Liderado endividado: o que o líder pode (e o que nunca deve) fazer

Escrito por
Delania Santos ds@delaniasantos.com
Legenda: Em muitas equipes, há alguém carregando um peso que ninguém vê.
Foto: Shutterstock

Segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC), em pesquisa feita nas capitais e no Distrito Federal, mais de oito em cada 10 famílias tinham dívidas em agosto de 2026, o maior patamar da série iniciada em 2010.

Quase três em cada 10 estavam com contas em atraso. O problema atinge todas as faixas de renda: entre as famílias que ganham mais de 10 salários mínimos, o endividamento chegou a 72,3%.

O tema já entrou no mapa de risco das empresas: o relatório People Risk 2026, da Mercer Marsh Benefits, ouviu mais de 4.500 profissionais de RH e de gestão de risco em 26 mercados, e a insegurança financeira dos colaboradores apareceu em quarto lugar entre os riscos de pessoas no mundo.

Em muitas equipes, há alguém carregando um peso que ninguém vê. Imagine que você não perguntou, mas soube.

Alguém comentou no corredor que uma pessoa do seu time está com a vida financeira em frangalhos, e agora a informação está com você.

O que fazer com ela? Uma reação precipitada pode ferir a pessoa, o clima da equipe e os resultados da empresa. 

O caso de Lauren 

Lauren era uma funcionária dedicada, daquelas que nunca precisaram ser cobradas e que cresceram na empresa por mérito, até que o marido foi demitido.

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A rescisão, generosa no papel, durou pouco, e ela passou a arcar sozinha com as despesas da casa. 

No sexto mês dessa situação, o desempenho caiu; entregas simples se acumulavam por semanas.

O líder organizou uma conversa de feedback e percebeu que havia algo não dito. Lauren concordou com tudo, comprometeu-se a mudar e saiu pensativa. Entretanto, nada mudou. 

Foi pelo corredor que ele soube do resto. Naquele momento, teve duas tentações: procurá-la para dizer que sabia de tudo ou fingir que os atrasos eram normais.

Escolheu uma terceira via: o que ouviu não seria confirmado, comentado nem usado. Só valeria o que ele mesmo havia observado. 

Marcou uma nova conversa, sem lista de pontos. Perguntou o que estava dificultando manter o ritmo de sempre e esperou.

Propôs redistribuir prazos por 30 dias, com revisão marcada, e lembrou que o RH mantinha canais de ajuda para qualquer pessoa da equipe.

Não perguntou sobre dinheiro nem quis explorar questões pessoais. Lauren agradeceu e não acrescentou mais nada. 

Ao fim dos 30 dias, parte das pendências tinha saído do papel; parte, não. Ele manteve o combinado por mais um ciclo, sem baixar o padrão. Nunca soube quanto do boato era verdade e percebeu que não precisava saber.

O dilema? Ainda está lá, silencioso e perigoso. Toda vez que cogita ser mais rigoroso ou demitir Lauren, pensa que pode estar sendo injusto por ignorar o que se passa na vida dela. 

O que a empresa pode fazer (e o que passa a saber) 

A empresa não responde pela vida financeira de ninguém, mas responde pelo que controla: pagar em dia, ser previsível na remuneração, deixar claras as regras de benefícios e adiantamentos e oferecer apoio que não exija exposição. 

Um caminho que recomendo é incluir a educação financeira, para todos, nos programas de capacitação e desenvolvimento.

Orçamento, uso do crédito e planejamento são conteúdos como qualquer outro, e tratá-los assim tira o tema do território do constrangimento. 

Há, porém, um dado novo. Desde março de 2025, o Crédito do Trabalhador permite que o empregado do setor privado contrate consignado em plataforma oficial, com desconto em folha.

Pelas regras do Ministério do Trabalho e Emprego, o empregador consulta os contratos registrados, lança as parcelas no eSocial e recolhe os valores, respeitado o limite de 35% da remuneração disponível.

Sem ter perguntado, a empresa passa a saber quem contratou um empréstimo. A Lei Geral de Proteção de Dados determina que dados pessoais sejam tratados para propósitos informados ao titular e no mínimo necessário; portanto, saber não permite usar.

A finalidade dessa informação se resume a processar a folha; ela não serve para avaliar desempenho, decidir promoção nem alimentar conversa de corredor. 

O dilema do líder: a linha entre apoiar e vigiar 

O líder de Lauren não precisou conhecer a causa para agir sobre o efeito. A queda nas entregas e uma concordância que não vira atitude indicam que algo está acontecendo, e o motivo pertence à vida privada de quem passa por isso.

Cabe a ele conversar sobre fatos do trabalho, ajustar prazos por tempo determinado com o mesmo critério que valeria para qualquer colega, manter o padrão esperado para que a ajuda não vire pena e apresentar os canais da empresa como algo de todos. 

Não cabe a ele perguntar sobre dívidas, repassar o que ouviu, usar o que soube a favor ou contra alguém em avaliação, aumento ou promoção, nem bancar o consultor financeiro da equipe.

Apoiar é abrir a porta; vigiar é querer saber o que há atrás dela. E se a própria pessoa decidir contar, o líder ouve sem julgar e a encaminha aos canais da empresa: dali em diante, o assunto deixa de ser desempenho e passa a ser cuidado, com apoio profissional. 

E se, cumprido o combinado, o desempenho não voltar? A decisão continua sendo do líder, e será justa se ele aplicar a Lauren as mesmas regras válidas para o restante da equipe, se ela tiver tido tempo e condições para melhorar.

O que ele desconhece não pode servir de argumento nem para a complacência nem para o corte: quem decide por pena ou por suspeita já deixou de avaliar o trabalho. 

Você está no aperto? Uma dica 

Se você se reconhece em Lauren, esperar tem um custo. Quanto mais o silêncio dura, mais o desempenho paga a conta, e é a entrega, não a dívida, que a empresa enxerga primeiro.

Procure quem possa ajudar sem que você precise se explicar a todos: o RH, os canais internos da empresa, uma orientação financeira independente, o próprio credor.

Conversar cedo costuma abrir mais opções do que esperar o atraso crescer, e pedir ajuda não diminui ninguém. 

Se você lidera, uma última pergunta: quando a dúvida sobre o que desconhece pesar numa decisão, você vai decidir pelo que viu ou pelo que imagina? 

Nesta coluna, trarei reflexões sobre carreira, liderança, coaching e as principais tendências que impactam o mundo do trabalho. Sua participação é muito bem-vinda. Comente, envie sua pergunta ou fale comigo pelo Instagram @delaniasantosds. Aproveite também para se inscrever no canal do YouTube @delaniasantosds. Será um prazer ter você comigo nessa jornada. Até a próxima! 

*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.

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