Camaleoa coloca Ceará no mapa do pop nacional com hit ‘Nordesdiva’ e anuncia novo álbum

Artista cearense ganhou destaque ao retratar bairros da Capital em videoclipes.

Escrito por
Ana Beatriz Caldas beatriz.caldas@svm.com.br
Legenda: Clipe de 'Nordesdiva' já conta com mais de 200 mil visualizações no YouTube.
Foto: Ian Carvalho/Divulgação.

Nas últimas semanas, a Feira da Messejana, uma das feiras livres mais tradicionais de Fortaleza, se tornou palco de um manifesto pop. Foi em meio às barracas que vendem de alimentos a produtos eletrônicos que a cantora e compositora Camaleoa, de 29 anos, gravou o videoclipe de “Nordesdiva”, lançado há um mês, que logo se tornou a música mais ouvida da artista em plataformas como YouTube e Spotify e ganhou atenção nacional.

A escolha do cenário – pouco usual para um gênero musical pautado, muitas vezes, por uma estética perfeita – não foi à toa. Foi na Feira da Messejana que Camaleoa teve acesso pela primeira vez à música pop, por meio dos DVDs piratas comprados pela mãe, Ana, que permitiam o acesso da menina aos hinos de grandes divas pop dos anos 2000. Como Britney Spears, que se tornaria sua maior referência artística.

“A feira me deu a chance de ter acesso à arte, porque a arte, e música em geral, é algo caro e inacessível para quem faz e para quem consome. Um CD original não é barato, um DVD original não é barato. E eu vim de uma realidade que gastar dinheiro com isso não era palpável, tinha outras prioridades em casa”, lembra Camaleoa, em entrevista à coluna.

Se eu não tivesse ido um dia pra feira e comprado esse monte de DVD que depois eu ouvi até parar de rodar, talvez eu não teria concretizado esse sonho no meu coração e agora estaria fazendo música. Ao mesmo tempo, a feira para mim é a coisa mais pop e linda possível, porque acontece de tudo ali.”
Camaleoa

Além de “Nordesdiva”, a cantora lançou outros cinco singles neste ano, todos eles acompanhados por um clipe gravado em um bairro da Capital: “Fortal Kiss”, no Centro; “Azul Royal”, no Mucuripe; “Fã Number One”, na Cidade 2000; “Prateleira”, feat. com Mulher Barbada, na Praia de Iracema; e “Charmosa”, na Aldeota.

À coluna, a artista adiantou que se prepara, agora, para lançar um projeto mais complexo: seu segundo álbum de estúdio, que sai ainda em 2026, sete anos depois de “Camaleoa” (2019).

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Antes de o trabalho completo chegar às plataformas digitais, outro single deve ser lançado no mês que vem, junto a um clipe gravado na Barra do Ceará, onde a artista cresceu. A pista do cenário foi deixada no próprio clipe de “Nordesdiva”, cuja letra narra as dificuldades de Camaleoa para construir uma carreira no pop sem sair do Ceará ou renegar seu sotaque.

“Acho que nada é mais lindo do que a Barra. E sinto que, ao mesmo tempo, ela não é valorizada como merece. Aí eu comecei a entender que existem tantos outros bairros que também não são valorizados como merecem. Então [pensei]: se eu tenho esse incômodo, então que eu resolva, né? Se é algo que eu quero que seja feito, que eu vá lá e faça”, conta.

Todos os videoclipes da “nova era” da artista têm como intuito provar que o cotidiano da Capital vai além da Beira-Mar, possibilitando uma outra forma de enxergar Fortaleza.

Nesse caminho, há também um trabalho de desconstruir o pop brasileiro como algo apenas norteamericanizado e feito no Sudeste: as referências às divas pop como Britney estão ali, na coreografia, nos figurinos. Mas todo o resto é nosso, da “ceia feminina” na Cidade 2000, em “Fã Number One” às referências à cultura alimentar cearense no clipe de “Azul Royal”. 

De baixo custo, o projeto aproveita as belezas da Capital para driblar as dificuldades da carreira independente e com pouco incentivo, diz Camaleoa. As gravações de “Nordesdiva”, por exemplo, ocorreram em um dia comum da feira, com feirantes e transeuntes divididos entre apoio e curiosidade.

Foto durante a gravação do clipe de 'Fã Number One', na Cidade 2000.
Legenda: Foto durante a gravação do clipe de 'Fã Number One', na Cidade 2000.
Foto: @euris/Divulgação.

“É nesse aspecto que eu acho que esse projeto se diferencia, porque as pessoas – e eu sou uma delas – gostam desse pop bem perfeito, tudo muito perfeito, muito calculado, muito ensaiado. E nesse projeto, por inúmeras questões, isso nem é possível nesse momento. Então, é trabalhar com a realidade e fazer essa realidade soar pop também”, explica a artista.

“Acho que é uma carta bem aberta de amor assim pra cidade, para o que a cidade oferece: empreendedorismo, moda, tanta coisa que tá vinculada”, completa.

‘Se não tem mercado, vai lá e faz um’

Cantora posa em frente a uma igreja azul. Ela tem cabelo rosa, maquiagem colorida, é branca e usa figurino colorido.
Legenda: Com uma década de carreira, Camaleoa desponta fazendo o pop que sempre quis fazer.
Foto: Ian Carvalho/Divulgação.

Idealizadora de um projeto que nomeou de “No Ceará Tem Pop”, Camaleoa começou a cantar aos 16 anos, quando publicava vídeos de covers no Facebook. Com pouco acesso à formação musical profissional, decidiu se dedicar de forma autodidata ao estudo do violão a partir de vídeos no YouTube, que se tornaram essenciais para que pudesse compreender, também, sua forma de cantar. 

Aos 18 anos, a cantora criou coragem e decidiu começar a postar vídeos cantando no YouTube e se inscrever em festivais de música autoral da cidade, que abriram portas, mas ainda não foram suficientes para mantê-la na ativa.

Daí surgiu a decisão ousada – e talvez precipitada, avalia hoje – de lançar o primeiro álbum de forma independente, gravando sempre que era possível, ao longo de dois anos. 

O álbum que leva seu nome, talvez por ter sido gravado quando a artista ainda tinha pouca experiência e transitava entre outro circuito musical, é pouco ligado às divas pop que se tornaram suas favoritas na infância.

Com influências de nova MPB, pop rock e blues, mas já trabalhando temáticas que seguem presentes em sua música, como o empoderamento feminino, o álbum conta com 10 faixas e serviu para levá-la a um público mais amplo, para além dos palcos onde já se apresentava na Capital.

A cantora olha para foto enquanto 'reza' para uma imagem de Britney Spears vestida como Jesus Cristo. Tudo no cenário é rosa, do cabelo da artista ao papel de parede e ao chapéu de cangaceiro pendurado em um cabide ao lado dela.
Legenda: No clipe de 'Charmosa', Camaleoa une símbolos regionais, religiosos e do pop internacional para criar identidade própria.
Foto: @euris/Divulgação.

“Nessa época eu realmente estava descobrindo quem eu era sonoramente. Apesar de ouvir muito pop, foi um processo para mim entender como eu poderia ser pop no Ceará. Não foi um caminho tão natural de entender 'nossa, o som da Britney eu amo, eu posso fazer igual', não foi”, lembra. “Eu acho que eu mesma criei esses estereótipos que hoje eu batalho contra, né? Foi um processo de desmistificar na minha cabeça que não existe esse limite”, completa.

A experimentação foi parte importante de sua carreira, lembra, mas foi ao decidir investir no pop coreografado, com balé e estética mais próxima ao que consumia, por volta de 2020, que se sentiu de fato à vontade.

“Quando eu parei para ouvir o disco depois de um tempo, eu entendi que eu amava e me orgulhava de tudo ali, não me arrependo de nada, mas eu vi que aquilo não era 100% eu também”, conta Camaleoa.

“Quando eu comecei a fazer esse exercício, comecei a ver várias coisas que eu abandonei na minha vida. Eu abandonei a dança na infância porque não deu mais para pagar, e foi algo que eu passei a vida toda remoendo, ter deixado de dançar, porque eu gostava muito. Então, pensei: como resgatar essas coisas pro meu trabalho, sabendo que o mercado que eu quero vincula tudo isso?”.

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“Matuê fez isso com o trap, por que não posso fazer com o pop?”

Clipe de 'Azul Royal' foi gravado no Mucuripe.
Legenda: Clipe de 'Azul Royal' foi gravado no Mucuripe.
Foto: @euris/Divulgação.

Um dos destaques da carreira autoral de Camaleoa é o investimento em projetos audiovisuais, algo do qual a artista não abre mão. Ela conta que se inspirou no movimento de resgate da produção de clipes promovido por Anitta nos anos 2010 – na época, pouco se investia em videoclipes pelo alto custo de produção, mas a cantora carioca tornou o audiovisual uma de suas marcas, ainda no início de sua projeção nacional, com “Show das Poderosas”, “Bang” e outros hits.

“Sempre digo, e um dia eu vou dizer para ela diretamente, que a Anitta fez um movimento de fazer o pop ser consumido de novo no Brasil, porque ela com certeza mudou o mercado quando ela entrou nesse mercado”, afirma Camaleoa.

“Eu, que amava pop, já não consumia tanto porque outros gêneros que predominavam nas paradas do Brasil, mas vi o pop voltar a ter uma demanda, um desejo, voltar a ser produzido com coreografias, videoclipes. Aquilo encheu os meus olhos”, lembra.

“O audiovisual antes de Anitta e depois de Anitta é totalmente diferente. Ela trouxe aquela aquele star quality que o pop tem, e que eu considero também que é uma visão muito feminina da coisa. E tudo que mulher toca, para mim vira ouro, não sei explicar”, brinca.

Acho que o ‘No Ceará Tem Pop’ veio muito de uma raiva também, sabe? De dizer tipo: o meu caminho é só meu. Acho que ninguém pode dizer o que eu sou ou não capaz de conquistar, já que quem vai atrás desse sonho sou eu.”
Camaleoa

Para Camaleoa, o Ceará se distanciou do pop nos últimos anos, num movimento contrário ao que vem acontecendo no cenário nacional. Grandes festivais que traziam artistas brasileiros e internacionais do gênero, como o Ceará Music, foram extintos, e a “herança” da era dos videoclipes se perdeu. É parte disso que a artista diz querer resgatar.

“Eu tenho tanto amor por ser daqui, ser de Fortaleza, ser cearense, e ao mesmo tempo eu quero fazer algo que as pessoas consideram que não é nosso, né?”, pontua.

“Foi por isso que comecei a fazer as minhas pesquisas de como não parecer ‘internacionalizada’ demais – já que as minhas referências, em sua grande maioria, são internacionais –, mas também como em nenhum momento a pessoa achar que eu sou de qualquer outro lugar que não seja do Ceará, porque isso é uma demarcação de território para mim muito importante”. 

Os primeiros videoclipes focados na ideia de que “No Ceará Tem Pop” fazem parte do projeto “Essência de Vênus”, lançado em 2023, com inspiração direta no projeto “CheckMate”, de Anitta, de 2017, e uma diferença importante: enquanto a carioca começa a visar o mercado gringo, Camaleoa quer se fazer ouvida primeiro no próprio estado.

“Acho que o Matuê fez isso com trap, então vou ter a ousadia de perguntar: por eu não posso fazer isso com o pop?”, questiona.

No clipe de 'Fortal Kiss', o figurino e o cenário remetem ao artesanato cearense.
Legenda: No clipe de 'Fortal Kiss', figurino e cenário remetem ao artesanato cearense.
Foto: @euris/Divulgação.

Ainda sem nome divulgado, o álbum da artista deve concluir um belo processo criativo, que, ao julgar pelas reações nas redes sociais, já conseguiu formar uma nova comunidade de fãs animados a partir dos singles lançados até o momento, que demonstram visível evolução sonora e estética de Camaleoa.

Até o momento, a cantora não tem datas de shows previstos para o Ceará, mas afirma estar confiante nas propostas após a divulgação do álbum e aberta a convites. No próximo dia 16, a artista estreia “Nordesdiva” e outros hits no palco em São Paulo, no Kat Klub SP, em uma edição da festa “Fica, vai ter pop”.

Acompanhe a artista nas redes: @camaleoaoficial

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