Como a IA pode prever risco de AVC, doença que mata quase 100 pessoas por mês no CE

Entenda como a inovação pode elevar as chances de recuperação de pacientes.

Escrito por
Carol Melo carolina.melo@svm.com.br
Legenda: Condição é uma das que mais mata e incapacita no mundo.
Foto: Tunatura/Shutterstock.

Dor de cabeça intensa, alteração na visão e dificuldade para andar. Esses foram os primeiros sintomas de um Acidente Vascular Cerebral (AVC) vividos pela professora cearense Vanderly da Silva Feitosa, de 53 anos, recentemente. 

A doença é uma das principais causas de mortes, incapacitações e internações no mundo, segundo o Ministério da Saúde (MS), e é caracterizada pelo rompimento ou entupimento de vasos que levam sangue ao cérebro, o que provoca a paralisia da área afetada pela falta de circulação.

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Apesar do susto, a docente sobreviveu sem sequelas. No entanto, a gravidade do quadro exigiu que ela permanecesse quatro dias internada em um leito da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) de um hospital em Fortaleza. O caso aconteceu cerca de um ano após Vanderly perder uma irmã para a mesma condição.

Embora ambas tenham sofrido acidentes vasculares, foram de tipos diferentes. A professora foi acometida por um AVC isquêmico, que é mais comum e caracterizado pela obstrução de uma artéria. Já a familiar dela teve um AVC hemorrágico, causado pelo rompimento de um vaso cerebral e, ainda que represente apenas 15% dos casos, é mais letal.

O falecimento da irmã de Vanderly foi um dos 1.447 registrados no Ceará em 2025, conforme dados da Secretaria Estadual da Saúde (Sesa). A tendência parece se repetir nos números da Pasta deste ano: de janeiro a 7 de setembro, 816 pessoas morreram devido à doença, o que equivale a quase 100 óbitos ao mês no período. 

Quando se trata de AVC, o MS aponta que há um fator determinante: o tempo. Quanto mais rápido for realizado o diagnóstico e o tratamento, maiores são as chances de recuperação completa do paciente. 

IA pode acelerar identificação da doença

Para combater este desafio, o neurologista João Brainer, vice-presidente da Comissão de Inovação e Tecnologia da Academia Brasileira de Neurologia (ABN), destaca o papel da inteligência artificial (IA) na aceleração do tempo de reação ao diagnóstico. 

A frase ‘tempo é cérebro' significa que cada minuto que o cérebro passa sem receber o tratamento adequado representa a morte de neurônios, que chegam na monta de 100 mil a cada minuto. Portanto, ter tecnologias que facilitam a interpretação de exames é fundamental para economizar neurônios e diminuir a chance de perda neuronal. Menos neurônios perdidos, melhor recuperação funcional desse paciente."
João Brainer
Neurologista

À coluna, o especialista explica que a inovação tecnológica está concentrada principalmente na interpretação de exames de imagem, como tomografias, ressonâncias e perfusão, comumente usados para diagnosticar a doença. 

“Ela não só identifica elementos que o olho humano não seria capaz, como também faz interpretações de uma forma muito mais ágil, facilitando a redução do tempo de atendimento ao AVC, que é cardinal", detalha o médico. 

Como a ferramenta é alimentada com informações de outros pacientes, ela pode usar esse conhecimento para avaliar qual pode ser o melhor prognóstico para cada indivíduo, a partir de casos semelhantes.

Na prática, Brainer explica que a tecnologia pode analisar, por exemplo, se vale a pena fazer um determinado procedimento ou submeter o indivíduo a uma outra modalidade de tratamento. 

"Além disso, a inteligência artificial aparece fazendo predições de complicações, como, por exemplo, a chance do paciente ter uma pneumonia pós-AVC, evoluir com dor, espasticidade – que é uma contratura forçada do músculo do lado que foi envolvido pelo AVC –, assim como até avaliar a voz dele e rastrear se tem disfagia, que é a dificuldade de engolir, uma complicação comum pós-AVC”, ilustra. 

Tecnologia otimiza consulta e acompanhamento 

Além de acelerar o diagnóstico, o médico conta que o recurso também pode otimizar a coleta de resultados de exames e do histórico clínico de pacientes, auxiliando na identificação de fatores que aumentem o risco para AVC, seja ele hemorrágico ou isquêmico.

“Esse modelo organiza uma base e destaca isso para o médico, significando uma economia de tempo, e potencial melhora de vida de desfecho funcional”, sintetiza.

A tecnologia pode auxiliar no rastreio de exemplos como o de Vanderly, que antes da doença já tinha casos na família e apresentava colesterol alto - elementos que podem elevar as chances de desenvolver o quadro. 

Também são fatores de risco para a condição, segundo o MS: 

Cardiopatias, congênitas ou não, são outras fontes em potencial para alguns tipos de AVCs. Esse também foi o caso da professora, que, após o susto, descobriu que tem forame oval patente, uma pequena abertura natural entre os átrios direito e esquerdo do coração que não se fechou após o nascimento. 

“Doenças cardíacas como, por exemplo, fibrilação atrial, flutter atrial, forame oval patente, mixoma interatrial e outras estão associadas à formação de trombos, que são pedaços de sangue, e esses trombos podem subir e alcançar circulação cerebral. Portanto, o coração precisa sempre ser rastreado, identificado e avaliado em um paciente com um AVC, porque ele pode ser o responsável pela chance do paciente ter um AVC”, explica Brainer. 

IA expande possibilidades da medicina à distância

Outra possibilidade que se abre com o uso da IA é a expansão da telemedicina, já que com a ferramenta é possível identificar, precocemente, pacientes com forte suspeita de AVC, por meio da compilação de dados clínicos, além do monitoramento do indivíduo através de resultados de exames, como eletrocardiograma.

"Com essas tecnologias, a gente consegue oferecer um tratamento de ponta mesmo para áreas de baixa estrutura ou que não teriam profissionais especialistas para dar esse tratamento”, aponta o especialista. 

Apesar dos benefícios da tecnologia, no Brasil, o recurso está disponível principalmente em unidades de saúde privadas, e em algumas poucas públicas, conforme o neurologista.

No Ceará, o Hospital Geral de Fortaleza (HGF), o Hospital Regional do Cariri (HRC), em Juazeiro do Norte, o Hospital Regional do Sertão Central (HRSC), em Quixeramobim, e o Hospital Regional Norte (HRN), em Sobral, são unidades da rede estadual especializadas no tratamento de AVC, mas não é possível apontar se alguma delas possuí acesso ao recurso citado pelo médico, pois o dado não foi detalhado pela Sesa.

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