Drag queen de Messejana representa o Brasil em reality dos EUA: ‘O Ceará nunca sai de você’

Nascido e criado em Fortaleza, Samuel Bendix participa da 7ª temporada de “Dragula”, que mistura cultura drag e referências de horror.

Escrito por João Gabriel Tréz joao.gabriel@svm.com.br
10 de Outubro de 2026 - 16:04 (Atualizado às 16:05)
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Legenda: Cearense Samuel Bendix fará parte da nova temporada do reality de competição "Dragula", dos EUA.
Foto: Acervo pessoal e Shudder / Reprodução.

O artista, drag queen e cantor de metal cearense Samuel Bendix irá representar o Brasil na nova temporada do reality show “Dragula”, produção dos EUA que mistura cultura drag e horror. É a primeira vez que um participante do Brasil é selecionado no programa.

Cria de Messejana, bairro de Fortaleza, Samuel se mudou para os EUA em janeiro de 2015 e, atualmente, vive em Salem, no estado de Massachusetts. O cearense aposta em uma estética ligada ao universo de vampiros e do metal.

“Nasci e cresci na Messejana. Fiz o percurso da minha escola para casa, andando da Lagoa da Messejana até quase a Paupina, todos os dias até os 18 anos”, lembra, em entrevista ao Diário do Nordeste. 

Início nas artes visuais e performance

Ao longo da infância e da adolescência, Samuel sempre se interessou por obras ligadas ao terror, dos filmes “Entrevista com o Vampiro” e o clássico “The Rocky Horror Picture Show” à novela da Globo “O Beijo do Vampiro”.

Além dessa predileção, outro interesse desde cedo foi a arte. Tanto que, após o colégio, Samuel entrou no curso de artes visuais do Instituto Federal do Ceará (IFCE). Foi lá, inclusive, que a gênese da trajetória como drag teve início.

Enquanto cursava o primeiro semestre, soube de um concurso de artes visuais voltado para alunos do último semestre. “Me joguei, fiz a ‘louca’ e acabei conseguindo uma vaga para exibir meu trabalho”, lembra.

Nascido em Fortaleza, Samuel estudou artes visuais no IFCE.
Legenda: Nascido em Fortaleza, Samuel estudou artes visuais no IFCE.
Foto: Acervo pessoal.

Samuel produziu obras que misturavam pintura, fotografia e performance tendo como referência a Ankoku Butoh, uma expressão de artes cênicas criada no Japão cujo nome pode ser traduzido como “dança das trevas”. A junção chamou a atenção do público e saiu até no jornal.

“Pensei: 'espera aí, tem alguma coisa aqui! Eu me pintar, tirar foto, tem um futuro, isso ressoa, as pessoas respondem’. Então, continuei fazendo e evoluiu para eu me montar. Começou a ter uma demanda para eu me pintar ao vivo”, diz.

Por volta da mesma época, Samuel passou a compor um grupo cover da banda de heavy metal Ghost, conhecida pelas performances teatrais e os visuais com referências religiosas. 

Mudança para os EUA

“Deu muito certo, muito rápido”, afirma. Com as experiências de performance, entendeu o que queria para o futuro. “Tranquei (a faculdade) antes de me mudar para cá. Decidi que não queria ser mais professor de arte, queria estar no palco”, sustenta.

Quando chegou aos Estados Unidos, em janeiro de 2015, já tinha contato com a cena drag e com os realities dessa cultura que passaram a se popularizar no país e no mundo, como “RuPaul’s Drag Race”. “Dragula”, programa que hoje compõe o elenco, teve a primeira temporada em 2016.

Apesar de contar, atualmente, com a inspiração vampira como a principal característica visual, Samuel conta que explorou outras estéticas no começo da carreira nos EUA. “Tentei outras coisas quando comecei a performar. ‘É alienígena? Qual é o meu negócio, o meu nicho?’”, lembra.

A drag de Samuel Bendix mistura referências dos universos do metal e dos vampiros.
Legenda: A drag de Samuel Bendix mistura referências dos universos do metal e dos vampiros.
Foto: Acervo pessoal.

Além da relação e do interesse pela criatura, Samuel pendeu para a figura do vampiro também por motivações conceituais. “Gosto muito da ideia de imortalidade, uma reflexão do que significa viver para sempre. Não necessariamente nunca morrer, mas ser relevante, criar comunidade, família”, reflete.

Entrada no reality e repercussão

Ao longo dos anos em que foi se firmando na cena drag dos EUA, Samuel conheceu e se aproximou de participantes do reality “Dragula”, que procura “a próxima drag supermonstruosa do mundo”. 

O programa é atualmente produzido e disponibilizado no Shudder, streaming dos EUA especializado em produções de horror, e joga com as expectativas do que seria a estética drag mais padronizada — o que se conecta à própria persona drag de Samuel.

“Quando eu performava, as perguntas começaram a aparecer: ‘Quando que você vai para um programa de TV?’. Nunca tive muito interesse, mas eu sempre falei meio que à toa, sem fazer audição, ‘um dia ou outro vou estar no Dragula’”, conta.

Quando chegaram as inscrições para a atual temporada, foi a hora de arriscar. “Fez sentido nessa época da minha vida. Estou começando minha carreira solo como músico de metal, lançando uma música com o nome ‘South American Vampire’”, adianta. 

Apesar de já contar com um trabalho de repercussão, tanto presencialmente quanto nas redes sociais, Samuel confessa ter se surpreendido com a reação à confirmação da presença em “Dragula”.

“Não me é estranho receber certa quantidade de atenção na internet. A gente faz um trabalho artístico e gosta de receber mensagens de gente que entende o que está fazendo, que aprecia, mas eu não estava preparado para o tanto que ia ser”, afirma.

Vinda ao Brasil e desejo de performar em Fortaleza

A principal conquista, no entanto, foi o convite para vir ao Brasil performar em eventos de Halloween no Rio de Janeiro e em São Paulo, no fim deste mês. “Não vou ao Brasil desde 2018. A vida acontece tão rápido e acabei nunca voltando, nunca deu tempo”, ressalta.

“Ter sido convidado, para mim, é uma vitória muito grande. É um sinal de que o que tenho feito e construído nos últimos 10 anos está dando certo. Não é sempre perfeito, sucesso não é uma trajetória linear, isso é uma marca de que está dando certo”, celebra.

A viagem a trabalho para o País não inclui, ainda, planos concretos de visitar a cidade natal, mas Samuel compartilha: “Quero muito performar em Fortaleza. Para mim vai ser um sonho. Vou chorar, vai ser horrível”, brinca.

“Faz muito tempo que não vejo muitos amigos daí. Eu trabalhava no Museu da Cultura Cearense, então tenho muita saudade de ir ao (centro cultural) Dragão do Mar dar rolê, tomar vinho com o pessoal, ir para os shows de rock. Sinto muita falta. Aqui tem, mas nunca é a mesma coisa de quando você é jovem e está na sua cidade natal”, diz. 

O look planejado para a “promo” da temporada de “Dragula” — ou seja, o das fotos de divulgação do reality —, inclusive, seria inspirado na estética do cangaço. O plano, no entanto, acabou não dando certo.

“Tudo que faço com relação à minha arte, quer eu queira ou não, até subconscientemente, é um reflexo da cultura cearense na minha vida”, reconhece.

“O sotaque nunca vai embora. Posso passar tanto tempo quanto for nos Estados Unidos, ou em qualquer outro país, mas o Ceará nunca sai de você”, finaliza.

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Onde assistir "Dragula"?

A sétima temporada de "Dragula" estreia no próximo dia 27 de outubro, seguindo com episódios semanais.

Nos EUA, o reality é exibido no streaming Shudder. No Brasil, a plataforma Reserva Imovision tem algumas das temporadas da produção disponíveis.

Não há, até o momento, informações se a Reserva Imovision ou outra plataforma de streaming do Brasil vai exibir a temporada.