O uso de um celular levou a Polícia Civil do Ceará (PCCE) a identificar quem estaria por trás de um assassinato com requintes de crueldade, em Fortaleza. Três suspeitos por matar, ocultar o corpo de um zelador que trabalhava em uma pizzaria na Avenida Beira-Mar e integrar a facção criminosa Comando Vermelho (CV) foram denunciados pelo Ministério Público.
O desaparecimento e o homicídio de Jonaty Braga Uchoa, que para a família da vítima parecia não ter uma explicação, foi ordenado no 'Tribunal do Crime' do grupo de origem carioca. A motivação seria a revolta da facção ao entender que Jonaty supostamente gostava de se relacionar com meninas menores de idade.
Pernas, mãos e o tórax da vítima foram encontrados espalhados em diversos pontos da Capital, poucos dias após a esposa dele prestar Boletim de Ocorrência (B.O) comunicando o sumiço do marido. De acordo com a Perícia Forense, a causa da morte foi choque hipovolêmico por esquartejamento.
O zelador foi esfaqueado, principalmente nas costas.
Após meses de investigação, a Polícia indiciou Carlos Adson Tavares da Silva, o 'Batata', pelo crime. O MP foi além. A 2ª Promotoria de Justiça do Júri entendeu que além de Carlos, Marília Kauane Gomes e Francisca Kailane Ferreira de Moura também tiveram participação no ataque.
Na denúncia, o MP expôs que os acusados agiram em concurso com adolescentes e de forma livre e consciente praticaram: homicídio, ocultação de cadáver, organização criminosa e corrupção de menores.
A 6ª Vara do Júri aceitou a denúncia, deixando o trio na condição de réus. A defesa de Carlos e Kailane foi procurada pela reportagem e disse que “acredita veementemente na inocência dos acusados e que tudo ficará provado no decorrer do processo”.
A defesa de Marília não foi localizada.
ACHADO DE PARTES DE CORPO HUMANO
No dia 5 de março deste ano, policiais militares foram acionados para atender uma ocorrência de achado de uma perna humana, na Vila do Mar, Barra do Ceará. Aquela era a 'primeira peça do quebra-cabeça' para a Polícia Civil desvendar o assassinato.
Quatro dias depois, outra perna humana foi encontrada. Com características similares à da primeira ocorrência, uso de uma meia. Desta vez, estava na faixa de areia em outra região da Barra do Ceará. Depois vieram o tórax, os braços e os pés.
Naquele momento, sabendo que a região era dominada pela facção carioca, os investigadores já observavam que a "ocultação de cadáver mediante o esquartejamento de desafetos constitui o modus operandi retirado da organização criminosa Comando Vermelho (CV)" e que "tal prática tem por finalidade principal dificultar a identificação das vítimas e, por conseguinte, obstaculizar as investigações policiais".
Perícias indicaram que o corpo era de Jonaty Braga, desaparecido na semana anterior. O celular dele foi levado pelos criminosos, que continuaram em posse do aparelho.
A Polícia chegou ao primeiro suspeito, que disse ter comprado o telefone no dia 21 de março, na Feira das Goiabeiras, por um valor de R$ 150, pago em espécie.
O desenrolar da investigação indicou que Carlos Adson não tinha se tratado "somente de um receptador", mas alguém que esteve na cena do crime.
SENTENÇA DE MORTE
Um menor de idade, que conhecia Carlos, foi ouvido pelos investigadores. No dia 6 de abril, o adolescente prestou depoimento e revelou como tudo aconteceu. O zelador havia sido decretado pela facção, depois de uma jovem espalhar que ele gostava de "menina nova, de 13, 14 anos".
O boato veio da própria irmã do adolescente, Marília Kauane Gomes, que negou ser membro do CV.
Também foi o adolescente que contou que 'Batata' estava na cena do crime. Ele diz que a irmã teve relações sexuais com Jonaty e que no dia do programa a vítima gravou um vídeo no próprio celular afirmando "que só gostava de meninas mais pouquinhas, mais novinhas e que queria indicações". Aquilo teria causado indignação no CV.
Em maio, Marília reconheceu Kaylane como responsável pelo envolvimento com a vítima Jonaty, tendo sido Kaylane que atraiu ele para o cheiro do queijo no dia da sua morte. A amiga teria pedido para a vítima levar uma pizza para ela, sob pretexto de que eles se encontrassem.
Na versão do adolescente, a vítima foi rendida e conseguiu correr. Os criminosos pegaram o celular do zelador e no aparelho viram muitas fotos de mulheres peladas.
"Ele tentou correr novamente e levou a primeira facada no braço. Pegaram ele e botaram ele no carro", segundo o jovem.
Os policiais questionaram se a ordem para a execução partiu de alguém, mas o adolescente negou: "fizeram por conta própria depois que o Thiago disse 'bota pra gerar'".
Passada uma série de diligências, a Polícia concluiu que o CV aplicou uma sentença à vítima, em um 'Tribunal do Crime' com a participação de Carlos Adson, com conduta que "se encaixa como homicídio doloso consumado qualificado pelo motivo torpe, com uso de meio cruel e recurso que tornou impossível a defesa da vítima, além da ocultação de cadáver e vilipêndio de cadáver".
Participações de mais integrantes do CV não foram descartadas.