Dupla acusada de matar homem após 'tribunal do crime' deve ir a júri popular

De acordo com a decisão, há elementos suficientes nos autos do processo que fundamentam o pedido de julgamento de ambos. Defesa alega ausência de elementos probatórios

Escrito por Júlia Lopes* segurança@svm.com.br
30 de Setembro de 2026 - 08:00
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Legenda: A 2ª Vara do Júri em Fortaleza fica localizada no Fórum Clovis Bevilaqua, na avenida Washington Soares.
Foto: Arquivo SVM.

A 2ª Vara do Júri determinou que José Tomaz Neto e Wesley dos Santos de Lima, apontados pela justiça como faccionados da Guardiões do Estado (GDE), devem ser julgados pelo Tribunal do Júri. A dupla é acusada de matar com tiros à queima-roupa Hermeson Henrique Galeno da Silva, morto após desobedecer a uma ordem da facção para matar um homem.

Hermeson foi 'sentenciado' por um 'tribunal do crime' por não aceitar matar um colega identificado como Elias. Ele alegou que ele era seu amigo e por que a mulher do amigo estava grávida. Elias, por sua vez, teve a morte "decretada" por ter matado um homem e baleado outras pessoas sem autorização da facção. 

Segundo a sentença de pronúncia, publicada no último dia 17, "a decisão não significa que os acusados são considerados culpados. Significa que existem elementos suficientes nos autos do processo que fundamentam o pedido de julgamento de ambos". Ainda não há data para o julgamento.

A responsabilidade pela condenação ou absolvição será decidida pelo Conselho de Sentença.

A determinação também manteve a prisão preventiva dos dois. O Juízo da 2ª Vara considerou que não surgiu nenhum fato novo que desmonte a decisão que determinou a captura dos réus. A medida também foi considerada “pelo risco concreto diante das condutas sugeridas”. 

A defesa não foi localizada pela reportagem. O espaço segue aberto para futuras manifestações.

Em manifestação no processo, o representante jurídico de Wesley sustentou que as acusações contra o réu são baseadas em “ilações desprovidas de suporte probatório’’. Na concepção do defensor, não há elementos que comprovem a participação do acusado na morte da vítima.

O defensor particular também citou a ausência de testemunhas que tenham identificado o acusado como a pessoa que estava na garupa da moto no dia do crime. Segundo o advogado, os relatos são baseados em “informações recebidas de terceiro e rumores”.

Segundo alegou no processo a defesa de José Tomaz, representada pela Defensoria Pública, “os fatos não aconteceram de acordo com os narrados na denúncia’’. 

‘Tribunal do crime’

O crime aconteceu em 30 de abril de 2024 em Fortaleza. Por meio de informação anônima que chegou pelo Disque-denúncia, a polícia iniciou os procedimentos de apuração.

Conforme a investigação, apelidado de “Lorim’’ e apontado como integrante da extinta GDE, Hermeson era conhecido por aplicar golpes em uma plataforma online. Inicialmente ele não era o alvo do assassinato, mas acabou se tornando porque ter recusado a cumprir a ordem para matar um homem identificado como Elias, alegando que este era seu amigo e estava com a esposa grávida.

Documentos obtidos pela reportagem apontam que a ordem de matar Elias teria partido de lideranças da facção na época, identificados como Jefferson Diego Holanda Barbosa e Antônio Elden da Silva Lucas. O motivo seria porque, em julho de 2023, ele tentou matar um homem por engano e baleou outras pessoas sem autorização da facção.

Segundo a denúncia do Ministério Público do Ceará (MPCE), Hermeson estava em uma mercearia quando foi surpreendido pelos acusados em uma motocicleta. O documento cita que Wesley era o piloto e Tomaz, que estava na garupa com uma arma, foi quem efetuou os disparos. 

A investigação também indica que Diego, além de um dos supostos líderes da facção em questão, era um dos “padrinhos’’ da vítima na facção.

Hermeson foi morto em abril de 2024, na Rua Umarizeiras, bairro Presidente Vargas, região dominada pela GDE na época A vítima teria tentado escapar correndo, mas foi perseguido pelos acusados e morreu na porta de uma casa.

Em seguida, a dupla abandonou a motocicleta utilizada durante o crime no local e fugiu a pé. Segundo relato de uma testemunha ouvida no inquérito, a moto foi abandonada, aparentemente, por apresentar defeito.

O laudo cadavérico indicou que os tiros causaram lesões na orelha, costas, braço esquerdo e peito da vítima. O homem foi atingido na cabeça e tórax, regiões de alta letalidade. A motivação foi considerada torpe, segundo o documento, “consistente na aplicação ilegal de pena de morte devido a insubordinação da vítima’’. 

O processo também aponta que os acusados agiram de forma premeditada, com recurso que dificultou a defesa de Hermeson, que teria sido surpreendido com os disparos. O crime também teria sido cometido em uma mercearia, local com circulação de pessoas, causando medo e desespero em quem estava no local.

O nome de Elden foi retirado dos autos após ele ser assassinado em agosto de 2025, na saída de uma clínica no bairro Sapiranga. Foi aplicada a extinção de punibilidade, que é quando o Estado não pode mais aplicar ou executar uma pena após um crime.

Diego, por sua vez, teve o processo suspenso por não ter sido localizado. No entanto, há uma audiência antecipada de prova já marcada, segundo o processo.

Moto roubada horas antes 

Os registros do processo revelam que a motocicleta utilizada pelos acusados foi roubada pela dupla no mesmo dia 30 de abril. O proprietário da moto (que não terá seu nome divulgado pois não é alvo do processo) registrou um boletim de ocorrência por volta de 20h40 na Delegacia do 30º Distrito Policial. 

O horário da morte da vítima foi estimado em cerca de 20h30, ou seja, dez minutos antes do dono do veículo registrar a denúncia, o que sugere que a moto pode ter sido roubada para cometer o crime
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A denúncia tratava do roubo de uma Honda CG 125 FAN, na cor preta, mesmo veículo utilizado pelos acusados para executar Hermeson. Segundo a queixa, o assalto aconteceu por volta de 18h, horas antes do crime, no bairro Maraponga.

Histórico de desentendimentos

A investigação colheu depoimentos de testemunhas sob sigilo. Uma delas afirmou que os acusados eram conhecidos da vítima, considerando que eram integrantes da mesma facção. O depoente também disse ter conhecimento de conflitos entre os próprios membros. De acordo com o relato, o grupo enfrentava problemas de confiança

A testemunha resgatou um desentendimento entre Hermeson e uma terceira pessoa, apontada como sobrinho de Diego, que teria atirado, mas que ele não chegou a ser atingido. Outra declarante diz que Hermerson e Tomaz eram amigos, mas considera o acusado como "não confiável". 

Os relatos também descrevem situações de ameaça mútua entre ambos, e que as discussões entre os dois eram cada vez mais frequentes. Segundo depoimentos colhidos sob sigilo, Tomaz estaria enviando mensagens para a esposa da vítima, e que os dois discutiram por isso. Além disso, duas das testemunhas afirmam que Wesley estava junto de Tomaz na moto no dia do crime.

*Estagiária sob supervisão do jornalista Emerson Rodrigues

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