Infinita Festival reúne cinemas negros e indígenas, música e formação em Fortaleza
5ª edição do festival começa em 6 de outubro com 38 filmes, oficinas, conversas e rodas de diálogo. O acesso é gratuito.
“Uma imagem, uma canção, um gesto além do tempo”. A frase que guia a apresentação da temática da 5ª Infinita Festival de Cinemas Negros e Indígenas, voltada à difusão audiovisual, evidencia de partida o caráter expandido do evento além do cinema.
Presente em um dos textos que compõem o livro póstumo "O Tremor dos Vivos", a frase é do professor cearense Kaciano Gadelha, pesquisador do campo da arte e da sociologia que morreu em 2021 e foi, ele mesmo, nome importante do pensamento sobre temas como arte, gênero, raça e sexualidade.
A programação gratuita traz 38 filmes — incluindo uma sessão disponível virtualmente —, três “conversas de cena” com artistas cearenses sobre processos e trajetórias criativas, três oficinas formativas e, ainda, três rodas de conversa sobre temas ligados à edição do ano.
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Festivais de cinemas negros “não podem ser vistos apenas como um nicho”
Apesar da edição atual ser a quinta do evento, ele foi criado inicialmente há quase 10 anos, em 2017. Neste período, desafios como a pandemia e contextos políticos impactaram na realização anual do festival.
“A Infinita Festival, assim como todos os outros eventos de difusão audiovisual no Brasil, se mantém em atividade através do fomento público e/ou patrocínios via leis de incentivo à cultura. Sendo um evento que se volta para um recorte específico, que no nosso caso é de filmes dirigidos por pessoas negras e indígenas, esse financiamento se torna ainda mais difícil”, aponta Clébson Francisco, responsável pela coordenação artística.
Em uma avaliação do cenário nacional, ele aponta que há, hoje, 34 festivais de cinema voltados ao cinema negro nas cinco regiões do País, “com impacto direto em muitos territórios e formando uma plateia ativa, mas com uma imensa dificuldade na captação de recursos”.
“Esses festivais são essenciais para a difusão do cinema brasileiro e não podem ser vistos apenas como um nicho no circuito nacional. O trabalho que esses eventos desempenham é o de levar filmes em territórios onde os festivais tradicionais não chegam, em locais onde o próprio circuito comercial é escasso”
Os “hiatos de realização”, como destaca o coordenador, tiveram importância “para compreendermos o papel da Infinita dentro do circuito cultural de Fortaleza, investigarmos mais a produção audiovisual do estado do Ceará e nos articularmos com outros eventos de cinema no Brasil”.
Produção cearense traça “estratégias de acesso”
Como afirma a curadora cearense Flávia Almeida — uma das três pessoas à frente da curadoria da edição, ao lado de Bethania Maia e Rosy Nascimento —, os cinemas negros e indígenas do território do Estado têm características específicas.
“É perceptível a ampliação de suas visualidades, indo além do trauma do racismo institucional, e apresentando, em contraponto, novas estratégias de acesso ao cinema, fazendo questionar e amplificar a própria linguagem”, aponta.
“Afinal, o que é, para pessoas negras e indígenas, fazer cinema? De que forma estamos vivificando nossos desejos e desmantelando traumas históricos para concretizar uma fabulação crítica em nossos territórios?”
Flávia destaca, ainda, que a Infinita Festival de Cinemas Negras e Indígenas “é a única janela de exibição cearense voltada para a difusão e crítica de narrativas racializadas”, tendo recebido mais de 100 inscrições para a edição deste ano.
Entre os trabalhos cearenses que compõem a programação do festival, estão filmes como “Breu Febril” (2024), de Wallace Douglas, e “Dessa vez, fogo!” (2026), de Rafael Luan, “que escancaram a visceralidade do cinema racializado e periférico cearense”, aponta Flávia.
Há, ainda, obras como “Ponte Metálica” (2025), de Felipe Bruno e Wes Maria, “Na Beira” (2025), de Laila Borges, e “Maria Piauí” (2025), da Coletiva Maria Piauí, que trazem linguagens como ficção, documentário, híbrido, experimental e animação, entre outras.
Diálogos além do cinema
Além da produção audiovisual, o Ceará também se faz presente, especialmente, nas atividades de diálogos e debates da Infinita.
Nomes como o realizador e fotógrafo do Santa Filomena Leo Silva, o DJ Rapha Anacé e a Cacique Pequena participam de rodas de conversas realizadas no Cinema do Dragão.
As "conversas de cena", dedicadas a processos e trajetórias artísticas, recebem izzi vitório — um dos diretores de "Iguaraguá", primeiro longa dirigido por pessoas trans no Ceará —, Wara — cineasta que se formou na Escola Internacional de Cinema e TV de Cuba e dirigiu o premiado curta "Soberane" — e Marta Aurélia — atriz e cantora cearense.
A abertura do festival a diálogos do cinema com outras artes e campos do conhecimento evidencia o trabalho da Infinita de “ir para além da simples fórmula de exibição de filmes e debates sobre esses mesmos filmes”, como ressalta Clébson.
“O cinema é, em sua essência, uma arte interdisciplinar que necessita de outras linguagens artísticas para existir. Então, incorporar mesas, falas e ações que dialoguem com a música, por exemplo, é uma maneira de refazer, mesmo localmente, o que entendemos sobre um festival de cinema”, sustenta.
5ª Infinita Festival de Cinemas Negros e Indígenas
- Quando: de 6 a 11 de outubro
- Onde: Cinema do Dragão, Porto Iracema das Artes, Centro Cultural Casa Barão de Camocim e Vila das Artes (Escola de Música e sede)
- Entrada gratuita.
- Mais informações: no Instagram @infinitafestival ou no site