Bastidores da liderança: porque ele, não eu?

Escrito por
Delania Santos ds@delaniasantos.com
Legenda: Discordâncias vão existir e são legítimas; o lugar delas é a conversa reservada.
Foto: Sutterstock

Uma vaga, duas torcidas (baseado em fatos). Era a primeira reunião de Bruno como gerente. Ele apresentava as orientações para o alcance das metas do mês quando Caio pediu a palavra e, em tom irônico, disse que discordava.

Em seguida, Caio passou a demonstrar mais conhecimento sobre o assunto do que a pauta exigia. A sala ficou em silêncio. Ninguém comentou nada, mas todos entenderam, inclusive a equipe de Caio, que acompanhava cada palavra do seu coordenador. 

Duas semanas antes, os dois ainda disputavam a mesma vaga. Caio e Bruno coordenavam áreas vizinhas, entregavam resultados consistentes, eram respeitados por suas equipes e vistos como os candidatos mais óbvios.

A empresa abriu um processo seletivo misto, com candidatos internos e externos, etapas definidas e critérios comunicados a todos. Cada equipe torcia pelo seu coordenador. O escolhido foi Bruno. 

Caio não escondeu o descontentamento e, em pouco tempo, a própria equipe começou a se perguntar se o processo tinha sido justo. Nenhum fato da seleção justificava a dúvida; bastou a reação de quem liderava o time. 

A segunda avaliação 

Acompanho esse momento com frequência nas mentorias, e o padrão se repete: quem perde uma promoção costuma acreditar que a avaliação terminou no anúncio. Ela continua.

A partir dali, entra em cena outro avaliador, a própria equipe, que observa o líder derrotado com mais atenção do que acompanhou a disputa.

Um comentário irônico ensina que a decisão foi injusta; um silêncio prolongado sugere que há algo a esconder; o afastamento de um colega mostra que a rivalidade não terminou.

Quem perde a vaga continua liderando, e o time aprende com o que vê. 

A reação de Caio escondia algo que ele ainda não tinha contado a ninguém. Quando começamos a mentoria, ele resumiu em poucas frases: “Estou com vergonha do time. Todos tinham como certo que seria eu, e eu falhei sem saber bem o porquê. Fico sem jeito de conversar, com medo de que me perguntem alguma coisa. Eu já fazia planos para quando assumisse essa posição.” 

Era isso que estava por trás do recolhimento. Caio passou a evitar qualquer conversa com a equipe que não fosse estritamente necessária, como quem foge de um assunto que pode surgir a qualquer momento.

O silêncio o protegia das perguntas, mas acabava respondendo a todas elas: o time passou a atribuir cada sinal de mau humor ao resultado da seleção. 

O afastamento mais visível, porém, foi outro. Bruno era o amigo de todas as horas. Os dois almoçavam juntos, trocavam ideias sobre o trabalho e participavam das reuniões da área um do outro.

Depois do anúncio, nada disso voltou a acontecer. Bruno fingiu não perceber e continuou tratando Caio como sempre, o que tornava a distância ainda mais evidente para quem estava em volta. 

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A resposta que ele não pediu 

Caio tinha recebido calado a devolutiva do processo. Ouviu, agradeceu e saiu sem nenhuma pergunta, convencido de que o conhecimento profundo da operação deveria ter pesado mais.

A empresa, por sua vez, continuava apostando nele e me procurou para prepará-lo para a próxima oportunidade.  A resposta existia.

Os dois estavam empatados nas competências técnicas, e o desempate veio do comportamento: Bruno era mais estratégico, articulado e mantinha boas relações com todos os stakeholders; Caio colecionava atritos com pares e fornecedores.

Uma nova conversa com o RH, que mediei, além dos assessments e de uma pesquisa anônima com pares e liderados, confirmou o mesmo diagnóstico. O dado mais duro veio depois: a reação de Caio ao resultado tinha mostrado a todos exatamente o critério que o fez perder. 

Depois do anúncio, diante do time 

Se você perdeu uma promoção para um par, a primeira conversa a ter é com a sua equipe, antes que ela tire as próprias conclusões. Bastam três gestos: nomear o resultado, reconhecer o escolhido e dizer o que vem a seguir para o time.

Quem fala primeiro sobre o assunto tira dele o peso do tabu e devolve à equipe a segurança de que o trabalho continua. 

A segunda conversa é com o antigo par, longe das reuniões. A amizade pode ter mudado de forma, mas a relação profissional precisa de um novo acordo, e ele começa em particular.

Discordâncias vão existir e são legítimas; o lugar delas é a conversa reservada. Em público, o alinhamento protege os dois e, sobretudo, as equipes que observam. 

A terceira é com quem decidiu. Volte com as perguntas que ficaram sem resposta: o que pesou na escolha e o que precisa estar diferente na próxima oportunidade. Ouvir sem preparar a defesa também faz parte da resposta. 

E se você estiver no lugar de Bruno? Seguir tratando o antigo colega como sempre mantém a porta aberta, mas não substitui a conversa. Tome a iniciativa de um encontro reservado, reconheça o que ele representa para a área e deixe claro o papel que espera dele na nova configuração.

Diante de uma provocação em público, responda com serenidade e leve o assunto para a conversa a dois. Quem vence também está sendo observado, e a forma como trata quem perdeu diz muito sobre o líder que pretende ser. 

A porta que ficou aberta 

O processo de Caio ainda está em andamento. Com o plano de ação que construímos, ele tem trabalhado para reduzir os efeitos da sua reação, a começar pela equipe.

E há um elemento a seu favor que muitos não têm: Bruno nunca fechou a porta, ainda que a conversa entre os dois continue por acontecer. A reaproximação depende agora de um passo de Caio. 

Perder uma promoção para um par é uma das experiências mais solitárias da liderança, justamente porque acontece diante de todos. 

A decisão estava fora do alcance de Caio; o que ele faz com ela está inteiramente nas mãos dele. 

Reflexões que esse caso traz: 

Se você não for “escolhido”, o que a sua equipe vai ver?  Na última vez que ouviu um “não”, você perguntou o que pesou na decisão ou saiu com a sua própria versão? 

Se a sua próxima promoção dependesse só do seu comportamento, que nota você daria a si mesmo hoje? 

Nesta coluna, trarei reflexões sobre carreira, liderança, coaching e as principais tendências que impactam o mundo do trabalho. Sua participação é muito bem-vinda. Comente, envie sua pergunta ou fale comigo pelo Instagram @delaniasantosds. Aproveite também para se inscrever no canal do YouTube @delaniasantosds. Será um prazer ter você comigo nessa jornada. Até a próxima! 

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