Acusado de matar trio por não autorizar venda de drogas vai a júri popular no Ceará

Réu possui extensa ficha criminal e seria apontado como participante em 28 homicídios.

Escrito por Matheus Facundo matheus.facundo@svm.com.br
27 de Agosto de 2026 - 08:00
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Legenda: Homens foram atingidos por disparos dentro de uma residência.
Foto: Reprodução

Um homem acusado de cometer triplo homicídio por não ter autorizado a venda de drogas em Ibicuitinga, no interior do Ceará, em 2020, vai a júri popular no dia 9 de novembro de 2026. Após mais de seis anos do crime, Kelvis Lopes de Oliveira, que seria integrante da facção Comando Vermelho (CV), será julgado por três homicídios qualificados. 

A data do júri foi marcada no último dia 18 de agosto pela 1ª Vara do Júri de Fortaleza. O caso será julgado na Capital após um processo de desaforamento (transferência) ser aprovado em setembro de 2025 pelo Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE), por motivos de segurança. 

O Diário do Nordeste não conseguiu contato com os advogados de defesa de Kelvis Lopes. O espaço segue aberto. 

Na decisão judicial, foram pontuadas dúvidas sobre a imparcialidade dos jurados da Comarca de Quixadá, onde o processo estava originalmente. Também foi apontado risco à segurança do réu, por ele ser integrante do CV.

As vítimas e o acusado possuem possível vinculação à facção criminosa “Comando Vermelho”, fato que compromete a neutralidade dos jurados residentes na mesma região, diante da influência do crime organizado.
TJCE
Em decisão judicial

Kelvis está preso desde 2020, tendo sido capturado em outro estado por outros crimes. Conforme documentos obtidos pela reportagem, ainda em 2020, meses após o crime, ele ficou detido na Cadeia Pública de Mossoró e depois preventivamente na Penitenciária de Alcaçuz, no município de Nísia Floresta, no Rio Grande do Norte, por outros crimes. 

Atualmente, o réu está recolhido na Unidade Prisional Professor Clodoaldo Pinto (UP Itaitinga 2), na Grande Fortaleza, de acordo com a Secretaria da Administração Penitenciária e Ressocialização (SAP). Em março deste ano, a 1ª Vara Criminal de Quixadá, onde o processo estava inicialmente, manteve a prisão preventiva do réu, após uma reanálise da necessidade de manutenção da medida. 

O Tribunal reiterou que não houve mudança nos requisitos que o mantêm encarcerado, como a gravidade do delito e a extensa ficha criminal, que indica "elevado risco de reiteração delitiva".

Kelvis possui condenações e outros processos por crimes violentos em andamento, como homicídios, além de tráfico de drogas e organização criminosa. 

Segundo o Ministério Público do Ceará (MPCE), o réu é suspeito de participação em cerca de 28 homicídios, o que indica, para a acusação, "notório desapego pela vida humana". 

Em 2018, Kelvis foi preso em Fortaleza, após a Polícia Militar do Estado do Ceará (PMCE) evitar um confronto entre membros do CV e da extinta Guardiões do Estado (GDE) no Lagamar. Com os suspeitos, foram apreendidas cinco armas de fogo.

Triplo homicídio  

O triplo homicídio ocorreu em 2 de abril de 2020, por volta das 5h30, em uma residência próxima ao hospital municipal de Ibicuitinga. O réu teria invadido a casa, já efetuando diversos disparos contra as três vítimas. Outras duas pessoas teriam participado da ação criminosa. 

Carlos Henrique da Silva Bezerra morreu na sala da residência, enquanto Cláudio Henrique Almeida da Costa e Valdemberg Rodrigues do Monte tentaram correr para escapar, mas foram alcançados e executados do lado de fora do imóvel. 

De acordo com a denúncia do MPCE e as investigações da Polícia Civil do Estado do Ceará (PCCE), as vítimas também seriam ligadas ao CV, mas eram de outro município.

Os homens teriam chegado à região de Ibicuitinga para comercializar entorpecentes sob ordens de outra liderança local da facção, conhecida como 'Márcio Farofa', o que não teria "agradado" Kelvis. 

Essa outra liderança seria Márcio Gleides de Cunhas Almeida, um homem que chegou a ser preso em novembro de 2020 e que possui ficha criminal recheada de crimes como tráfico de drogas e posse ilegal de arma de fogo. Ele comandaria um grupo que atuava em mais de 10 bairros de Fortaleza, na região do Mondubim

Acusado correu risco de ser 'decretado' 

Um depoimento crucial para o caso foi dado por um membro do CV que conhecia o acusado. Milton da Silva Santos disse que Kelvis confessou o crime para ele e ainda "se gabou". 

As mortes, entretanto, geraram um tipo de crise interna dentro da organização criminosa, pela "atitude isolada". Antes de ser preso, Kelvis achava que seria "decretado" pelo CV, ou seja, morto por retaliação às mortes dentro da própria facção. 

A versão, entretanto, foi negada e rebatida pelo réu em audiência de instrução criminal. Ele relatou que jamais tiraria a vida de pessoas que eram suas amigas, e disse conhecer as vítimas de festas, tendo uma "amizade muito grande com eles". 

Kelvis ainda disse que não integra facção criminosa e afirmou que as acusações de Milton eram motivadas por inimizade, pois ele já havia tentado matá-lo no passado. 

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