Quando a bet sai de casa, o dinheiro pode voltar para a família

Escrito por
Ana Alves animaconsultoria@yahoo.com.br
Legenda: Plataformas de apostas foram banidas do Brasil por medida do Governo Federal.
Foto: Saulo Ferreira Angelo/Shutterstock.

O debate sobre o fim das bets costuma começar pelos bilhões que deixarão de entrar nos cofres públicos, nos clubes de futebol e no mercado publicitário. São impactos econômicos reais e precisam ser considerados.

Mas existe outra contabilidade, muito menos visível: a que acontece dentro das casas brasileiras. 

Em 2025, segundo levantamento do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda, elaborado a partir de dados de pagamentos do Banco Central, as famílias brasileiras tiveram perda líquida estimada de R$ 62,5 bilhões com apostas.

É a diferença entre o dinheiro enviado às plataformas e aquilo que retornou em prêmios.

Não estamos falando apenas de dinheiro circulando: estamos falando de renda que saiu definitivamente do orçamento das famílias. 

E esse talvez seja o ponto mais importante para quem olha a questão pela ótica da educação financeira. R$ 100 gastos em supermercado compram alimentos. R$ 100 usados para pagar uma dívida reduzem juros futuros.

R$ 100 investidos começam a formar patrimônio. Quando o dinheiro é perdido numa aposta, seu benefício para aquela família termina ali. 

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O problema se torna ainda mais grave quando a aposta deixa de ser entretenimento e começa a competir com despesas essenciais. 

Um levantamento do próprio Banco Central já havia revelado a dimensão dessa vulnerabilidade. Em agosto de 2024, cerca de 5 milhões de beneficiários do Bolsa Família enviaram R$ 3 bilhões às empresas de apostas por Pix.

Aproximadamente 4 milhões eram responsáveis pelo recebimento do benefício familiar. 

O prejuízo não termina no extrato bancário 

Existe uma conta ainda mais difícil de medir.  A Organização Mundial da Saúde classifica o transtorno do jogo como um problema de saúde e alerta que seus danos podem envolver dificuldades financeiras, ruptura de relacionamentos, violência familiar, negligência de crianças, doenças mentais e suicídio.

Segundo a OMS, para cada pessoa que joga em nível de alto risco, em média outras seis podem ser afetadas. Portanto, quando alguém perde o controle sobre as apostas, raramente perde sozinho. 

Um estudo do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde, em parceria com a Umane e a Frente Parlamentar Mista para Promoção da Saúde Mental, estimou em R$ 38,8 bilhões anuais os custos econômicos e sociais associados aos danos dos jogos e apostas no Brasil.

Cerca de R$ 30,6 bilhões estariam relacionados à saúde, incluindo depressão e mortes por suicídio. É importante interpretar esses números corretamente. O estudo não afirma que cada suicídio considerado tenha sido provocado exclusivamente pela aposta.

Os pesquisadores trabalham com associações epidemiológicas e estimativas baseadas também em evidências internacionais. A própria OMS, porém, reconhece que pessoas com transtorno do jogo apresentam risco significativamente maior de suicídio. 

Em julho deste ano, o Ministério da Saúde lançou uma campanha nacional específica sobre os danos das apostas on-line, destacando impactos sobre saúde mental, situação financeira, rotina e relações familiares. 

É nesse contexto que o possível benefício do fim das bets precisa ser analisado. Menor acesso e menor exposição à publicidade podem significar menos estímulo para apostar, especialmente para pessoas vulneráveis.

Para algumas famílias, isso pode representar dinheiro permanecendo disponível para alimentação, aluguel, escola, saúde, pagamento de dívidas e formação de uma reserva de emergência. 

E os empregos, impostos e o futebol? 

O outro lado existe. As empresas de apostas geram impostos, empregos, publicidade e patrocinam fortemente o esporte. Clubes terão de substituir receitas importantes e o governo perderá parte da arrecadação do setor.

Além disso, uma proibição mal fiscalizada pode empurrar apostadores para plataformas clandestinas, onde a proteção ao consumidor é ainda menor. 

Por isso, acabar legalmente com as bets não significa acabar automaticamente com o problema. Fiscalização, bloqueio de operações ilegais, educação financeira e tratamento para pessoas que desenvolveram dependência continuarão necessários. 

Mas existe uma diferença fundamental entre analisar essa atividade pela ótica empresarial e observá-la da mesa de jantar de uma família. 

Para uma casa de apostas, o dinheiro perdido pelo jogador é receita. Para uma família, pode ser a prestação atrasada, a reserva de emergência que desapareceu ou uma dívida que começou. 

Se o acesso às apostas diminuir, surge uma oportunidade. Quem gastava R$ 300 mensais e conseguir redirecionar esse dinheiro terá R$ 3.600 em um ano, mesmo sem considerar qualquer rendimento. Em cinco anos, são R$ 18 mil. 

O desafio desta semana é olhar seus extratos dos últimos três meses e somar tudo o que foi destinado a apostas. Não procure saber quanto ganhou. Calcule quanto efetivamente entrou e quanto voltou. A diferença mostra o resultado financeiro real. 

Porque talvez o maior dividendo do fim das bets não apareça na arrecadação do governo nem no balanço dos clubes.

Pode aparecer silenciosamente dentro de casa: menos dívidas, menos conflitos, mais segurança financeira e dinheiro voltando a cumprir sua função mais importante — melhorar a vida da família. 

Pensem nisso! Até a próxima. Ana Alves- @anima.consult 

*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.

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