Denise Mattar, à frente de exposições da Universidade de Fortaleza, situa importância da curadoria

Referência nacional na curadoria de Artes Plásticas, ela partilha com o Verso a relevância da profissão em que atua há décadas, responsável por aproximar a arte do público

Legenda: Relevância do ofício de curadoria ganha novos contornos no olhar de Denise Mattar
Foto: Foto: José Leomar

Salvador, Bahia. Denise Mattar pega um táxi com direção ao prédio da Caixa Cultural da cidade. Ao entrar no veículo e indicar ao motorista para onde iria, logo ouve o condutor confessar: "Eu quase não vejo uma exposição de arte, sabe? Mas, um dia, vi uma que adorei. Se chamava 'Pancetti: o marinheiro só'".

Era ela quem havia assinado a curadoria da mostra, há exatos nove anos daquele belo e fortuito encontro capaz de demonstrar a potência do ofício que realiza.

"Foi algo que marcou ele e, imagino, muitas outras pessoas que nem sequer conheço. Isso não é maravilhoso, saber que você faz parte de um processo como este?".

A fala apaixonada reflete como a paulistana - que diz estar caminhando para a tripla cidadania, após apego com Rio de Janeiro e Fortaleza - encara a profissão que, desde a infância, já dava reflexos de ser sua. Denise é um dos mais importantes nomes da curadoria de Artes Plásticas no Brasil.

Premiada, já trabalhou em instituições como o Museu da Casa Brasileira (SP), Museu de Arte Moderna de São Paulo e Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Atuando de forma independente desde 1997, realizou mostras retrospectivas de consagrados artistas nacionais, como Di Cavalcanti, Anita Malfatti, Pierre Cardin e Flávio de Carvalho. Experiências que a fizeram ser largamente reconhecida no circuito.

Neste momento, está à frente das três próximas exposições capitaneadas pela Universidade de Fortaleza - "Yolanda Vidal Queiroz - Momentos", a 20ª edição da Unifor Plástica e a segunda edição de "Da Terra Brasilis à Aldeia Global" - todas com abertura marcada para esta quinta-feira (10).

Em conversa com a equipe do Verso, Mattar registra os primeiros passos no cenário artístico, bem como a relevância da curadoria - ramo por vezes ainda desconhecido do público maior - no processo de conexão com diversidade de trabalhos criativos. Sublinha também a necessidade de evitar o confronto com quem almeja silenciar a arte, apostando alto na apresentação de possibilidades para que todas e todos abracem percursos plurais.

Verso: Como nasceu a vontade de se tornar curadora? Foi uma escolha?
Denise: Eu sempre gostei de arte, durante a minha vida inteira, desde pequena. E todo mundo sempre falou, “ah, trabalhar com arte não serve”. Então, estudei, fiz faculdade de Filosofia e Psicologia, mas, quando ainda era muito jovem, já comecei a trabalhar numa galeria de arte muito importante. Se chamava Petite Galerie, no Rio de Janeiro. Foi a minha primeira escola. Eu trabalhei com um marchand (profissional que intervém no processo de distribuição da produção de um artista), que era o Franco Terranova. Era um marchand como não tem mais hoje, porque era um cara amigo dos artistas, se interessava em promovê-los. Ele não tinha uma visão totalmente comercial. Era um ótimo comerciante, mas uma pessoa que era muito amiga dos artistas. Então, comecei a trabalhar com o Franco e continuei durante uns três anos. Tinha 18 anos. Depois, passei a atuar com outro marchand, já em São Paulo, e então passei a ingressar mais no mercado de arte. Após um tempo, houve aquela história: tive filho, parei um pouco e, quando voltei a trabalhar, foi com museus, até atuar com curadoria independente.

V: Então, a opção por trabalhar com arte foi algo mais intuitivo ou você relaciona a pessoas como parentes ou amigos?
D: Meu pai gostava muito de arte e me incentivou muito, sempre. E minha família é meio artística, entende? Sou prima da Christiane Torloni, de primeiro grau. Minha tia, mãe dela, Monah Delacy, tinha uma casa com obras de arte e tal. Minha avó também gostava, então sou de uma família que tem um lado artístico.

Legenda: Denise Mattar abraça aspectos da visualidade para ressoar a potência da arte
Foto: Foto: José Leomar

V: E, nos seus termos, o que é a profissão de curador?
D: O nome curadoria é novo, foi cunhado há aproximadamente 30 anos. Mas a curadoria sempre existiu, principalmente quando começou a se criar os museus de arte moderna. Antes, os curadores eram chamados de diretores. Durante muito tempo, fui chamada de diretora técnica. E no que consiste nosso ofício? É escolher os trabalhos de uma exposição, como aquilo vai ser montado e apresentado. Existem diferentes tipos de curadores e de curadoria. Têm curadores que são mais soltos, fazem algo mais livre; têm outros que são mais restritos, querem realizar uma cronologia. Diria que faço uma coisa entre os dois: procuro trazer referências históricas, muita pesquisa, mas, ao mesmo tempo, fazer com que a exposição seja bonita, sedutora, tenha um apelo visual. Uma exposição é um ensaio visual. Então, tenho muita preocupação de pensar o espaço junto com as obras. Além disso, gosto de usar muita cor.

V: Por mais que hoje seja um ofício consolidado, a curadoria ainda carece de maiores informações por parte do público maior quanto à sua relevância. Como você dimensiona esse aspecto?
D: Depende do que você está fazendo. Por exemplo, aqui, na Universidade de Fortaleza, onde atuo como curadora convidada, estou atualmente com três exposições diferentes. "Da Terra Brasilis à Aldeia Global" nasceu como forma de comemorar os 45 anos da instituição com a coleção. Então, fiz uma curadoria histórica, realmente cronológica, porque essa era a proposta. Ela tem sua relevância dentro desse contexto. Por outro lado, quando me convidaram para fazer a Unifor Plástica, percebi que tem uma recorrência muito grande na arte cearense do uso da palavra. Já no caso da exposição sobre a dona Yolanda Queiroz, a priori, trabalhei com uma questão muito importante relacionada ao visual da casa dela. São relevâncias diferentes para trabalhos diferentes.

É importante considerar que existem diferentes tipos de curadores e de curadoria

V: O termo curadoria significa cuidar. Como sua personalidade se reflete nas curadorias dos trabalhos que assina? Em sua vida pessoal, você também é de cuidar?
D: Sou. E acho, sim, que as curadorias são a minha cara. Tenho um lado muito de estudar, de querer tudo acadêmico, mas sou uma pessoa muito entusiasmada, apaixonada. Acho que as minhas curadorias refletem o fato de eu ser uma pessoa assim, então geralmente os espaços que monto têm muita cor e vibração.

V: De que forma se estabelece o diálogo entre o artista e o curador no momento da montagem de uma exposição? Onde se encontra o espaço de cada um?
D: É tudo diferente. Quando você faz, por exemplo, uma exposição histórica, na maior parte das vezes trabalha com artistas que já morreram, então tem que fazer uma interação com a família. Às vezes, é até difícil, porque eles querem algumas coisas do artista, você quer mostrar outras, então demora para defender um ponto de vista. No caso de uma exposição como a Unifor Plástica, é diferente. Fui encontrar praticamente todos os 25 artistas que integram a mostra. Depois, chamei-os para escolhermos a obra que íamos mostrar e também explicar o sentido da minha curadoria.

Legenda: A curadora é uma das maiores referências no campo da curadoria de Artes Plásticas no Brasil
Foto: Foto: José Leomar

V: Nesse processo de seleção dos portfólios, o que você leva em consideração?
D: O trabalho. O resto, é depois: a idade do artista, onde que ele mora, o que ele faz. Isso tudo é secundário. A primeira coisa para mim é o trabalho. Olho o artista por ele. Então, gosto, vou olhar o texto e tal. É um processo. Quando olhei os portfólios para a Unifor Plástica, me chamou muito a atenção essa recorrência da palavra nas obras.

V: Falando em obras, existe algum tipo de trabalho que te toca mais?
D: Ah, eu gosto de tudo. Graças a Deus, gosto de arte de tudo. Desde a Idade Média até hoje, eu gosto de tudo. Dos bons artistas. Às vezes me perguntam qual é o meu artista favorito. Eu falo Piero della Francesca, que é da Idade Média. Porque ele é um artista maravilhoso, mas eu gosto de tudo. Hoje, existe uma tendência dos curadores trabalharem com um determinado grupo artístico ou com determinado tipo de arte. Eu não consigo fazer isso.

V: Como você observa os artistas contemporâneos? Que tipo de poética e reflexões eles trazem?
D: Eu acho que hoje a gente tem uma preponderância da arte conceitual, para o bom e para o ruim. Porque eu acho que às vezes se perde muito, de ficar só no discurso e, ao mesmo tempo, você não tem a visualidade. Eu sou uma pessoa que acha que um artista de artes visuais tem que obrigatoriamente ter um compromisso com a visualidade. Mas essa é a minha opinião. Então, tendo a escolher sempre artistas que, mesmo tendo uma visão conceitual, têm uma preocupação com a visualidade. Porém, repito: é uma opção minha.

Acho que um artista de artes visuais tem que obrigatoriamente ter um compromisso com a visualidade

V: Quais trabalhos considera os mais desafiadores?
D: Os mais desafiadores, para mim, são exposições como a da Dona Yolanda. Porque é uma exposição que eu tenho que dar vida, conseguir captar a essência da pessoa. E transformar isso em uma linguagem visual. Uma exposição como a Terra Brasilis, por exemplo, é muito mais fácil. Torna-se trabalhosa pela quantidade de obras. Tanto que o que mais deu trabalho nela foi selecionar as peças, já que a coleção é muito boa. Não dava para mostrar tudo, então tinha que ir lá e escolher. É mais fácil. Os textos históricos já são algo que está na minha praia. A Unifor Plástica é outro exemplo: é uma exposição de arte contemporânea, mas estive conversando com os próprios artistas. Fica tudo mais fácil porque você vai estabelecendo essas conexões.

V: Você é de ver as pessoas transitando pelos espaços em que você assinou a curadoria? O que sente ao presenciar o contato com a arte por meio de seu trabalho?
D: Ah, sou de acompanhar, sim. E adoro conversar com os seguranças quando estou montando a exposição, saber o que eles estão achando daquilo. Geralmente, eles acertam. Quando o segurança adora, a exposição fica assim, ó, cheia. É muito bom a gente fazer um trabalho no qual sabemos que vai ter um monte de estudantes aqui e que vão receber essa inspiração da arte. É algo muito lindo: eles vêm e, depois, trazem os pais para ver também. Todo mundo mergulha.

Legenda: De acordo com Denise, as possibilidades de apresentação das artes deve se sobrepor ao confronto
Foto: Foto: José Leomar

V: Qual a relevância de as pessoas ocuparem espaços dedicados à arte, especialmente hoje, levando em conta as tentativas de silenciamento da liberdade de expressão criativa?
D: Acho que a arte é civilizadora. Então, é muito importante as pessoas estarem vendo e todo mundo continuar trabalhando nas exposições de arte porque, realmente, é uma forma de civilização.

V: E qual é o papel da curadoria nesse momento em específico que o Brasil atravessa?
D: É você ser firme e evitar o confronto. Mas ser firme. Você também não pode se dobrar, mas pode evitar o confronto. Porque o confronto não funciona. Quando uma pessoa é cabeça dura, é mais fácil você chegar e trazer as possibilidades, e não estar querendo fazer exposições polêmicas, por exemplo. É melhor de ela entender. Não que eu esteja fugindo da polêmica, não. Mas eu acho que às vezes muitas exposições são feitas porque buscam um pouco alimentar o fogo, sabe? Por um total acaso, como eu trabalhei na Unifor Plástica com a palavra, a exposição acabou indo para um caminho mais poético. Mas temos grandes questões sendo tratadas: indígena, da mulher, da religiosidade. E a forma como os artistas usaram para abordar isso, reitero, são formas poéticas. Não fui buscar isso, simplesmente veio.

V: Diante de tudo isso, o que mais lhe agrada em ser curadora?
D: Olha, eu adoro quando eu vejo uma exposição pronta, sempre fico muito feliz. Não está lindo isso aqui? (indaga, olhando para uma das salas da Unifor Plástica). Eu estou achando lindo, as pessoas que vão entrar vão poder achar lindo, então vou estar podendo proporcionar isso para elas. É disso é que gosto.

Legenda: A curadora junto a uma obra de Francisco Delalmeida, presente na Unifor Plástica
Foto: Foto: José Leomar

>> Saiba Mais: Próximas exposições da Universidade de Fortaleza

Todas terão abertura nesta quinta-feira (10), no Espaço Cultural da Universidade de Fortaleza (Av. Washington Soares, 1321 - Edson Queiroz). Abertas ao público.

Yolanda Vidal Queiroz - Momentos

Na mostra dedicada à vida de Yolanda Queiroz (1928-2016), matriarca de uma das famílias mais tradicionais e de destaque no ramo dos negócios no Ceará - construída a partir da união com o empresário Edson Queiroz (1925-1982) - parte do acervo pessoal comporá os ambientes. Vídeos, fotografias, cartões postais, músicas e roupas permitem a imersão na história do Ceará e do Brasil a partir da trajetória de dona Yolanda. 

Unifor Plástica

Na 20ª edição, a exposição elege como tema "Simultaneidades - A Arte com a Palavra". Em ritmo de comemoração, reúne o trabalho de 25 artistas, com uma mescla de obras inéditas e outras produzidas anteriormente. Volta ainda às suas origens ao apresentar apenas cearenses ou radicados no Estado.

Da Terra Brasilis à Aldeia Global 

Um grandioso passeio pela arte do século XVI ao XXI. Na segunda edição, a relevante mostra apresenta obras do acervo da Fundação Edson Queiroz, incorporando algumas que se encontravam em exposição em importantes museus internacionais.

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