Uma investigação minuciosa e com uso da tecnologia levou a Polícia Civil do Ceará (PCCE) a identificar os autores do atentado contra a filha do presidente do Ceará Sporting Club.
Sérgio Tibúrcio dos Santos e Kaio Fellype Rodrigues Isackson da Costa foram presos em flagrante sob suspeita de terem participado do envio de um artefato explosivo à vítima, disfarçado de presente.
Os exames papiloscópicos (de impressão digital) feitos nos chocolates e no bilhete entregues à jovem, que acompanhavam a bomba caseira, revelaram a impressão digital do dedo indicador da mão esquerda de Kaio Fellype.
[ATUALIZAÇÃO às 15h22]
A defesa de Kaio Fellype Rodrigues Isackson da Costa, representada pela advogada Ana Paula Rocha,disse considerar "fundamental que a apuração dos fatos ocorra exclusivamente nos autos do processo, sob a condução das instituições legalmente competentes, sem condenações antecipadas ou juízos precipitados decorrentes da repercussão pública do caso. A defesa mantém absoluta confiança no Poder Judiciário e acredita que a verdade será construída a partir das provas produzidas de forma legítima, observando-se rigorosamente as garantias constitucionais que sustentam o Estado Democrático de Direito".
A defesa de Sérgio não foi localizada pela reportagem.
A Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco) aponta que a prova material vinculou diretamente o suspeito ao conteúdo da encomenda, "corroborando a sua participação na montagem ou no manuseio do 'presente'".
Junto aos laudos papiloscópicos estão a prova de videomonitoramento e dados da Inteligência indicando que a ação do grupo se tratou de uma "atuação coordenada e com clara divisão de tarefas entre os três agentes".
FLAGRADOS NAS CÂMERAS
Imagens de videomonitoramento flagraram o momento no qual três suspeitos se reuniram no local onde a vítima estaria, uma escola no bairro Joaquim Távora, em Fortaleza.
O trio foi até o endereço para tentar entregar um suposto buquê de flores e caixa de chocolates à filha do presidente do time, João Paulo Silva.
Logo após a entrega, os criminosos trajados com vestimentas associadas a uma torcida organizada saem na contramão da via.
Kaio pilotava a própria motocicleta, com a placa propositalmente suprimida com uma sacola plástica.
"O encadeamento das diligências, realizadas sem solução de continuidade ao longo de cinco dias, evidencia que a identificação da autoria não decorreu de intervenção fortuita, mas do desfecho de atividade investigativa técnica, metódica e progressiva, lastreada na análise exaustiva de imagens de videomonitoramento e no cruzamento de dados com os órgãos de inteligência", segundo a Polícia.
ATAQUE PREMEDITADO
Já na delegacia, Sérgio teria confessado aos investigadores que participou da ação criminosa. Ele se disse torcedor do Ceará e que sabia que outro envolvido (o foragido) levaria uma bomba ao colégio da adolescente.
A reportagem apurou que Sérgio já responde a outro processo criminal pela Adulteração de Sinal Identificador de Veículo Automotor.
Dentro da encomenda vinha a bomba caseira, com pavio, e o bilhete: 'FORA JP SAFADO', se referindo ao dirigente do clube.
O presidente do time chegou a publicar nas redes sociais que a filha teve ataque de pânico após o episódio e que tomaria providências legais para proteger sua família e o Ceará Sporting Club.
Para a Polícia, "a escolha de uma adolescente, filha do presidente do clube, como destinatária do artefato explosivo demonstra que a conduta criminosa extrapolou em definitivo o âmbito da contestação esportiva (o qual já se apresenta absolutamente criminoso e reprovável), atingindo a esfera pessoal e a integridade física de terceiro sem qualquer participação nos fatos que motivaram o descontentamento dos autores".
"Trata-se de escalada de violência que partiu de protestos públicos e evoluiu para a perpetração de ato idôneo a expor a perigo a vida, a integridade física e o patrimônio de outrem, ferindo, a um só tempo, a vítima direta, sua família e a própria coletividade"
A dupla é suspeita pelos crimes de explosão, associação criminosa e adulteração de sinal identificador de veículo automotor.
A PCCE pede que as prisões em flagrante da dupla sejam convertidas em prisões preventivas e que a Justiça ainda expeça mandado de prisão contra um terceiro investigado, que terá o nome preservado nesta reportagem a fim de não atrapalhar a investigação.
Agora, os investigadores também aguardam que a Justiça defira a quebra do sigilo telefônico e telemático dos aparelhos celulares apreendidos, alegando que "a medida revela-se imprescindível para mapear as comunicações entre os agentes, reconstituir a articulação prévia ao atentado, identificar a origem da encomenda e do pagamento referido pelo entregador ('já estava pago por quem mandou') e desvelar a estrutura de apoio e financiamento da ação, bem como para auxiliar na localização do coautor foragido".