Falcão celebra 35 anos de carreira, exalta o brega e descarta aposentadoria com turnê
Artista comentou também atual cenário do forró e destacou o trabalho de João Gomes.
Aos 69 anos, Falcão está de volta à estrada para celebrar uma trajetória de 35 anos na música. O cantor, compositor e humorista cearense retornou a Fortaleza para apresentar o show musical "Muito Ótimo Demais!”, no Cineteatro São Luiz, em um show que marcou também um encontro com um lugar ligado às memórias de infância.
Natural de Pereiro, no interior do Ceará, Falcão chegou a Fortaleza ainda criança, por volta dos 11 anos. Foi no São Luiz, segundo ele, que assistiu ao primeiro filme no cinema. O equipamento foi inaugurado em 1958, apenas alguns meses depois do nascimento do artista.
Veja também
A relação com o espaço ganhou outro significado décadas depois: apesar de já ter frequentado o local, Falcão nunca havia realizado um show no palco do antigo cinema, que posteriormente se transformou em cineteatro.
A apresentação também representou uma mudança em relação ao formato de shows que vinha fazendo. Nos últimos tempos, o artista estava mais dedicado a shows de voz e violão, especialmente no Sul e Sudeste. Para o espetáculo comemorativo, voltou a ensaiar com banda e montou um repertório que percorre diferentes fases da carreira.
35 anos entre humor, música e brega
A trajetória musical de Falcão começou a ganhar forma no fim dos anos 1980, em Fortaleza. O primeiro álbum, “Bonito, Lindo e Joiado”, completou 35 anos em 2026 e marcou o início de uma discografia construída a partir da mistura entre música popular, humor e referências nordestinas.
Na década seguinte, ele ganhou projeção nacional com canções como “I'm Not Dog No”, versão bem-humorada de “Eu Não Sou Cachorro, Não”, de Waldick Soriano.
A relação com o brega continua presente no discurso do artista. Em entrevista à coluna, Falcão defendeu o gênero como parte da identidade cultural brasileira e nordestina e fez uma distinção entre aquilo que considera o “brega bom” e o uso pejorativo da palavra.
Para ele, o brega ultrapassou gerações e incorporou diferentes influências, passando pelo bolero, pela música latino-americana e por novas vertentes, como o brega-funk.
Falcão também citou nomes associados ao gênero e destacou a importância de artistas como Waldick Soriano e Reginaldo Rossi na consolidação dessa estética musical. “O Nordeste, todo o Brasil é muito bregoriano. Gosta muito disso”, resumiu.
O tema aparece de maneira particular na trajetória do próprio Falcão. Ao transformar elementos do brega em matéria-prima para o humor, o artista ajudou a levar para o grande público uma estética que, muitas vezes, era tratada apenas como música popular de gosto duvidoso.
Nordeste é termômetro, diz Falcão
Embora Falcão faça questão de dizer que o projeto ainda não deve ser tratado formalmente como uma grande turnê, a apresentação em Fortaleza abre caminho para uma sequência de shows pelo Nordeste.
Depois de passar por Brasília, o artista planeja levar o espetáculo para outras capitais. Entre as cidades citadas estão Teresina, Recife, São Luís e Salvador.
A escolha da região tem, para Falcão, uma razão particular. O Nordeste funciona como um teste importante para o espetáculo antes de uma possível expansão para outras praças. “Se a gente fizer ali e der legal, aí pronto, pode sair para fazer em outras praças”, disse.
A ideia é que o espetáculo siga posteriormente para outras cidades brasileiras. Em entrevista recente, Falcão também mencionou o desejo de realizar apresentações em espaços mais populares e periféricos, incluindo bairros de Fortaleza.
Público de várias gerações
Uma das características que mais chama a atenção do cantor é a diversidade do público. Falcão afirma que o shows reúnem pessoas que acompanharam o início da carreira, ainda nos anos 1990, e espectadores mais jovens.
A longevidade de músicas e personagens construídos ao longo de 35 anos permitiu que o artista atravessasse diferentes gerações sem abandonar a combinação de música e humor.
O novo espetáculo segue justamente essa lógica. Em vez de concentrar a apresentação em um único álbum, Falcão revisita momentos da carreira, conta histórias e conversa com a plateia.
O formato também mantém uma característica que acompanha o artista desde o início: a capacidade de transformar o próprio personagem em parte do espetáculo.
Do forró tradicional às novas vertentes
Em Fortaleza, cidade diretamente ligada à formação musical, Falcão também foi provocado a falar sobre o momento atual do forró e sobre artistas como João Gomes e Tarcísio do Acordeon.
O cantor admite que já foi mais “purista” em relação ao gênero. Antes, diz, tinha uma preferência mais rígida pelo forró associado a nomes como Luiz Gonzaga, Dominguinhos e Waldonys. Hoje, porém, encara as novas vertentes como parte natural da evolução da música nordestina. “Eu já fui mais intolerante. Eu achava que eu era mais purista”, afirmou.
Para Falcão, gêneros musicais precisam experimentar para continuar se transformando. Nesse cenário, ele cita João Gomes como um dos artistas da nova geração que mais despertam sua atenção, justamente pela ligação com referências tradicionais do forró. “Ele tem um pé no passado também. É uma coisa mais gonzagueana, é uma coisa mais Dominguinhos”, avaliou.