem variáveis que as estações fixas não captam, como o calor refletido pelo asfalto, a falta de ventilação local e o calor ambiente direto. Isso permitirá que a gestão pública compreenda como as pessoas vivenciam o calor extremo no cotidiano.

Protocolo de Calor e Saúde e nova plataforma disponível para a população

Os dados serão utilizados para montar o Protocolo de Calor e Saúde, elaborado por 32 órgãos municipais e especialistas. O documento deve categorizar cinco níveis de risco: monitoramento, preparação, atenção, mobilização e resposta ampliada.

Segundo a Prefeitura, as diretrizes estabelecem desde o reforço em unidades de saúde até a criação de “refúgios térmicos”, pontos de hidratação e proteção a trabalhadores expostos ao sol e populações vulneráveis.

Haroldo Gondim explica que o protocolo vai definir “patamares de temperatura”. Ao atingir um certo nível de calor considerado preocupante, as áreas devem agir a partir de um plano de contingência setorial. 

Os patamares e diretrizes do protocolo não foram divulgados ainda pela Prefeitura. A previsão para divulgação do documento é o mês de outubro. Já os planos de contingência de cada órgão têm prazo de 20 dias para serem finalizados.

Uma das pastas prioritárias, a Secretaria Municipal da Saúde (SMS) está montando um grupo de monitoramento específico, com epidemiologistas, cientistas de dados e meteorologistas. Também a partir de outubro, o grupo deve começar a gerar relatórios sobre a situação da cidade para subsidiar estratégias no atendimento da população.

Segundo Riane Azevedo, titular da SMS, a partir dos relatórios, será possível orientar as equipes da ponta. “Nas UPAs próximas às regiões de praia, a gente vai orientá-los para a questão da insolação, hipertermia (elevação anormal da temperatura corporal), desidratação, para que os pacientes sejam tratados a tempo, evitando maiores danos renais e cardiovasculares”, citou como exemplo.

Uma política de comunicação com turistas sobre o clima de Fortaleza também será construída. “Muitas vezes, eles estão sob o sol intenso e um vento que alivia aquela sensação térmica, e aí eles saem daqui com insolação”, diz. 

Os protocolos também serão utilizados para planejar ações contra doenças sensíveis ao clima, como as arboviroses (dengue, chikungunya e zika)

Dados meteorológicos, imagens de satélite, histórico de atendimentos da rede municipal de saúde e protocolos personalizáveis para pessoas e animais (mediante a informação do bairro) serão disponibilizados para a população a partir do Painel de Calor e Saúde. O site de acesso público ainda não está disponível, com previsão de ir ao ar em outubro.

*Estagiária sob supervisão do jornalista Nícolas Paulino.

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