Voepass operou aviões com falhas sem correção definitiva antes de acidente em Vinhedo, diz Cenipa

Relatório final do acidente em Vinhedo cita operação de aeronaves em “condições sabidamente degradadas”.

Escrito por Redação producaodiario@svm.com.br
26 de Julho de 2026 - 17:57
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Legenda: Ao todo, 62 pessoas morreram com a queda da aeronave ATR 72 500 em Vinhedo, no dia 9 de agosto de 2024.
Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil.

A investigação do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) identificou uma série de fatores que contribuíram para o acidente com o voo 2283, da Voepass, em Vinhedo (SP), em agosto de 2024.

Divulgado na última terça-feira (23), o relatório final aponta, entre outros aspectos, práticas de manutenção consideradas inadequadas, que teriam permitido a continuidade da operação mesmo sem a correção definitiva de algumas panes.

O Cenipa aponta que, na prática, ações adotadas pela Voepass resultavam na operação de aeronaves “em condições sabidamente degradadas”.

Em nota, a empresa afirmou que, ao longo dos 30 anos de operações na aviação brasileira, sempre adotou procedimentos sérios de segurança, capacitação e orientação de tripulação.

A empresa também destacou a experiência da tripulação do voo 2283, que acumulava mais de 5 mil horas de voo e tinha treinamentos técnicos e acompanhamentos de saúde rigorosamente atualizados. Veja a nota completa abaixo.

O relatório também aponta que as auditorias e inspeções realizadas pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) no operador antes do acidente revelaram “diversas não conformidades técnicas e procedimentais relacionadas à manutenção das aeronaves, à rastreabilidade de componentes, ao descumprimento das condições da MEL e à prática recorrente de reporte informal de panes ou não reporte”.

Porém, o órgão aponta que o processo de gerenciamento de risco da Anac “não foi suficiente para auxiliar nas tomadas de decisões estratégicas necessárias à mitigação e ao controle dos riscos no ambiente operacional por ela regulado e fiscalizado”.

Em nota, a Agência informou que o relatório ainda deve ser encaminhado pelo Cenipa. Com isso, terá início a análise técnica detalhada das conclusões apontadas e das recomendações relacionadas às competências da Anac, que pode durar até 120 dias. Veja a nota completa abaixo.

“As investigações conduzidas pelo Cenipa têm caráter exclusivamente preventivo e não se destinam à atribuição de culpa ou responsabilização, mas à identificação de fatores que contribuíram para o acidente e de recomendações para aprimorar o sistema de segurança operacional da aviação civil”, explica a Anac. 

O que diz o relatório final

Segundo o relatório final do Cenipa, a prática envolvia o uso da Lista de Equipamentos Mínimos (MEL), documento que permite que aviões voem temporariamente com alguns equipamentos inoperantes, desde que sejam respeitados limites e condições específicas.

Nas bases secundárias da empresa, onde a estrutura era mais limitada, o Cenipa identificou um “padrão operacional” focado na liberação das aeronaves com itens inoperantes despachados sob MEL, com a expectativa de que a resolução definitiva da pane ocorresse quando a aeronave retornasse à base principal em Ribeirão Preto, em São Paulo. 

“Esse modelo, por si só, não configurava violação em relação aos requisitos aplicáveis, desde que respeitados os limites de validade e os critérios da MEL”, explica o relatório. Porém, houve situações recorrentes em que os prazos da MEL expiravam durante o pernoite nessas bases secundárias.

Nesses casos, segundo o Cenipa, a solução adotada era realizar testes operacionais, atestando a funcionalidade do sistema, ou registrar a solução de panes sem a efetiva realização das ações corretivas.

“Nos voos subsequentes, no entanto, era frequente o registro das mesmas falhas, evidenciando que a pane persistia e que o teste operacional registrado no TLB (Technical Log Book ou Diário Técnico de Bordo), no melhor dos casos, não havia restabelecido a funcionalidade do sistema”, continua o documento.

Com isso, a falha era novamente registrada, estabelecendo-se, então, um novo prazo Na prática, essa conduta fazia com que o item presente na MEL fosse renovado sucessivamente, sem a efetiva correção da pane, “mascarando seu caráter crônico e postergando sua resolução definitiva”.

Relembre o acidente

A aeronave ATR 72 500 da Voepass caiu às 13h22 de 9 de agosto de 2024 no condomínio de casas Residencial Recanto Florido, em Vinhedo, causando a morte de todas as 62 pessoas a bordo: 58 passageiros e quatro tripulantes.

O voo partiu às 11h58 do Aeroporto Coronel Adalberto Mendes da Silva, em Cascavel (PR), com destino ao Aeroporto Internacional de Guarulhos, na Grande São Paulo.

De acordo com o Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) da Força Aérea Brasileira (FAB), a aeronave ingressou, durante o voo, em uma região com condições meteorológicas propícias à formação de gelo severo.

“Às 13h21, cumprindo sua navegação aérea, a aeronave realizou uma curva à direita momentos antes da perda de controle, entrando em uma condição chamada stall, vindo a perder sua sustentação em voo”, informou o Cenipa.

“Como resultado, os pilotos perderam o controle da aeronave, que entrou em atitude anormal de voo, descrevendo giros em torno do seu eixo (parafuso chato), culminando em sua colisão com o solo em uma área residencial do município de Vinhedo (SP)”, acrescentou o centro de investigação.

Entenda a investigação

Segundo o Cenipa, os investigadores do acidente já fizeram os seguintes levantamentos:

  • Leitura e análise dos gravadores de voo;
  • Reconstrução detalhada do voo do acidente, com análise de desempenho da aeronave, comandos aplicados, alertas emitidos e dinâmica da perda de controle;
  • Ensaios e testes técnicos em componentes recuperados no local do impacto;
  • Entrevistas com profissionais da companhia aérea envolvida, mecânicos, despachantes, pilotos e familiares dos tripulantes.
  • Análise de mais de 15 mil voos realizados por aeronaves da frota da companhia envolvida;
  • Levantamento meteorológico, com dados de satélite, radiossondagens;
  • Voos recriados em simulador; 
  • Voo experimental realizado em aeronave de ensaio.

Leia as notas na íntegra

ANAC

A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) manifesta, mais uma vez, solidariedade às famílias e aos amigos das 62 pessoas que perderam a vida no acidente com a aeronave da Voepass, em 9 de agosto de 2024. A memória das vítimas permanece no centro da atuação da Agência, cuja missão central é a segurança do transporte aéreo.

Após o Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) divulgar o relatório final sobre a investigação nesta quinta-feira, 23 de julho, o documento deve ser encaminhado à Anac. A Agência, então, iniciará a etapa de análise técnica detalhada das conclusões apontadas e das recomendações relacionadas às competências da Anac. O prazo para conclusão desse trabalho é de até 120 dias.

As investigações conduzidas pelo Cenipa têm caráter exclusivamente preventivo e não se destinam à atribuição de culpa ou responsabilização, mas à identificação de fatores que contribuíram para o acidente e de recomendações para aprimorar o sistema de segurança operacional da aviação civil. 

Histórico
O acidente envolvendo a empresa aérea Voepass ocorreu em Vinhedo (SP), no dia 9 de agosto de 2024. A Anac atuou de forma permanente no acompanhamento da assistência às famílias das vítimas e prestou todas as informações necessárias tempestivamente ao Cenipa e aos demais órgãos competentes.

Em 11 de março de 2025, a Agência suspendeu as operações da empresa e, em 24 de junho de 2025, cassou o Certificado de Operador Aéreo (COA) da companhia. A decisão da Anac decorreu da incapacidade da Voepass em solucionar irregularidades identificadas no curso das ações de fiscalização realizadas pela Agência.

Voepass

A queda do voo 2283, em 9 de agosto de 2024, foi o episódio mais difícil da história da VOEPASS. Desde o momento do acidente, a empresa esteve solidária às famílias das vítimas, compartilhando uma dor que permanece presente em sua memória.
 
Em mais de 30 anos de operações na aviação brasileira, a companhia jamais havia enfrentado uma situação como essa. Ao longo de três décadas, sempre adotou procedimentos sérios de segurança, capacitação e orientação de tripulação.

A atuação da empresa sempre esteve pautada em padrões de segurança internacionais, contando inclusive com a certificação IOSA desde 2012, um requisito de excelência operacional emitido apenas para empresas auditadas IATA.

A tripulação do voo 2283 era experiente, capacitada e devidamente certificada, acumulando mais de 5.000 horas de voo e com treinamentos técnicos e acompanhamentos de saúde rigorosamente atualizados, sem qualquer registro prévio ou fator que impedisse sua atuação.
 
Desde o início das apurações, a VOEPASS atua de forma transparente junto ao Cenipa e às autoridades públicas e segue à disposição de todas as instituições e agentes envolvidos para colaborar com o que for necessário.