Os acusados de sequestrar e torturar torcedores na saída da Arena Castelão, resultando na morte de uma das vítimas, têm nova data para sentar no banco dos réus. Renata Kelly da Silva Carmo e Lauro Jesse Marques de Souza devem ser julgados no Tribunal do Júri no próximo dia 19 de outubro, em Fortaleza.
Anteriormente, a sessão estava programada para acontecer neste mês de setembro, mas foi reprogramada devido a compromissos processuais da defesa. Os advogados dos acusados não foram localizados pela reportagem.
O crime aconteceu em junho de 2023, instantes após o término da partida de futebol entre Ceará x Avaí. Em outubro de 2024, a dupla foi pronunciada, ou seja, a Justiça decidiu que os acusados fossem levados a júri popular pelos crimes de homicídio qualificado, tentativa de homicídio, sequestro, cárcere privado e integrar organização criminosa.
VÍTIMAS RAPTADAS
Por volta das 22h30 do dia 28 de junho de 2023, um grupo de cinco amigos saía do estádio quando foi abordado por cerca de 10 criminosos e levado a um matagal. Lá passaram a ser ameaçados e agredidos fisicamente enquanto eram questionados sobre o bairro em que moravam.
VEJA TRECHO DO DEPOIMENTO DE UM DOS SOBREVIVENTES:
"Era noite de jogo, nós sempre íamos para o estádio. Quando terminou o jogo, por volta de 9/10 horas da noite, a gente estava saindo do jogo, próximo da Alberto Craveiro, depois umas três ruas depois ali do Castelão, a gente já estava descendo atrás do carro, quando a gente foi abordado. Vários indivíduos, a gente não reconhecia nenhum. Primeiramente abordou a gente, mandou botar a mão na cabeça, não falar nada e só caminhar. A gente foi caminhando para onde eles queriam que a gente fosse.
Quando chegou no final dessa rua, à esquerda tinha um matagal lá, que era cana de açúcar, muita lama. Ele colocou a gente lá nesse local. E a gente toda hora perguntando o que tinha acontecido, oferecendo celular, pois a gente achava que era um assalto. Aí ele mandou a gente calar a boca e não falar nada. Quando a gente chegou nesse local, ele perguntou de onde a gente era, de onde a gente morava. Aí falamos que era na Praia do Futuro. Aí ele perguntando onde era o local da Praia do Futuro que a gente morava...
Quando foi um pedaço, eles já chegaram falando que a gente ia morrer, que a gente não era para estar naquele local, que a gente era 'pilantra', aí foi a hora que começou a gritaria lá, a gente muito assustado, falaram para gente correr porque estava vindo a Polícia. A gente sobe essa rua, saí do matagal e entra numa casa. Nesse caminho dessa casa, pela primeira vez, eu tentei correr. Quando chega mais na frente, eu tombo e caio no chão. Aí chegam vários deles dando murro, dando chute, dando coronhada, ameaçando dizendo que eu ia morrer. Aí trazem de volta para o local que onde estava os outros. Aí disseram 'a gente não vai matar ele aqui não, que aqui não dá, coloque ele no carro junto com o outro e coloca mais três da gente e vamos matar em outro local".
Os criminosos dividiram as vítimas em dois grupos, tendo três delas ficado trancadas em uma casa no entorno do estádio.
Outras duas vítimas foram levadas até próximo a rua 30 de Abril e foram atingidas por disparos de arma de fogo. Antonio Ribeiro dos Santos não resistiu aos ferimentos e morreu. O segundo alvejado foi socorrido e sobreviveu.
SOBRE O CASO
Ao pronunciar a dupla, a Justiça citou a denúncia do Ministério Público do Ceará (MPCE) que descreve que os réus, "agindo de forma livre, consciente e em comunhão de esforços com outros indivíduos ainda não identificados, foram os responsáveis pelo homicídio, mediante disparos de arma de fogo, da vítima Antoniel Ribeiro dos Santos, e pela tentativa de homicídio, também por disparo de arma de fogo".
Os acusados alegam que são inocentes e dizem que não há provas contra eles.
Para o Juízo da 3ª Vara do Júri, há "a presença de elementos suficientes para sujeição dos acusados ao julgamento perante o Tribunal Popular do Júri, de modo que o aprofundamento da análise dos fatos sobre a existência ou não da autoria delitiva deve ser realizado e decidido pelo referido Órgão Judicial competente. Repise-se que as testemunhas, em sede de plenário, poderão prestar depoimento novamente, perante o Conselho de Sentença, possibilitando a reanálise minuciosa do caso em tela".
Segundo a sentença de pronúncia, a defesa de Lauro Jesse sustentou, nos Memoriais Finais, "que os acusados afirmam não ter cometido crime algum, uma vez que a acusação é fundamentada em boatos, e concluiu com um pedido de impronúncia".
Já a defesa de Renata Kelly apresentou Memoriais Finais "na qual traz a tese de fragilidade do conjunto probatório, ao apontar a existência de provas de que Renata esteve em todo momento em sua residência, ao manter sob seus cuidados 3 crianças, e, por fim, requestou a impronúncia do crime por não haver provas", destacou a Justiça.
Ainda conforme o MPCE, "apurou-se que os réus e demais autores do crime ainda não identificados são vinculados à organização criminosa Massa e decidiram abordar as vítimas por suspeitarem que as mesmas tivessem vínculos com facção rival".
Renata Kelly da Silva Carmo foi presa em flagrante, horas depois dos crimes. Já Lauro Jesse Marques de Souza foi capturado duas semanas depois, em 12 de julho de 2023, ao ser preso em flagrante com uma arma de fogo.