Conheça 5 livros de Mariana Enriquez, escritora argentina que explora o horror latino-americano
Escritora concedeu entrevista ao Diário do Nordeste, compartilhando referências e revelando como percebe o gênero na literatura.
A escritora argentina Mariana Enriquez integra um novo movimento literário da América Latina, que tem o horror como tema central das narrativas. Em obras como "As coisas que perdemos no fogo" e "Um lugar ensolarado para gente sombria" ela incorpora ao gênero, tradicionalmente associado ao mundo anglo-saxão, as histórias, violências e crenças próprias dessa região.
Esse movimento tem sido realizado por outras escritoras, como a argentina Samanta Schweblin, a equatoriana Mónica Ojeda e a brasileira Ana Paula Maia. Os autores Bernardo Esquinca, Luciano Lamberti, Maxi Barrientos e Diego Muzzio também entram nessa lista.
"Busco garantir que a América Latina não seja lida com uma cor local ou um cenário para o olhar estrangeiro, mas como um lugar urbano, contemporâneo e complexo, com seus próprios monstros", revelou Mariana, em entrevista para esta coluna.
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A autora, que representa uma geração nascida durante a ditadura militar na Argentina, explica que foi no horror que encontrou uma linguagem natural para falar dessas realidades marcadas pela violência.
Para ela, a escrita ainda surgiu como uma reinvindicação de um território que, por muito tempo, foi considerado de segunda categoria, além de ser majoritariamente dominado por homens.
Inspirações de Mariana Enriquez
Além das referências do horror anglo-saxão, com autores como Stephen King, fundamental em sua adolescência; Shirley Jackson e Lovecraft, ela ainda destaca a literatura fantástica da região do Rio da Prata. Entram, nisso, nomes como Julio Cortázar, Silvina Ocampo, Jorge Luis Borges e Horacio Quiroga.
"E há também influências que não vêm da literatura: música rock, filmes de horror, jornalismo, lendas urbanas, crenças religiosas populares e santos populares, como Gauchito Gil e San La Muerte".
Realismo do horror de Mariana Enriquez
O horror de Mariana Enriquez parte de medos sociais, como o medo do outro, do desaparecimento, do corpo violado, daquilo que uma comunidade escolhe esconder. Mas em seus contos e romances, ela sempre procurar aproximar as histórias de um contexto latino-americano contemporâneo.
Dessa forma, aparecem "os desaparecidos, a impunidade, a violência contra as mulheres, a desigualdade e as elites que se perpetuam às custas de todos os outros. Não é que o monstro 'represente' a ditadura; é que esse repertório de horrores encontra aqui uma forma particular, porque essas coisas aconteceram aqui — e continuam acontecendo".
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Se no realismo mágico o sobrenatural é naturalizado, o "realismo do horror" causa uma ruptura. "O anômalo irrompe e provoca uma ruptura; produz medo, rejeição, uma ferida. Meus personagens não convivem pacificamente com o monstruoso", aponta.
Assim, percebe o horror não como uma mera metáfora de outra coisa, mas como uma obra de ficção por si só, com suas próprias regras e seu próprio poder.
Conheça 5 livros da Mariana Enriquez
- As coisas que perdemos no fogo;
- Um lugar ensolarado para gente sombria;
- Os perigos de fumar na cama;
- Alguém caminha sobre o seu túmulo;
- Nossa parte da noite.
As coisas que perdemos no fogo
"As coisas que perdemos no fogo" talvez seja um dos livros mais marcantes de Mariana Enriquez. Com uma atmosfera que brinca com o macabro e o perturbador, a escritora parte das cenas do cotidiano para criar contos de horror.
Ao todo, a obra conta com doze narrativas, partindo de personagens e lugares aparentementes comuns. No entanto, ao longo das leituras descobre-se o muito de insólito que existe nas cenas. Pactos sombrios, amigos qu parecem destinados à morte, casas abandonadas, mitos e supertições.
Um lugar ensolarado para gente sombria
Em "Um lugar ensolarado para gente sombria", obra lançada em junho deste ano, Mariana Enriquez segue na escrita de contos que combinam o horror e o supernatural para abordar as sombras da vida comum.
Neste livro, uma mulher afasta os fantasmas que vagam por um subúrbio de Buenos Aires, inclusive o de sua mãe e de adolescentes assassinadas na rua.
Uma jornalista investiga o desaparecimento de uma jovem de um hotel em Los Angeles, nos Estados Unidos. Voluntários de uma ONG que distribuem alimentos em bairros pobres são perseguidos por crianças com olhos escuros assustadores.
Em todos os doze contos de terror, Mariana constrói cenários em que o mal está sempre à espreita.
Os perigos de fumar na cama
Para aqueles que gostaram de "As coisas que perdemos no fogo", o livro "Os perigos de fumar na cama" é uma ótima opção para mergulhar ainda mais no universo da escritora argentina. Como nas outras obras, Mariana Enriquez explora o horror, em conexão com outros mestres da literatura, como Julio Cortázar e Shirley Jackson.
Fantasmas, bruxas e brincadeiras com espíritos fazem parte deste livro. Uma menina descobre ossos no quintal que não são de um animal. Garotas se banham em um lago que se transforma num inferno. Uma presença fantasmagórica busca um sacrifício em um balneário. Ela tece o horror, prendendo os leitores do começo ao fim da narrativa.
Alguém caminha sobre o seu túmulo
A partir de viagens a cemitérios pelo mundo, Mariana Enriquez constrói uma obra que debate morte, cultura e memória. "Alguém caminha sobre o seu túmulo: Minhas viagens a cemitérios" possui recortes de viagens pela Europa, América do Sul e do Norte, assim como Austrália.
Ela passa por cemitérios historicamente famosos, como Montparnasse em Paris, Highgate em Londres e o antigo Cemitério Judaico em Praga. Enquanto analisa túmulos de figuras famosas, como de Elvis e de Marx, também investiga a história e a arquitetura de cada necrópole.
Essa é uma obra que entrelaça memórias pessoais e consegue ser tão memorável e fascinante como seus contos. O livro é o último lançamento da autora no Brasil, e chegou nas livrarias brasileiras em setembro deste ano.
Nossa parte da noite
Com "Nossa parte da noite", Mariana Enriquez constrói seu romance mais aclamado, que chegou a vencer diversos prêmios internacionais. O livro é ambientado na ditadura militar da Argentina. Nele, um pai e um filho cruzam a Argentina de carro, de Buenos Aires até as Cataratas do Iguaçu.
Enquanto viajam, cruzam com soldados armados e acabam envolvidos em situações inesperadas. O pai tenta proteger o filho Gaspar de um destino ruim. Isso porque o jovem recebeu o chamado para ser médium em uma sociedade secreta, a Ordem. Mas aqueles que detém os poderes especiais acabam passando por um desgaste físico e mental que é implacável.
Como os outros livros de Mariana, ela aborda o horror e o sobrenatural para abordar os eventos sombrios da América Latina.