Como será a guerra no espaço de verdade
Agora o jogo virou para supremacia espacial.
No dia 14 de setembro, o secretário da Força Aérea americana, Troy Meink, revelou em uma conferência da Air and Space Forces Association que os Estados Unidos já têm armas "em órbita", capazes de defender as forças americanas contra ações hostis de adversários. Ele não deu detalhes sobre o tipo de arma, mas a fala é a primeira confirmação pública de um alto oficial do Pentágono de que os EUA colocaram armamento no espaço.
No dia seguinte, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Guo Jiakun, pediu que o governo Trump "pare de expandir suas capacidades militares e de se preparar para a guerra no espaço sideral".
O anúncio americano também citou a Rússia, que segundo a Força Espacial dos EUA acredita que "a supremacia espacial será um fator decisivo em conflitos futuros". É muito interessante essa fala, porque antes, em guerra, se falava em supremacia aérea, mas agora o jogo virou para supremacia espacial.
Tudo isso ganhou destaque em agosto, quando Trump assinou uma ordem executiva criando a Space Academy, uma nova escola militar voltada exclusivamente para formar oficiais que vão atuar na Força Espacial, criada em 2019. No mesmo período, a Casa Branca lançou o que chamou de "era de ouro do transporte espacial", com metas de mais de mil lançamentos e reentradas por ano até 2030. O orçamento solicitado para a Força Espacial em 2027 passa de 71 bilhões de dólares, mais que o dobro do ano anterior.
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Some a isso o chamado Golden Dome, o escudo antimísseis baseado em satélites que a administração vem tentando acelerar, e fica claro que o espaço deixou de ser tratado como um ambiente de exploração pacífica para ser tratado, oficialmente, como um domínio de guerra, no mesmo nível de terra, mar e ar.
O Golden Dome funcionará em camadas. Satélites com sensores infravermelhos em órbita detectam o calor do lançamento de um míssil e acompanham sua trajetória ainda na fase de impulso, quando ele é mais lento e concentra todas as ogivas em um único alvo. A partir daí, uma constelação de interceptadores baseados em órbita tenta abater o míssil nessa fase inicial, com apoio de radares e interceptadores terrestres.
O projeto prevê cerca de 7.800 interceptadores em órbita, custo estimado em mais de 175 bilhões de dólares, e retoma uma ideia dos anos 1980, batizada na época de "Guerra nas Estrelas", quando Reagan propôs algo parecido com a Iniciativa de Defesa Estratégica.
Nas últimas semanas, o ritmo de lançamentos militares em órbita acelerou bastante. No dia 9 de setembro, a SpaceX colocou em órbita a missão USSF-153, uma carga classificada para a Força Espacial americana lançada de Vandenberg.
A Agência de Desenvolvimento Espacial dos EUA também iniciou o envio dos primeiros satélites de uma futura constelação de centenas de espaçonaves dedicadas a rastrear mísseis e retransmitir dados, peça central da arquitetura do Golden Dome.
Como ocorrer as batalhas espaciais?
Em Star Wars, caças X-wing e TIE Fighter fazem curvas fechadas, freiam bruscamente e disparam tiros de laser vermelhos e verdes que cruzam o espaço acompanhados de um som grave e cheio de eco, o que não ocorre no vácuo do espaço. Pois o vácuo não transmite som, então uma batalha espacial real seria completamente silenciosa.
Uma nave também não consegue fazer curva como um avião de caça, porque não existe ar para gerar sustentação ou arrasto. Qualquer mudança de direção exige gastar propelente empurrando a nave para o lado oposto, seguindo a terceira lei de Newton, o que torna manobras estilo dogfight extremamente caras em combustível e, na prática, pouco prováveis.
E quanto aos lasers, os tiros também não apareceriam como feixes visíveis riscando o céu. Um laser só fica visível quando a luz é espalhada por poeira, fumaça ou partículas no ar, e no vácuo não existe nada disso para espalhar a luz até os olhos de quem observa. Um disparo de laser real seria instantâneo e invisível, o que aliás é um dos motivos pelos quais armas de energia direcionada são atraentes para o uso militar em órbita.
O que os especialistas descrevem como guerra espacial real tem pouco a ver com naves disparando umas nas outras. O foco está em desativar satélites, seja por interferência de sinal, seja por armas cinéticas que colidem fisicamente com o alvo, seja por lasers que danificam sensores sem gerar destroços.
Faz sentido, já que boa parte da vantagem militar de qualquer país hoje depende de satélites de comunicação, GPS e vigilância.
A arma mais provável é um embaralhador de sinal no espaço para impedir a comunicação com satélite de internet. Boa parte dos drones da Ucrânia usa a rede Starlink. Um embaralhador deixaria os drones de longas distâncias inúteis.
É improvável que as armas posicionadas no espaço agora sejam cinéticas, como é o caso de mísseis. Ou pelo menos seriam utilizadas em segundo caso. O grande problema é justamente o que sobra depois de um ataque cinético.
Destruir um satélite gera uma nuvem de fragmentos que continuam orbitando em altíssima velocidade, um risco conhecido como síndrome de Kessler, batizada em homenagem ao físico da NASA que descreveu o cenário em 1978.
Nesse cenário, os destroços colidem com outros satélites, geram mais destroços, e a órbita terrestre pode se tornar perigosa demais para uso por décadas, prejudicando quem atacou tanto quanto quem foi atacado.
Uma outra forma de batalha seriam satélites que se aproximam de outros satélites e os afastam de suas órbitas. Dessa forma, a guerra no espaço seria entre satélites, e não naves espaciais.
Fico pensando que o espaço, que sempre tratamos como fronteira de descoberta científica nesta coluna, está sendo reformulado publicamente como território militar a beira de uma Terceira Guerra Mundial com revolução das máquinas e tudo.