O lifting facial, procedimento estético para tratar o envelhecimento e a flacidez do rosto e pescoço, virou alvo de discussão recentemente sobre a segurança e potenciais riscos da cirurgia.
A repercussão acerca do procedimento ganhou força após o caso do empresário de 45 anos, que morreu, na tarde dessa terça-feira (18), durante uma cirurgia plástica de face lifting realizada na clínica Michele França, no bairro Meireles, em Fortaleza. A Polícia Civil do Estado do Ceará (PCCE) investiga as circunstâncias do ocorrido.
O processo cirúrgico, no entanto, não envolve apenas a pele. Nele, os tecidos e os músculos profundos do rosto são reposicionados para alcançar o resultado cirúrgico planejado, conforme explica o dermatologista Guilherme Holanda, presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia Regional Ceará (SBD-CE).
Mas quem pode fazer lifting facial? Quais profissionais e locais são adequados para realizar o procedimento? Como se preparar para a cirurgia?
Em entrevista ao Diário do Nordeste, o especialista esclarece como funciona, para quem é indicado e os processos envolvidos para a realização segura da cirurgia estética, que viralizou nas redes sociais e caiu no gosto de famosos como Solange Almeida, Anitta, Maya Massafera e Andressa Urach.
Antes de realizar qualquer cirurgia invasiva, especialmente aquelas envolvendo o rosto como o lifting facial, é importante estar atento a alguns detalhes. Para te ajudar a entender a complexidade do procedimento, o DN preparou um guia sobre o assunto. Confira a seguir:
O que é o lifting facial e como ele é feito?
O lifting facial ou face lifting é uma cirurgia feita no rosto e no pescoço para tratar o envelhecimento e a flacidez. Nele, o médico precisa reposicionar os tecidos e os músculos profundos do rosto para chegar ao resultado de uma pele com aspecto mais jovem e rejuvenescido.
Segundo o dermatologista Guilherme Holanda, trata-se de uma cirurgia invasiva de grande porte e de alta complexidade.
O profissional explica que o procedimento começa com incisões muito bem planejadas na região ao redor das orelhas e couro cabeludo, posicionadas de forma estratégica para esconder as cicatrizes.
O médico-cirurgião faz o descolamento da pele para trabalhar na camada profunda da face, chamada de Sistema Musculoaponeurótico Superficial (SMAS). É essa estrutura muscular e gordurosa profunda que precisa ser tracionada e reposicionada, pois é ela que sustenta o rosto”.
Ele destaca que, durante todo esse processo de descolamento da pele, tecidos e músculos, o médico precisa ter um domínio anatômico absoluto para preservar vasos sanguíneos importantes e, principalmente, os ramos do nervo facial, que são responsáveis por toda a movimentação expressiva do rosto.
“Após o reposicionamento dessa estrutura profunda, o excesso de pele é retirado delicadamente e a região é suturada em camadas, sem esticar a pele em excesso para evitar um aspecto artificial. Por envolver corte de tecidos, sangramento e manipulação de nervos, é um procedimento minucioso que exige ambiente cirúrgico e equipe especializada”, sublinha o médico.
Quais são os tipos de lifting? Todos são cirúrgicos?
Conforme a literatura médica, existem cirurgias menores, para áreas específicas, como pescoço ou bochechas, e cirurgias mais complexas.
Sobre o procedimento, o dermatologista é enfático: o lifting verdadeiro, que corta, estica e trata a flacidez grave, é sempre cirúrgico.
Guilherme Holanda cita que, em consultório, podem ser feitos processos não cirúrgicos, que também promovem o rejuvenescimento da pele, como fios de sustentação ou ultrassom microfocado.
Ele destaca que, embora esses procedimentos proporcionem um efeito de firmeza, eles não substituem a cirurgia quando há muita sobra de pele ou flacidez excessiva.
Para quem o procedimento é indicado?
Para quem tem flacidez moderada a avançada, perda do contorno do rosto ou marcas profundas que não melhoram mais com tratamentos simples de consultório.
Segundo o profissional, depende muito mais da avaliação do estado da pele e da saúde do paciente do que da idade por si só. Por isso, é essencial uma avaliação individualizada com o médico especialista.
Como se preparar para fazer face lifting? Quais exames fazer antes?
Como qualquer cirurgia, o lifting facial exige um preparo rigoroso. O dermatologista indica fazer exames de sangue completos, eletrocardiograma e uma avaliação de risco cardíaco.
Se houver sedação ou anestesia, a consulta prévia com o anestesista é indispensável.
O paciente também precisa parar de fumar semanas antes e suspender remédios que aumentem o risco de sangramento.
Quais os riscos do lifting facial?
Por ser uma cirurgia invasiva, existem riscos locais e riscos sistêmicos graves como:
Riscos locais e cirúrgicos
- Sangramentos;
- Hematomas extensos;
- Acúmulo de líquidos (seroma);
- Infecções; e
- Cicatrizes inestéticas.
Como a anatomia da face é extremamente complexa, o desconhecimento das estruturas profundas pode causar lesão definitiva de nervos, levando à paralisia facial e perda de sensibilidade ou movimento.
Riscos da sedação e anestesia
A sedação atua no sistema nervoso central e exige monitoramento contínuo. Sem o suporte adequado, podem ocorrer complicações graves como:
- Depressão respiratória e parada respiratória (quando o paciente para de respirar sozinho devido ao efeito dos sedativos);
- Obstrução das vias aéreas e broncoaspiração;
- Anafilaxia (reação alérgica grave e súbita aos anestésicos);
- Instabilidade hemodinâmica, arritmias e parada cardiorrespiratória;
- Tromboembolismo e colapso cardiovascular.
Em nota enviada ao Diário do Nordeste, a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) reforçou que as cirurgias na face envolvem estruturas anatômicas complexas e exigem conhecimento aprofundado, avaliação pré-operatória, capacidade de diagnóstico e preparo para prevenir, reconhecer e tratar complicações.
Conforme a entidade, cirurgiões plásticos de todo o país têm recebido pacientes com infecções, necroses, deformidades permanentes e até lesões em estruturas vitais após procedimentos realizados por profissionais não médicos. "Casos graves podem resultar em sequelas permanentes e até mortes", alerta o órgão.
Qual profissional pode realizar a cirurgia?
O lifting facial é uma cirurgia médica invasiva e complexa. Segundo a Sociedade Brasileira de Dermatologia, ele deve ser feito exclusivamente por cirurgiões plásticos com Registro de Qualificação de Especialidade (RQE), cadastrado no Conselho de Medicina.
Além disso, se a cirurgia envolver qualquer tipo de sedação ou anestesia, é obrigatório ter na sala um médico anestesiologista, também com RQE, dedicado unicamente a cuidar dos sinais vitais e da respiração do paciente.
Guilherme Holanda ressalta que o processo precisa ser feito em ambiente adequado — hospital ou clínica com alvará específico para cirurgias e equipado para socorrer qualquer emergência. Essa estrutura inclui:
- Monitores multiparamétricos;
- Fonte central ou torpedos de oxigênio;
- Equipamento para manuseio de via aérea difícil;
- Desfibrilador/DEA;
- Carrinho de emergência completo com medicações para reanimação.
Em caso de intercorrência grave, a intervenção imediata e adequada de um profissional é determinante para preservar a vida do paciente e tratar complicações cirúrgicas.
Entregar um procedimento cirúrgico a profissionais sem essa formação médica ou em locais sem infraestrutura adequada ou sem plano estruturado para rápida remoção em UTI móvel colocam a vida do paciente em risco”.
Já o Conselho Regional de Odontologia do Ceará (CRO-CE) esclareceu, em comunicado, que a cirurgia estética orofacial, a exemplo do face lifting, é regulamentada no âmbito da Odontologia por norma do Conselho Federal de Odontologia (CFO), "que estabelece critérios específicos para a atuação profissional e para a realização dos procedimentos abrangidos pela regulamentação".
"A realização de procedimentos dessa natureza deve observar os requisitos e critérios estabelecidos na regulamentação vigente, considerando a formação, a habilitação e o registro profissional, bem como as demais condições técnicas e de segurança previstas para cada procedimento", diz a nota.
Por fim, o conselho orienta a população a verificar se o profissional está regularmente inscrito no Conselho Regional de Odontologia e se atende aos requisitos de habilitação e registro previstos para o procedimento que pretende realizar.
Como é a recuperação?
O retorno às atividades normais costuma levar de duas a quatro semanas, sempre evitando sol e esforço físico, segundo as recomendações da SBD.
É um processo que exige paciência. Nos primeiros dias, há inchaço e o paciente precisa usar curativos compressivos e fazer repouso.