Seis meses. Foi esse o tempo que cearense Alexandre Frota, de 52 anos, precisou para dar a volta ao mundo e finalmente retornar ao Ceará. A bordo de um avião Van's RV-10, aeronave monomotor adaptada especialmente para a viagem, o piloto tem previsão de pousar em Fortaleza nesse sábado (12).
Em entrevista ao Diário do Nordeste, Alexandre compartilhou estimativas atualizadas do projeto. Ele estima ter percorrido mais de 80 mil quilômetros de rota em cerca de 150 dias de voo, passando por 35 países e 110 cidades.
Agora, o sentimento que fica é de dever cumprido. "É um projeto de longo prazo que consumiu muito tempo, muito esforço, muito trabalho para conseguir patrocinador, para conseguir fazer o projeto acontecer. Então, ao pousar amanhã e concluir isso daí, eu acho que eu vou sentir um alívio grande", disse.
Memórias da pilotagem
A rota do piloto passou por regiões como América do Norte, Groenlândia, Islândia, Europa continental, Oriente Médio, Ásia e Oceania. Para ele, uma das melhores lembranças da viagem foi a sensação de ver, do alto da cabine, o clima extremo dos diferentes locais onde esteve.
"Voei a -22 ºC lá na Groenlândia e cheguei a voar no círculo polar ártico, ali já próximo do Polo Norte, e lá é um ambiente totalmente diferente do que a gente conhece. Tem ali icebergs, voei entre os icebergs, que é um voo lindíssimo", recordou.
Já a outra ponta do globo também não deixa a desejar. "Quando eu voei no deserto, no Oriente Médio, cheguei a voar a mais de 55 ºC, um calor extremo, mas é outra região muito bonita", completou Alexandre.
Tensões pelo ar
Durante a entrevista, o piloto cearense mencionou um momento de choque ao sobrevoar o Estreito de Ormuz, região de divisa entre Irã e os Emirados Árabes Unidos que está no epicentro da guerra entre a nação iraniana e os Estados Unidos.
"Realmente está uma zona de guerra muito severa lá. Inclusive, no caminho que eu passei, 15 dias depois, foi abatido um avião de carga grande. Ninguém sabe se é abatido ou se foi outro motivo, mas caiu um avião grande, cargueiro, depois que eu passei", disse.
Alexandre também precisou de coragem para atravessar o céu da Rússia e Coreia do Norte, outros dois países altamente militarizados.
"A sensação mesmo era medo, estar ali numa zona de guerra. É uma situação que que é estressante, mas a gente não tem outra opção, tem que seguir em frente e passar", afirmou.
Adaptações e pendências
Apesar das dificuldades meteorológicas e o risco de ser confundido com uma aeronave inimiga, o desafio burocrático foi descrito por Alexandre como a maior preocupação da viagem. Nas Filipinas, por exemplo, ele ficou mais de uma semana aguardando uma solução para conseguir uma escala antes de chegar à Rússia.
A burocracia era a única coisa que eu senti que poderia ameaçar a conclusão do projeto. É algo que não depende da gente, depende de um terceiro. E aí, às vezes, esse terceiro pode não querer ou pode inventar alguma regra ou fazer alguma coisa não tão republicana, então esse era o meu maior medo".
Parte da viagem também não saiu como planejado. Da América do Norte, o cearense pretendia passar pelo México rumo à América do Sul. Mas, por dificuldades em obter a autorização para percorrer o espaço aéreo do País, ele precisou voltar aos Estados Unidos, contornar o Golfo do México e antecipar a entrada no Brasil pelo Norte.
"A gente conseguiu seguir bem o planejado, houve entraves burocráticos, permissões e diversos atrasos. Mas no planejamento geral, já tinha previsto isso, então deixava em alguns lugares bolsões de reserva de dias", explicou.
A aeronave de Alexandre ainda se mostrou outro ponto de preocupação. Por ser um avião experimental, o piloto precisou colocá-lo 40 dias em revisão, enquanto fazia as adaptações necessárias para cumprir as cerca de 300 horas de voo.
Os tanques de combustíveis nas asas foram estendidos, e um extra foi instalado no lugar do banco traseiro, concedendo quase 15 horas de autonomia ao monomotor. Todos os componentes móveis e elétricos da aeronave também foram melhorados.
Inspiração e projetos futuros
Ao fim dessa jornada, Alexandre espera que a missão dele sirva de inspiração para pessoas que estão atrás dos próprios sonhos. Ele também almeja incentivar a nova geração por meio de outra paixão pessoal: a literatura.
"Estou escrevendo dois livros. Um deles é voltado para o público infantojuvenil e vai ser distribuído gratuitamente nas escolas e bibliotecas públicas das regiões mais pobres do Brasil, principalmente para o Nordeste", anunciou.
Já o outro manuscrito possui um tom mais maduro, com foco no mundo empresarial. "Vai ser o livro em que vamos difundir a ideia de que, com trabalho, diligência, planejamento, perseverança e sacrifício, pessoas comuns podem realizar feitos extraordinários e fora da curva", descreveu.
"Eu sou um piloto amador, tirei minha carteira com 44 anos, e oito anos depois estou concluindo uma volta ao mundo que todo mundo dizia que era suicídio. Então dá para impactar positivamente as pessoas", finaliza.