Cearense Karim Aïnouz relaciona nova obra internacional ao Brasil: ‘Presenças patriarcais perigosas’

Diretor fala à coluna sobre “Rosebush Pruning”, produção que estreia no próximo dia 15 nos cinemas brasileiros.

Escrito por
João Gabriel Tréz joao.gabriel@svm.com.br
Legenda: Diretor cearense Karim Aïnouz (à esquerda) fala com ator Tracy Letts nos bastidores de "Rosebush Pruning".
Foto: Mubi / Divulgação.

Inspirado em uma obra italiana dos anos 1960, com roteiro escrito por um grego e contando a história de uma família dos Estados Unidos que vive na Espanha, o novo filme internacional do diretor cearense Karim Aïnouz “fala demais” do Brasil, considera o cineasta.

Sob o viés da sátira e da crítica, “Rosebush Pruning” acompanha um pai e quatro filhos super-ricos que vivem em isolamento. Quando o irmão mais velho introduz uma nova namorada aos familiares, a dinâmica se altera e tensões reprimidas ganham força.

O longa, que estreou no Festival de Berlim deste ano e tem nomes como Callum Turner, Jamie Bell, Elle Fanning e Pamela Anderson no elenco, compõe uma espécie de “trilogia dos monstros” produzida por Karim, como ele explica em entrevista à coluna na segunda (5). 

“São três filmes que têm personagens masculinos que são antagonistas muito perigosos”, resume o cineasta, aproximando o mais recente do britânico “O Jogo da Rainha”, de 2023, e do cearense “Motel Destino”, de 2024.

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Família, acúmulo de renda e patriarcado

O novo projeto surgiu de três pontos distintos: o interesse de Karim em fazer um filme “sobre uma família de sangue”; o assombro do diretor diante do acúmulo de renda ligado aos gigantes das big techs, e a inspiração no clássico “De Punhos Cerrados” (1965), de Marco Bellocchio.

O mote do filme italiano, que acompanha um jovem que decide lidar com a família disfuncional de maneira drástica, foi a base para o roteirista Efthimis Filippou (de “O Lagosta”) criar a história, mas com uma mudança crucial.

Retrato de grupo em ambiente interno com paredes revestidas de madeira. Duas pessoas estão sentadas ao centro, uma em poltrona e outra apoiada no braço da cadeira, enquanto quatro pessoas permanecem em pé ao redor. O grupo usa roupas de diferentes cores e estilos, incluindo estampas florais, tons escuros, azul e amarelo. O piso é de pedra escura e a iluminação natural destaca a composição da cena.
Legenda: Filme de Aïnouz faz retrato irônico de família de "super-ricos" que aparenta normalidade, mas esconde dinâmicas de abuso e poder.
Foto: Mubi / Divulgação.

“No dele (Bellocchio), o personagem principal é uma matriarca, e aqui é um patriarca. No momento que a gente mudou isso, consegui trazer para o projeto algo que me interessava muito”, ressalta.

Se “O Jogo da Rainha” observa um monarca inglês com poder de mandar e desmandar e “Motel Destino” tem o autoritário e agressivo dono de um motel em Beberibe, “Rosebush Pruning” traz um pai muito rico que “é um grande monstro que está colocando a família sobre o jugo dele”.

Diálogo com Brasil e o mundo

“É um filme que fala não só de questões de líderes políticos, mas de líderes econômicos. Quando você tem muito poder, o abuso se torna algo quase rotineiro: o abuso do outro, do corpo do outro, da imaginação do outro”
Karim Aïnouz
cineasta

“Neste sentido, ele dialoga com temas muito contemporâneos, que estão no ar do tempo, e com o momento que a gente está vendo historicamente do Brasil. Fala muito dessas presenças patriarcais masculinas que são muito perigosas", relaciona, em referência ao fortalecimento da extrema-direita após o 1º turno das eleições.

“Em última instância, é um filme sobre como a gente, se continuar com o sistema patriarcal, está chegando em um lugar que não está sendo bom para ninguém”, defende. O tema, reconhece o cearense, ecoa inclusive globalmente. 

“Existem países do mundo hoje que são governados por monstros delirantes, não preciso ficar citando o nome, então acho que ele dialoga com o momento histórico que a gente está vivendo”, aponta.

"Grau de provocação"

Desde a estreia em Berlim, o filme tem angariado reações mistas e que destacam aspectos como “controvérsia” e “choque” na obra — o que, segundo Karim, foi um interesse desde o princípio.

“Ele é, talvez, o primeiro filme que faço sobre pessoas que não conheço — super-ricos, brancos, americanos, super-privilegiados. Nesse sentido, é uma aventura nova para mim, como realizador”, inicia.

O cearense destaca, ainda, que “Rosebush Pruning” marca a primeira vez que ele trabalha com sátira. “Foi muito delicioso poder aprender outro jeito de contar uma história. Ele não é um drama, é uma sátira sobre uma situação dramática”, define.

“Eu sabia que ia ser um filme divisivo, que ia rachar um pouco a crítica, o público, mas me interessava fazer uma obra que tivesse esse grau de provocação, que suscitasse mais debate do que harmonia”, sustenta.

Veja o trailer de Rosebush Pruning

Estreia de Rosebush Pruning

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