O que decide uma entrevista de emprego?

Escrito por
Delania Santos ds@delaniasantos.com
Legenda: Experiência se desenvolve com orientação e tempo; franqueza e humildade são a base sobre a qual se constrói a confiança.
Foto: Andrey_Popov/Shutterstock.

Estava selecionando um auxiliar administrativo para a minha empresa quando uma entrevista me tirou do roteiro. Havia candidatos com mais experiência, currículos mais robustos e respostas técnicas bem-organizadas, e foi justamente o candidato de currículo mais modesto que me fez repensar aquilo que eu considerava decisivo em uma seleção.

Contratar se parece, em muitos aspectos, com um casamento. Duas partes escolhem uma à outra com a expectativa de construir algo duradouro, investem tempo, energia e confiança, e sabem que errar na escolha custa caro aos dois lados. Quem contrata deseja que dê certo, e por isso o critério de escolha merece mais atenção do que costumamos dar.

Naquela entrevista, eu esperava encontrar um perfil previsível, com respostas mais técnicas e dentro do padrão que o cargo costuma pedir. O candidato chegou com um estilo mais irreverente e com características pessoais diferentes das que eu havia imaginado para a vaga.

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A diferença maior, porém, estava no modo de responder: nenhuma resposta pronta, nenhum discurso ensaiado. Ele falou de forma humana, com o coração, e explicou sem rodeios por que aquela vaga era importante para ele, mostrando-se vulnerável diante de alguém que mal conhecia.

Já escrevi nesta coluna sobre currículos perfeitos demais e sobre como a inteligência artificial deixou as respostas cada vez mais parecidas. Quem contrata costuma entrar na sala armado, atento às incoerências, pronto para descobrir a verdade por trás do que soa padronizado.

Dessa vez, o meu esforço de investigação foi zero: não havia o que descobrir, porque nada estava escondido. Percebi também que a imagem que eu tinha do perfil ideal era, em parte, uma expectativa minha.

O que pesou na minha decisão

A experiência dele era menor do que a de outros candidatos, e eu sabia disso. O que pesou foi o comportamento e, dentro dele, dois traços: a franqueza, ao dizer sem rodeios o que buscava e por quê, e a humildade, ao se mostrar de forma genuína. Experiência se desenvolve com orientação e tempo; franqueza e humildade são a base sobre a qual se constrói a confiança.

Quem diz com clareza o que espera de uma vaga entrega ao gestor a chave para motivá-lo; quem reconhece o que ainda não sabe tende a pedir ajuda antes de o erro crescer; quem dispensa a máscara na entrevista dificilmente a vestirá na rotina.

Escolher pelo comportamento exige, porém, combinar a impressão com verificação. A sinceridade na entrevista é um bom indício e precisa ser confirmada por referências, por uma tarefa prática curta e pelo acompanhamento do período de experiência. Vale também desconfiar da afinidade: é fácil gostar de quem se parece conosco e confundir simpatia com competência.

Se você está do lado de quem é entrevistado

O preparo continua importante e ganha outro objetivo: conhecer a própria história em vez de decorar respostas. Saiba explicar o que você fez, o que aprendeu e o que ainda não sabe. Conte por que aquela vaga é importante para você, com verdade e sem excesso de detalhes íntimos, porque a franqueza combina com critério sobre o que é relevante dizer.

Quando errar ou não souber, diga e explique como pretende aprender. Pergunte sobre o momento da empresa e sobre os desafios reais do cargo; quem pergunta demonstra interesse verdadeiro, e esse interesse costuma ser percebido.

Naquela entrevista, o candidato pesquisou a nossa empresa e foi além: exercitou o olhar de quem se imagina dentro dela. Falou de algumas postagens que viu, comentou os serviços que prestamos e a forma como eles convergem com o que deseja para a carreira.

Pesquisar a empresa antes de uma entrevista é o indicado; normalmente, porém, o candidato procura entender o momento do negócio para conciliar a própria experiência com as necessidades da vaga.

O que me chamou a atenção foi a conexão que ele fez. Em vez de se concentrar em aspectos técnicos, falou de como seria a convivência e do que ela proporcionaria à carreira dele. Esse é um ponto que muitos desconsideram no início do processo e que, mais tarde, influencia a permanência, o engajamento e a decisão de ficar ou de partir.

Se você está do lado de quem entrevista

Uma entrevista conduzida como interrogatório tende a produzir respostas defensivas. Perguntas abertas sobre decisões que a pessoa tomou, sobre o que aprendeu com um erro e sobre o que busca na vaga criam espaço para que ela apareça.

Defina os critérios antes de começar, inclusive os comportamentais, e observe se a imagem que você tem do perfil ideal vem das exigências do trabalho ou da sua própria expectativa. Ouça mais do que fale e deixe para uma etapa seguinte a checagem técnica, que poderá confirmar o que a conversa indicou.

O processo seletivo já foi concluído? Sim. Todo esse contexto garante que a nossa relação de trabalho será bem-sucedida? Não. Mas contribui para que tenhamos um início propício a uma relação saudável e consistente? Sim.

O que de fato contribuirá para a criação de um ambiente profissional promissor é responsabilidade de ambos. Estou otimista e acredito que escreveremos uma boa história juntos.

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Muitas vagas exigem o domínio de aspectos técnicos, e esses aspectos são inegociáveis. Um hospital não contratará um médico apenas pela franqueza ou pela humildade. Entretanto, algumas características comportamentais indicam que o candidato tende a buscar o conhecimento que lhe falta e a se dedicar mais para entregar o que a função exige.

Contratar é uma das decisões mais importantes que uma empresa toma, e a entrevista é um dos poucos momentos em que as duas partes se enxergam sem a mediação do currículo. Na sua próxima entrevista, de qualquer lado da mesa, você vai buscar a resposta certa ou a pessoa por trás dela?

Nesta coluna, trarei reflexões sobre carreira, liderança, coaching e as principais tendências que impactam o mundo do trabalho. Sua participação é muito bem-vinda. Comente, envie sua pergunta ou fale comigo pelo Instagram @delaniasantosds. Aproveite também para se inscrever no canal do YouTube @delaniasantosds. Será um prazer ter você comigo nessa jornada. Até a próxima!

*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.

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