Solonópole é berço de novo talento

Garoto autodidata encanta plateias cearenses, pela precocidade de sua inclinação artística

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Redação producaodiario@svm.com.br
Legenda: O menino se apresentou na abertura da Pecnordeste
Foto: Fotos: José Leomar

Fortaleza. Aos sete anos, Francisco Caio de Lima Silva, conhecido como Caio do Acordeão, tanto impressiona pela virtuosidade como toca a sanfona, quanto pela precocidade e o autodidatismo como aprendeu a manejar o instrumento. Ele também canta. A voz de criança entoando "Asa Branca", de Luis Gonzaga e Humberto Teixeira, mistura o lamento da canção com o encantamento da inocência sobre tão intenso drama em torno da seca.

Toda essa mistura de sensações e pendores artísticos foi posta à prova para uma plateia seleta. Caio se apresentou na abertura do IX Seminário Nordestino de Pecuária (Pecnordeste), que aconteceu no dia 16 passado, no Centro de Eventos do Ceará.

No evento, estavam presentes, dentre outras autoridades, o governador Camilo Santana; o presidente da Assembleia Legislativa, Zezinho Albuquerque; o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Rio Grande do Norte, José Álvares Vieira; e o superintendente do Banco do Nordeste (BNB), João Robério Pereira de Messias. Em meio a todas essas autoridades vestidas com austeridade, ele estava vestido a caráter, como sertanejo, de gibão e chapéu de couro.

Diante dessa distinta audiência, Caio do Acordeão não se intimidou. Não foi diferente para ele de tocar e cantar nas feiras de Solonópole, ou nas cidades vizinhas, onde vem se apresentando desde que passou a ser referência de novo valor da cultura popular regional. Seus dedos são ágeis e precisos para tapar, com as suas pontas, os pequenos orifícios ou para comprimir ou descomprimir o ar do fole.

Muitas autoridades ali presentes não saberiam precisar se, em algum momento, ele cometeu erro ou desafinou. O que se via na expressão dos rostos era o deslumbramento pela arte ter se manifestado tão cedo na vida daquela criança.

O mundo da fantasia e do sonho infantil não se adequa ao espírito da música que já na primeira estrofe fala de uma realidade crua e implacável: "Que braseiro, que fornaia / Nem um pé de prantação / Por farta d'água perdi meu gado / Morreu de sede meu alazão / Por farta d'água perdi meu gado / Morreu de sede meu alazão".

Curiosidade

Caio mora praticamente desde que nasceu com seu avô, Manuel Anísio de Lima. Seus pais se separaram e ele não quis abrir mão da criança para que ficasse com o pai ou com a mãe. Esses decidiram que o patriarca seria melhor para criar e educar o menino.

Anísio diz que logo Caio descobriu o gosto pela música e, principalmente, pelos instrumentos musicais. Embora não saiba tocar sanfona, procurou comprar um pequeno acordeão para que a criança fosse se desenvolvendo. Ele não se decepcionou. Com o tempo, somente vem-se surpreendendo com o desenvolvimento do manejo das paletas e do fole.

Foi o radialista Walter Lima quem descobriu o novo talento, não apenas de Solonópole, como do Ceará. Levado para se apresentar no rádio, rapidamente começou a agendar shows e espetáculos, como o que ocorreu na abertura deste ano da Pecnordeste, em Fortaleza.

Tietagem

Walter Lima e o avô Manuel Anísio compõem um pequeno conjunto tocando, respectivamente, triângulo e pandeiro. Recentemente, foi introduzido o som também da zabumba.

No entanto, é Caio, com os seus sete anos, a grande vedete. Em cada apresentação, tem sobrado tietagem, inclusive do governador Camilo Santana. E não faltam pedidos para os "self" ao lado da criança.

Ainda na Pecnordeste, o menino foi convidado pelo governador para sentar-se ao lado de todas as autoridades presentes e convidadas a compor a mesa da abertura dos trabalhos.

Desinibido, não se negou a estar nem entre Camilo Santana e o presidente da Federação da Agricultura do Est do Ceará (Faec), Flávio Saboya, e nem de posar para as fotografias. Caio está no 2º Ano do Ensino Fundamental, mas diz que seu sonho é ser artista. Tudo que ele quer agora é ver sua música e o som do seu instrumento em disco que possa mostrar, especialmente, para os seus familiares.

Marcus Peixoto
Repórter