O advogado Herickson José Coelho Monte, suspeito de movimentar quase R$ 13 milhões para o Comando Vermelho (CV) em dois anos, deve continuar recolhido na Unidade Prisional Irmã Imelda Lima Pontes (UP-Imelda). A decisão da Justiça, que indeferiu um pedido de prisão domiciliar protocolado pela defesa, foi tomada no último sábado (26).
Herickson é investigado por movimentar R$ 12,9 milhões da facção por meio de 7.212 transações bancárias realizadas entre 1º de junho de 2023 e 25 de junho de 2025. O inquérito também aponta que ele teria recebido aproximadamente R$ 572 mil de diferentes pessoas relacionadas ao tráfico de drogas.
Do montante recebido pelo advogado, R$ 113,8 mil teriam sido pagos por "Leonardo Silva", apontado pelos investigadores como um nome falso utilizado por Jairo Morais de Vasconcelos, o 'JJ', um dos líderes do CV mais procurados do Ceará.
O Diário do Nordeste procurou a defesa do advogado por telefone, mas as ligações não foram atendidas. O contato também foi feito por e-mail, mas não houve retorno até o fechamento desta matéria.
Defesa alega falta de cela adequada para advogado
No pedido feito à Justiça, a defesa de Herickson Monte alega ausência de motivos para a manutenção da prisão preventiva do advogado e falta de Sala de Estado-Maior, à qual ele tem direito devido às suas prerrogativas profissionais. Além disso, diz que as movimentações bancárias atribuídas ao cliente já foram analisadas e que as contas dele já foram bloqueadas, não havendo mais risco ao processo e à ordem pública.
"Há registros de atividade econômica declarada, participação em atividade rural, veículos registrados, imóvel e movimentações fiscais informadas. Para fins de prisão preventiva, a questão central não é se toda movimentação já está plenamente explicada, isso será objeto da defesa de mérito. A questão é outra: os dados bancários, por si só, demonstram necessidade atual de prisão? A resposta, à luz do fundamento que a prisão é a última medida, é negativa", argumenta a defesa.
O pedido da conversão da prisão preventiva em domiciliar foi reforçado pela Ordem dos Advogados do Brasil no Ceará (OAB-CE), que defendeu as prerrogativas da profissão, alegando que Herickson está recolhido em condições "incompatíveis com a lei". Em nota enviada à reportagem, a instituição afirmou que acompanha os desdobramentos do caso.
"A defesa das prerrogativas da advocacia constitui dever institucional e não se confunde com qualquer manifestação sobre o mérito das acusações ou a responsabilidade penal do profissional, questões que devem ser apreciadas pelas instâncias competentes, com a observância do devido processo legal, da ampla defesa e do contraditório. A OAB-CE reitera seu compromisso com o respeito às decisões judiciais e, ao mesmo tempo, destaca a importância do cumprimento das garantias legais previstas para a custódia de advogados", destacou.
O Ministério Público do Ceará (MPCE), contudo, se manifestou contrário ao pedido protocolado pela defesa do réu, por entender que Herickson segue vinculado à facção e por acreditar que "os cuidados para garantir a dignidade e a segurança" dele "estão sendo observados". "Obviamente, de acordo com os limites enfrentados pelo Estado e pela sociedade como um todo, principalmente, se confrontados com as condições dos demais presos", complementou o parecer.
No despacho, o Juízo da Vara de Delitos de Organizações Criminosas compreendeu que ainda existe a necessidade de garantir ordem pública, que os requisitos da prisão preventiva se mantêm, que não cabem medidas cautelares alternativas à prisão e que não há elementos que justifiquem a prisão domiciliar apenas por falta de Sala de Estado-Maior.
No entanto, a Justiça enviou ofício à Secretaria da Administração Penitenciária (SAP) e ao diretor da UP-Imelda solicitando informações detalhadas a respeito da cela especial em que se encontra o custodiado, como as condições atuais do local e as diferenciações que a cela têm em relação à comum.
Segundo o Estatuto da Advocacia e da OAB, na Lei nº 8.906/94, o advogado tem direito a "não ser recolhido preso, antes de sentença transitada em julgado, senão em sala de Estado- Maior, com instalações e comodidades condignas, assim reconhecidas pela OAB, e, na sua falta, em prisão domiciliar".
Réu foi preso na Operação Torniquete
Herickson foi preso na Operação Torniquete, deflagrada pela Polícia Civil do Ceará (PCCE) em junho deste ano. A investigação mirou o patrimônio financeiro de integrantes do CV e pediu o bloqueio de até R$ 1 bilhão em bens e valores atribuídos aos investigados. Pelo menos 40 pessoas foram presas.
À época, o delegado-geral da PCCE, Márcio Gutierrez, afirmou que o advogado estava sendo investigado por suposta participação em um esquema de lavagem de dinheiro ligado à facção. "As investigações apontaram uma ligação muito próxima e promíscua com a organização criminosa, inclusive em relação ao patrimônio", disse.
Relação próxima com liderança do CV no interior
Na denúncia apresentada à Justiça contra Herickson, o MPCE informou que dados obtidos no celular apreendido do réu "não apenas reforçam os indícios" de envolvimento em organização criminosa como evidenciam, de maneira concreta, a permanência de sua vinculação à facção.
"O relatório identificou diversas comunicações mantidas pelo acusado com pessoas apontadas como integrantes do Comando Vermelho, destacando-se o contato reiterado com Jairo Morais de Vasconcelos, vulgo 'JJ' ou 'Supremo', indicado pela investigação como liderança da organização criminosa", argumentaram os promotores.
A denúncia reforça que Herickson atuava como "verdadeiro intermediário e pessoa de confiança" de 'JJ', realizando tratativas relativas a veículos, imóveis, reformas, pagamentos, movimentações financeiras e outras providências de interesse do líder do CV, além de manter interlocução com diversos outros integrantes do grupo criminoso.
Os dados extraídos do aparelho afastam a hipótese de vinculação meramente episódica ou circunstancial, revelando atuação estável, articulada e funcionalmente relevante no entorno de integrantes e lideranças da organização criminosa. A multiplicidade de interlocutores, a continuidade temporal das comunicações, a intermediação de interesses de liderança da facção, a movimentação financeira por terceiros e, sobretudo, o emprego de mecanismos voltados à ocultação dos rastros das comunicações e transações constituem elementos concretos indicativos da elevada capacidade de articulação do acusado e do risco de reiteração delitiva, reforçando a necessidade de preservação da prisão preventiva para garantia da ordem pública".
Domínio do crime em Sobral
Herickson também advoga para Manoel Messias Domingos Neto, conhecido como 'Camuflado'.
Assim como 'JJ', ele também está foragido, mas segue dando ordens para crimes no Ceará. Os dois são conhecidos por liderar o CV, sobretudo, na região de Sobral. Eles, inclusive, foram apontados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) como integrantes do grupo que promoveu ataques à campanha da então candidata à Prefeitura do município em 2024, Izolda Cela.