“Abrir uma casa para a literatura no meio de uma crise é o mesmo que colocar uma telha de vidro em um quarto escuro”. Ao evocar um dos poemas da conterrânea Rachel de Queiroz (1910-2003), o escritor, poeta, editor e produtor cultural Talles Azigon dimensiona o sentimento em promover um novo horizonte para uma das editoras independentes mais representativas do Ceará.
Criada em 2014 pelo próprio Talles, Madjer de Souza Pontes e Nathan Matos – atualmente à frente da Moinhos –, a Substânsia nasceu mirando amplitudes. Entre os tantos objetivos do projeto, um dos mais importantes era contribuir para a expansão de um cenário literário, à época ainda escasso, no Estado.
A mesma proposta acompanha a iniciativa neste 2021, quando completa sete anos de trajetória avolumada por novidades. Desde o lançamento de outros títulos até uma repaginada na arquitetura gráfica da casa, os passos devem consolidar ainda mais a presença do empreendimento na diversidade de criações literárias locais – situadas, claro, em outro contexto de escritas e publicações.
De acordo com Azigon, o convite para o retorno dele ao projeto aconteceu no primeiro semestre do ano passado, quando Madjer Pontes otimizou esse contato. “Eu estava meio afastado devido a todas as questões. Veio a pandemia, mas o desejo de renovar a editora permaneceu. No segundo semestre de 2020, convidamos o Daniel Firmino para recompor e voltarmos a ter três pessoas”, conta.
A partir disso, ainda faltava algo que impulsionasse a tão desejada mudança. Ela chegou mediante o edital de Aquisição de Acervo para a Rede de Bibliotecas do Estado do Ceará – promovido pela Secretaria da Cultura do Estado (Secult-CE), por meio da Lei Aldir Blanc. “Aprovamos 8 títulos, e creio que foi a editora que mais aprovou títulos nesse edital, o que é uma confirmação da importância literária e histórica que temos para o Ceará”, diz o poeta.
Nesta sexta-feira (23), Dia Mundial do Livro, ao lançarem o novo site da Substânsia, os organizadores da casa não apenas apresentarão as recentes ações e conteúdos – além de descontos exclusivos –, como também darão continuidade a um trilhar sempre atento e afeito às letras alencarinas.
Irrestrito fomento
A primeira obra lançada pela editora nessa nova fase foi “A Luz Misteriosa no Céu do Sertão”, da escritora Elzilene Nóbrega. O livro infanto-juvenil, com ilustrações da brasiliense Amanda Nunes, é narrado por uma menina que viaja durante os festejos de São João com a família para o interior do Ceará. De repente, acontece “o que ninguém esperava”, “aquilo que acontece só com gente que acredita”, conforme as linhas relatam.
O mistério dessa luz que encandeia a vista de um clã inteiro depois de uma noite animada de festa junina transcorre toda a narrativa, cujas ilustrações foram realizadas a partir da técnica da xilogravura digital, imprimindo ainda mais beleza e suspense ao trabalho. O projeto gráfico foi assinado pelo designer e editor Daniel Firmino.
“Elzilene Nóbrega é de Pacajus. Sempre discutíamos, desde o início, que não queríamos ser uma editora de Fortaleza, mas do Ceará, e que nos dedicaríamos ao desafio de fazer trabalhos de elevada qualidade para todos os públicos”, sublinha Azigon.
“Por isso, quando Elzilene nos procurou querendo fazer o livro conosco – com recursos da Lei Aldir Blanc, da Secretaria da Cultura de Pacajus – tudo que estávamos debatendo veio como um presente do universo. Decidimos não apenas fazer, mas investir ainda mais recursos do que ela tinha recebido, preparando um livro lindo para marcar nosso retorno”, completa.
Além deste, outros trabalhos deverão conquistar os olhos da audiência neste instante. Após lançar algumas obras durante a pandemia em formato digital, a editora fará com que elas ganhem agora uma versão física. Entre eles, está o de Bicha Poética, natural do município de Sobral; os livros “Um bandido da Luz Vermelha”, de Yuri Marrocos, e “Viço Manco Voo”, de João Paulo Lima; e uma versão especial da Trilogia Saral, de Talles Azigon, com as capas da artista Alexia Colagem Negra.
“Quem faz a Substânsia é Daniel Firmino, Madjer Pontes e Talles Azigon. Mas também todas as escritoras e escritores que confiam em nosso trabalho, e todas as colaboradoras que topam trabalhar conosco, ainda que nem sempre tenhamos remunerações elevadas”.
Paixão pelas palavras
Singrando pela memória, o poeta recorda que, quando a Substânsia iniciou as atividades, não havia a quantidade de editoras independentes no Ceará que existe hoje. O livro era o objetivo, o movimento de saraus das periferias ainda não tinha insurgido e a Biblioteca Pública do Estado já estava fechada, por exemplo.
“Renovar é não viver nesse 2014, já longínquo. Ao aperfeiçoar nossa marca, renovamos também nosso lema de ‘paixão pelos livros’ para ‘O que nos move é a paixão pelas palavras’. Ou seja, precisamos entender todas as novas dinâmicas, e que o livro é uma das etapas desse processo”, explica.
Assim, o trio de integrantes continua estudando. Quer aprender, mudar o modo de fazer, a fim de abraçar não apenas um novo rosto, mas um diferenciado espírito para o lar.
“Chegou o Daniel Firmino, que é 10 anos mais jovem que nós. Com ele, nossa estética já está mudando. O Estúdio Pupa, dos designers Laura Monteiro e Matheus Sales, fez nosso novo símbolo e site. Agora, desejamos atuar na mobilização das outras editoras para conseguirmos conquistar mais espaços e colocar a literatura cearense independente na pauta do dia”, adianta.
O editor acredita que, já há sete anos, a Substância foi inspiração para o surgimento ou consolidação de outras editoras independentes no Estado. Não sem motivo, esse novo panorama – finalmente com um escritório e uma loja próprios – adiciona ainda mais profissionalismo nessa cena das pequenas empreendedoras locais.
“Como diferencial, temos a conexão com diferentes públicos e espaços do Ceará. Conseguimos estabelecer diálogos múltiplos e de muitas formas, o que vai garantir e já garante para a Substânsia um ar sempre novo e um discurso sempre contundente”, destaca Talles.
Poética infindável
Está programado para o começo de maio a abertura oficial da Loja da Substânsia. A sede do espaço será na Rua João Brígido, 316, no bairro Joaquim Távora. Esse outro passo tão importante sedimenta ainda mais as perspectivas frente às recentes ações e confere novo fôlego ao que já foi realizado pela editora.
Nesses sete anos, por exemplo, a casa possui 52 títulos publicados – uma quantidade expressiva, dada a envergadura independente do projeto. Além disso, a trajetória da iniciativa é repleta de momentos significativos para a equipe idealizadora.
“Amamos todos os livros, mas alguns projetos estavam no seio do surgimento da editora e conseguir fazê-los foi um fenômeno. Um deles foi a publicação de ‘O mais feliz dos silêncios’, de Ayla Andrade. Também organizamos duas edições do Festival da Poesia de Fortaleza; a antologia ‘Ruma: Poemas de Sarau’; e lançamos dois livros traduzidos do grego por tradutores cearenses, em edições bilíngue”, enumera Azigon.
Igualmente, conquistaram o prêmio do Fundo de Tradução da Argentina e publicaram um livro do contemporâneo Marcelo Brito, traduzido por Fernando Miranda. O primeiro título de literatura adulta do ator cearense Ricardo Guilherme e o livro de estreia de Silvia Moura também podem ser inclusos nesse front de conquistas.
“São muitos acontecimentos”, resume o escritor. “Nosso sentimento é que a editora será potencializadora da literatura cearense. Queremos oferecer ao Estado o que ele tem de melhor – sua criatividade, poética, história e memória. Livro, aqui no Ceará, não é coisa de rico, é coisa de quem deseja pensar e fazer um lugar melhor para todes. Damos nossa colaboração com muita paixão para que isso aconteça”.
Serviço
Publicações da editora Substânsia
Disponíveis no site da casa – com lançamento previsto para esta sexta-feira (23). Os trabalhos também podem ser acompanhados por meio do perfil da editora no instagram