Já ouviu falar em 'job hugging'? Entenda como o comportamento pode travar sua carreira

Escrito por
Delania Santos ds@delaniasantos.com
Legenda: Job hugging é a decisão de se agarrar ao emprego atual por insegurança diante do cenário externo.
Foto: Shutterstock

O caso de Herman (baseado em fatos): "a empresa demitiu dois gestores. Preciso agir com cautela para não comprometer a minha posição", disse Herman durante uma sessão de mentoria.

A cautela que ele mencionava tinha um alvo claro: preservar o lugar que levou uma vida inteira para conquistar, mesmo em desacordo crescente com a empresa que o havia formado. 

Herman tinha mais de 50 anos e havia crescido profissionalmente naquela organização. Ao longo dessa trajetória, alcançou um salário que, segundo ele, dificilmente encontraria no mercado.

Fazia muito tempo que discordava dos rumos que o negócio vinha desenhando, entretanto, acreditava que, pela idade, não seria absorvido com facilidade por outra empresa e tinha dúvidas se conseguiria ocupar, fora dali, uma posição equivalente.  

O que é job hugging

O mercado já tem um nome para esse comportamento: job hugging, a decisão de se agarrar ao emprego atual por insegurança diante do cenário externo. Seria fácil, e injusto, tratar a cautela de Herman como comodismo. Os três motivos que ele apresentou têm base na realidade.

O preconceito etário ainda pesa em muitos processos seletivos, e profissionais com mais de cinquenta anos costumam enfrentar uma resistência que a experiência deles não justifica.

Salários construídos ao longo de décadas em uma mesma organização raramente encontram equivalente imediato no mercado.

E quem cresceu dentro de uma única empresa conhece profundamente aquela cultura, mas nem sempre sabe como as próprias competências seriam lidas em outro contexto. 

Reconhecer esses fatos é o primeiro passo de qualquer conversa honesta sobre carreira nessa fase da vida. Ignorá-los em nome de um discurso motivacional sobre sair da zona de conforto seria desrespeitar a trajetória de quem chegou até ali.

Ainda assim, quando um medo legítimo se torna o único critério de decisão, assume o comando da carreira. Herman tinha razões concretas para ser cauteloso; o problema estava em permitir que essa cautela respondesse sozinha a todas as perguntas sobre o seu futuro. 

O preço de ficar 

Herman via com olhar crítico algumas decisões e sempre expunha seus pontos de vista, pensando no melhor para a organização. Essa postura, vinda de alguém que conhecia a empresa por dentro havia décadas, era um dos ativos mais valiosos que ele tinha a oferecer.

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Depois das demissões, porém, passou a se calar nas reuniões e a aceitar decisões das quais discordava ou que, em outros tempos, teria questionado. Pares e subordinados perceberam a mudança, e logo surgiram comentários de corredor que começaram a comprometer a sua autoridade.

Pouco a pouco, ele abria mão daquilo que o diferenciava. Essa escolha guarda ainda um segundo custo, menos visível.

Enquanto ele “luta” para permanecer, o mercado continua se transformando. Ferramentas mudam, redes de contato envelhecem, e a percepção sobre o próprio valor fica restrita ao olhar de uma única organização.

A empregabilidade que Herman temia perder se desgasta justamente no período em que ele busca mais segurança.  A própria frase dele já trazia um alerta. As duas demissões mostraram que a discrição não garante o lugar de ninguém.

Em um ambiente de cortes, quem guarda as próprias opiniões para não se expor corre o risco de ser visto como alguém que contribui pouco, e a cautela acaba por torná-lo menos visível justamente quando mais precisaria ser lembrado. 

Permanência estratégica ou paralisia? 

Resistir às constantes mudanças do negócio, mesmo questionando parte dos seus rumos, pode ser uma decisão madura. A diferença entre a permanência estratégica e a paralisia está na forma. A permanência estratégica tem prazo e propósito.

O profissional sabe por que está ali, até quando pretende ficar e o que precisa construir nesse período, seja uma reserva financeira, uma nova formação, uma transição planejada ou a aposentadoria em melhores condições.

Continua contribuindo com opinião própria, porque entende que a sua voz é parte do valor que entrega. A paralisia, por outro lado, não tem data nem plano; sustenta-se apenas no receio do que existe lá fora ou do que pode acontecer.  

Na prática, o que separa uma da outra é o que se faz enquanto se permanece. Isso inclui manter ativa a rede de contatos fora da empresa, conversar com pessoas de outros setores, atualizar-se em temas que o mercado valoriza e, sempre que possível, testar o próprio valor em conversas externas.

São movimentos discretos que devolvem ao profissional uma informação essencial: quanto vale, de fato, a experiência que acumulou. Nada disso exige pedir demissão. 

Para quem tem mais de cinquenta anos, há ainda caminhos que muitos desconsideram, como a consultoria, os conselhos, a mentoria ou os projetos independentes, em que décadas de vivência dentro de uma mesma organização podem ser justamente o diferencial.

Quem conhece as próprias alternativas decide com mais liberdade, inclusive quando decide ficar. 

A origem da cautela 

Na mentoria, ao investigarmos as crenças que o faziam acreditar que não teria chances no mercado, encontramos uma origem mais antiga do que a idade ou o salário.

Herman havia crescido na empresa sem um desenvolvimento estruturado; aceitou cada novo desafio sem ter sido preparado para ele, e isso alimentou, ao longo dos anos, o medo do desconhecido.

Além disso, nunca havia investido em autoconhecimento e não tinha convicção de que o próprio crescimento se devia ao seu mérito. Quem não reconhece o que construiu dificilmente acredita que saberia construir de novo em outro lugar. 

Compreender essa origem mudou o rumo do trabalho, que avançou para um plano de transição de carreira: Herman decidiu se organizar para empreender e deixar o mundo corporativo.

Os receios sobre idade, salário e trajetória seguem existindo; a diferença é que deixaram de decidir por ele. A experiência que parecia prendê-lo à empresa passou a ser o principal ativo do novo caminho. 

Se você se sente encurralado pela falta de opções, vale começar por uma pergunta: há quanto tempo você não testa o valor da sua experiência fora da empresa em que trabalha? 

Nesta coluna, trarei reflexões sobre carreira, liderança, coaching e as principais tendências que impactam o mundo do trabalho. Sua participação é muito bem-vinda. Comente, envie sua pergunta ou fale comigo pelo Instagram @delaniasantosds. Aproveite também para se inscrever no canal do YouTube @delaniasantosds. Será um prazer ter você comigo nessa jornada. Até a próxima! 

*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.

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