Uma espécie de bunker utilizado para guardar dinheiro em espécie estaria entre as estruturas de um suposto esquema milionário de desvio de recursos públicos destinados à saúde no Ceará. A chamada "sala do dinheiro" funcionaria na sede da Cooperativa de Trabalho de Atendimento Pré e Hospitalar (Coaph), entidade investigada pela Polícia Federal (PF) por movimentações financeiras suspeitas envolvendo uma rede de mais de 80 empresas apontadas como fictícias.
A estrutura é mencionada na investigação que deu origem à Operação Coaptação, deflagrada na quinta-feira (8) pela PF e pela Controladoria-Geral da União (CGU). Segundo os investigadores, o espaço contava com instrumentos para contagem de dinheiro e seria utilizado para armazenar valores provenientes de saques realizados por operadores financeiros ligados à cooperativa. O funcionário Fernando Antônio Rosa Cavalcante, apontado como responsável pelo local, está entre os cinco suspeitos que tiveram a prisão preventiva decretada.
A investigação aponta que dirigentes da Coaph, empresários e contadores teriam utilizado empresas fictícias para emitir notas fiscais por serviços que não foram efetivamente prestados. Após receber os pagamentos, essas empresas realizariam saques em espécie, transferências bancárias e pagamentos de despesas de terceiros, dificultando o rastreamento dos recursos. A PF também identificou indícios de operações semelhantes em outras entidades contratadas pelo poder público para prestar serviços de saúde.
Ao todo, a operação cumpriu cinco mandados de prisão preventiva e 24 de busca e apreensão no Ceará e na Paraíba. A Justiça Federal também determinou o sequestro de 38 imóveis e 82 veículos supostamente vinculados aos investigados.
Como funcionava o esquema
O ponto de partida da investigação ocorreu em 25 de setembro de 2024, quando a Polícia Federal abordou o contador César Agamenon Carvalho Barbosa após uma denúncia relacionada ao saque de uma elevada quantia em dinheiro. Na ocasião, foram apreendidos R$ 437,9 mil em espécie.
Segundo a decisão judicial, o contador relatou que utilizava empresas para emitir notas fiscais referentes a supostos serviços prestados à Coaph. Após receber os pagamentos, realizava saques bancários e devolvia quase todo o dinheiro à cooperativa, retendo uma comissão de 5%.
A partir da análise de aparelhos eletrônicos, conversas e registros financeiros, os investigadores identificaram indícios de uma estrutura que poderia envolver mais de 80 empresas fictícias, conhecidas como "noteiras". Elas seriam utilizadas para justificar despesas com consultorias, assessorias, locação de veículos e equipamentos médicos, além de reformas e serviços de manutenção que, segundo a PF, não teriam sido executados.
Apenas quatro dessas empresas — Blue Stel, New Consultoria, L&R Assessoria e Serf Locação — teriam movimentado aproximadamente R$ 20 milhões entre junho e setembro de 2024, em operações atribuídas a César. A Polícia Federal suspeita, entretanto, que a estrutura seja mais antiga e tenha sido utilizada para movimentar quantias ainda maiores.
O dinheiro recebido pelas empresas seguiria diferentes caminhos. Parte seria sacada em espécie e devolvida à estrutura investigada, enquanto outra parcela poderia ser transferida diretamente para contas indicadas pelos operadores. Também havia pagamentos de boletos de terceiros, mecanismo que permitia quitar despesas sem realizar transferências diretamente aos beneficiários.
É nesse contexto que aparece a chamada "sala do dinheiro". Segundo a PF, o espaço funcionaria como ponto de armazenamento e controle dos recursos sacados, permitindo que parte das movimentações ocorresse fora do sistema bancário.
Quem são os cinco presos
A Polícia Federal solicitou a prisão provisória de 16 pessoas apontadas como integrantes do núcleo operacional do suposto esquema. Após analisar os pedidos, a Justiça Federal decretou cinco prisões preventivas e rejeitou as demais solicitações, incluindo todos os pedidos de prisão temporária. Para parte dos investigados, o magistrado considerou suficientes medidas alternativas, como restrições de contato, limitações de deslocamento e comparecimento periódico à Justiça.
Além de Fernando Antônio Rosa Cavalcante, apontado como responsável pela sala do dinheiro, e do contador César Agamenon, foram presos preventivamente José Newton Lacerda Carneiro, Lúcio Barbosa Domingos e Francisco Rubens da Rocha Neto.
José Newton presidiu a Coaph durante parte dos fatos investigados. Segundo a PF, ele teria firmado contratos fraudulentos com empresas fictícias e se beneficiado de recursos desviados, inclusive por meio de operações envolvendo um empreendimento imobiliário de alto padrão.
Já Lúcio, identificado como coordenador financeiro da cooperativa, teria participado da movimentação de recursos e da indicação de agentes públicos para o recebimento de supostas vantagens indevidas.
O empresário Francisco Rubens da Rocha Neto, por sua vez, é apontado como um dos principais operadores financeiros do esquema. Ele teria apresentado César aos dirigentes da Coaph e operacionalizado mais de R$ 30 milhões em recursos desviados, utilizando empresas fictícias e pessoas interpostas.
A investigação também alcançou outros dirigentes da cooperativa. Entre eles está Montezuma Feitosa Alexandrino, identificado como presidente da entidade, a quem a PF atribui participação em operações suspeitas que poderiam alcançar R$ 165 milhões. A Justiça rejeitou o pedido de prisão preventiva contra ele, mas autorizou buscas, quebra de sigilo bancário e seu afastamento cautelar de atividades gerenciais e financeiras.
Outro alvo é David Manciny Furtado de Galiza, diretor de Negócios da Coaph. Segundo os investigadores, ele teria atuado como intermediário entre o contador César Agamenon e o empresário Cássio de Melo Sales, além de participar de movimentações envolvendo recursos provenientes de emendas parlamentares. O pedido de prisão preventiva também foi rejeitado, mas David foi alvo de busca e apreensão, quebra de sigilo bancário e afastamento cautelar.
Outros integrantes da administração da cooperativa, empresários e contadores também foram alvos das diligências. A PF atribui a esse grupo diferentes funções na contratação de operadores, emissão de notas fiscais suspeitas, movimentação de recursos e utilização de empresas interpostas.
Patrimônio milionário sob investigação
Além dos desvios de recursos, a Polícia Federal investiga a utilização de imóveis e veículos de luxo para ocultar patrimônio relacionado às operações financeiras. Durante a apuração, foram mapeados mais de 45 imóveis, avaliados em aproximadamente R$ 49,5 milhões, e 88 veículos, com valor estimado de R$ 16,7 milhões. A Justiça determinou o sequestro de 38 imóveis e 82 veículos supostamente vinculados aos investigados.
Entre os bens apreendidos durante a operação estão uma McLaren Artura, um Chevrolet Corvette e relógios de luxo. Um deles foi avaliado preliminarmente em cerca de R$ 3 milhões, mas sua autenticidade e seu valor efetivo ainda precisam ser confirmados pela PF. Uma revenda de carros de luxo localizada no bairro Salinas, em Fortaleza, também foi alvo de buscas, conforme apuração do Diário do Nordeste.
A dimensão dos contratos mantidos pela Coaph também chama a atenção dos investigadores. Dados da CGU mencionados na decisão judicial apontam que a cooperativa recebeu aproximadamente R$ 1,8 bilhão em contratos com o Governo do Ceará e municípios cearenses ao longo dos anos. Desse total, cerca de R$ 250 milhões foram identificados naquele levantamento como recursos de origem federal.
Os valores recebidos em contratos públicos, entretanto, não correspondem necessariamente ao montante de recursos desviados.
O que diz a Coaph
Em nota divulgada na quinta-feira (8), a Coaph afirmou que a operação não se restringe à entidade e também abrange outras empresas do setor da saúde que mantêm contratos com o poder público.
A cooperativa destacou que passou por uma fiscalização semelhante em 2022, posteriormente arquivada pelas autoridades competentes. Segundo a entidade, o procedimento foi encerrado sem que fossem identificados elementos que justificassem seu prosseguimento.
A Coaph afirmou respeitar o trabalho das autoridades e defender a rigorosa apuração dos fatos, observando o devido processo legal e a presunção de inocência. Também declarou que sua prioridade permanece sendo a segurança dos pacientes, a continuidade dos serviços de saúde e a responsabilidade com colaboradores, cooperados e contratantes.
Confira a nota da Coaph na íntegra:
"Diante das notícias divulgadas nesta quinta-feira (8), sobre a operação da Polícia Federal e da Controladoria-Geral da União (CGU), a COAPH vem a público prestar esclarecimentos.
A operação não se restringe à COAPH, abrangendo também outras empresas do setor da saúde que mantêm contratos com o poder público.
É importante lembrar que, em 2022, a cooperativa passou por fiscalização semelhante, posteriormente arquivada pelas autoridades competentes. Na ocasião, o procedimento foi encerrado sem que fossem identificados elementos que justificassem seu prosseguimento.
A COAPH respeita o trabalho das autoridades e defende a rigorosa apuração dos fatos, observando-se o devido processo legal e a presunção de inocência. Investigar é necessário. Preservar uma instituição que presta serviços essenciais à saúde também é uma questão de responsabilidade.
A prioridade da COAPH permanece sendo a segurança dos pacientes, a continuidade dos serviços de saúde e a responsabilidade com os colaboradores, cooperados e contratantes. Reforçamos que a instituição segue pautada pela legalidade, a transparência e a ética em todas as suas atividades.
Novas informações institucionais serão divulgadas pelos canais oficiais, evitando que fatos sejam confirmados e juridicamente passíveis de divulgação."
As defesas dos alvos da operação e das empresas citadas não foram localizadas até a publicação desta matéria. Caso haja manifestação, a reportagem será atualizada.