A investigação do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) identificou uma série de fatores que contribuíram para o acidente com o voo 2283, da Voepass, em Vinhedo (SP), em agosto de 2024.
Divulgado na última terça-feira (23), o relatório final aponta, entre outros aspectos, práticas de manutenção consideradas inadequadas, que teriam permitido a continuidade da operação mesmo sem a correção definitiva de algumas panes.
O Cenipa aponta que, na prática, ações adotadas pela Voepass resultavam na operação de aeronaves “em condições sabidamente degradadas”.
Em nota, a empresa afirmou que, ao longo dos 30 anos de operações na aviação brasileira, sempre adotou procedimentos sérios de segurança, capacitação e orientação de tripulação.
A empresa também destacou a experiência da tripulação do voo 2283, que acumulava mais de 5 mil horas de voo e tinha treinamentos técnicos e acompanhamentos de saúde rigorosamente atualizados. Veja a nota completa abaixo.
O relatório também aponta que as auditorias e inspeções realizadas pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) no operador antes do acidente revelaram “diversas não conformidades técnicas e procedimentais relacionadas à manutenção das aeronaves, à rastreabilidade de componentes, ao descumprimento das condições da MEL e à prática recorrente de reporte informal de panes ou não reporte”.
Porém, o órgão aponta que o processo de gerenciamento de risco da Anac “não foi suficiente para auxiliar nas tomadas de decisões estratégicas necessárias à mitigação e ao controle dos riscos no ambiente operacional por ela regulado e fiscalizado”.
Em nota, a Agência informou que o relatório ainda deve ser encaminhado pelo Cenipa. Com isso, terá início a análise técnica detalhada das conclusões apontadas e das recomendações relacionadas às competências da Anac, que pode durar até 120 dias. Veja a nota completa abaixo.
“As investigações conduzidas pelo Cenipa têm caráter exclusivamente preventivo e não se destinam à atribuição de culpa ou responsabilização, mas à identificação de fatores que contribuíram para o acidente e de recomendações para aprimorar o sistema de segurança operacional da aviação civil”, explica a Anac.
O que diz o relatório final
Segundo o relatório final do Cenipa, a prática envolvia o uso da Lista de Equipamentos Mínimos (MEL), documento que permite que aviões voem temporariamente com alguns equipamentos inoperantes, desde que sejam respeitados limites e condições específicas.
Nas bases secundárias da empresa, onde a estrutura era mais limitada, o Cenipa identificou um “padrão operacional” focado na liberação das aeronaves com itens inoperantes despachados sob MEL, com a expectativa de que a resolução definitiva da pane ocorresse quando a aeronave retornasse à base principal em Ribeirão Preto, em São Paulo.
“Esse modelo, por si só, não configurava violação em relação aos requisitos aplicáveis, desde que respeitados os limites de validade e os critérios da MEL”, explica o relatório. Porém, houve situações recorrentes em que os prazos da MEL expiravam durante o pernoite nessas bases secundárias.
Nesses casos, segundo o Cenipa, a solução adotada era realizar testes operacionais, atestando a funcionalidade do sistema, ou registrar a solução de panes sem a efetiva realização das ações corretivas.
“Nos voos subsequentes, no entanto, era frequente o registro das mesmas falhas, evidenciando que a pane persistia e que o teste operacional registrado no TLB (Technical Log Book ou Diário Técnico de Bordo), no melhor dos casos, não havia restabelecido a funcionalidade do sistema”, continua o documento.
Com isso, a falha era novamente registrada, estabelecendo-se, então, um novo prazo Na prática, essa conduta fazia com que o item presente na MEL fosse renovado sucessivamente, sem a efetiva correção da pane, “mascarando seu caráter crônico e postergando sua resolução definitiva”.
Relembre o acidente
A aeronave ATR 72 500 da Voepass caiu às 13h22 de 9 de agosto de 2024 no condomínio de casas Residencial Recanto Florido, em Vinhedo, causando a morte de todas as 62 pessoas a bordo: 58 passageiros e quatro tripulantes.
O voo partiu às 11h58 do Aeroporto Coronel Adalberto Mendes da Silva, em Cascavel (PR), com destino ao Aeroporto Internacional de Guarulhos, na Grande São Paulo.
De acordo com o Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) da Força Aérea Brasileira (FAB), a aeronave ingressou, durante o voo, em uma região com condições meteorológicas propícias à formação de gelo severo.
“Às 13h21, cumprindo sua navegação aérea, a aeronave realizou uma curva à direita momentos antes da perda de controle, entrando em uma condição chamada stall, vindo a perder sua sustentação em voo”, informou o Cenipa.
“Como resultado, os pilotos perderam o controle da aeronave, que entrou em atitude anormal de voo, descrevendo giros em torno do seu eixo (parafuso chato), culminando em sua colisão com o solo em uma área residencial do município de Vinhedo (SP)”, acrescentou o centro de investigação.
Entenda a investigação
Segundo o Cenipa, os investigadores do acidente já fizeram os seguintes levantamentos:
- Leitura e análise dos gravadores de voo;
- Reconstrução detalhada do voo do acidente, com análise de desempenho da aeronave, comandos aplicados, alertas emitidos e dinâmica da perda de controle;
- Ensaios e testes técnicos em componentes recuperados no local do impacto;
- Entrevistas com profissionais da companhia aérea envolvida, mecânicos, despachantes, pilotos e familiares dos tripulantes.
- Análise de mais de 15 mil voos realizados por aeronaves da frota da companhia envolvida;
- Levantamento meteorológico, com dados de satélite, radiossondagens;
- Voos recriados em simulador;
- Voo experimental realizado em aeronave de ensaio.
Leia as notas na íntegra
ANAC
A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) manifesta, mais uma vez, solidariedade às famílias e aos amigos das 62 pessoas que perderam a vida no acidente com a aeronave da Voepass, em 9 de agosto de 2024. A memória das vítimas permanece no centro da atuação da Agência, cuja missão central é a segurança do transporte aéreo.
Após o Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) divulgar o relatório final sobre a investigação nesta quinta-feira, 23 de julho, o documento deve ser encaminhado à Anac. A Agência, então, iniciará a etapa de análise técnica detalhada das conclusões apontadas e das recomendações relacionadas às competências da Anac. O prazo para conclusão desse trabalho é de até 120 dias.
As investigações conduzidas pelo Cenipa têm caráter exclusivamente preventivo e não se destinam à atribuição de culpa ou responsabilização, mas à identificação de fatores que contribuíram para o acidente e de recomendações para aprimorar o sistema de segurança operacional da aviação civil.
Histórico
O acidente envolvendo a empresa aérea Voepass ocorreu em Vinhedo (SP), no dia 9 de agosto de 2024. A Anac atuou de forma permanente no acompanhamento da assistência às famílias das vítimas e prestou todas as informações necessárias tempestivamente ao Cenipa e aos demais órgãos competentes.
Em 11 de março de 2025, a Agência suspendeu as operações da empresa e, em 24 de junho de 2025, cassou o Certificado de Operador Aéreo (COA) da companhia. A decisão da Anac decorreu da incapacidade da Voepass em solucionar irregularidades identificadas no curso das ações de fiscalização realizadas pela Agência.
Voepass
A queda do voo 2283, em 9 de agosto de 2024, foi o episódio mais difícil da história da VOEPASS. Desde o momento do acidente, a empresa esteve solidária às famílias das vítimas, compartilhando uma dor que permanece presente em sua memória.
Em mais de 30 anos de operações na aviação brasileira, a companhia jamais havia enfrentado uma situação como essa. Ao longo de três décadas, sempre adotou procedimentos sérios de segurança, capacitação e orientação de tripulação.
A atuação da empresa sempre esteve pautada em padrões de segurança internacionais, contando inclusive com a certificação IOSA desde 2012, um requisito de excelência operacional emitido apenas para empresas auditadas IATA.
A tripulação do voo 2283 era experiente, capacitada e devidamente certificada, acumulando mais de 5.000 horas de voo e com treinamentos técnicos e acompanhamentos de saúde rigorosamente atualizados, sem qualquer registro prévio ou fator que impedisse sua atuação.
Desde o início das apurações, a VOEPASS atua de forma transparente junto ao Cenipa e às autoridades públicas e segue à disposição de todas as instituições e agentes envolvidos para colaborar com o que for necessário.