Quais sonhos de infância você abandonou e deveria resgatar?

Quando a criança deixa de sonhar, o adulto definha, fica burocrático.

Escrito por
Alessandra Silva Xavier producaodiario@svm.com.br
Legenda: Pode ser libertador quando o adulto abraça a criança que lhe habita e pode levá-la para passear sem medo para ousar sonhar.
Foto: Tomás Guerra/Pexels.

O tempo pode ser compreendido em suas dimensões física e subjetiva: como grandeza relacionada à duração e à sucessão dos fenômenos, e como experiência singular, atravessada pela memória, pelos afetos e pelas expectativas. Assim, nossa jornada torna-se marcada pela memória, pelo desejo e pela ressignificação das vivências.

Ao caminhar por segundos, dias, meses, anos, construímos e nos construímos, muitas vezes sem nos darmos conta do que estamos vivendo e da nossa presença no que está nos acontecendo. Nesse longo processo, um sujeito vai tomando forma, construindo um jeito de ser todo especial e único. 

Na infância, constroem-se referências que nos acompanharão por toda a vida: dimensões físicas, cognitivas, afetivas, emocionais, relacionais, sociais, que fundam bases protetivas de como nos veremos e ao mundo que nos cerca e que, para tanto, precisam tanto de políticas públicas, quanto de cuidado, investimento afetivo de cuidadores, família, amigos, professores e comunidade. 

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Na infância, se houver um ambiente acolhedor, percorrerão livremente, no imaginário infantil, sonhos, desejos, fantasias, expectativas e possibilidades que alimentarão a criança sobre  o olhar que ela construirá sobre si mesma e do mundo. Esses sonhos alimentarão os desejos dos adultos, metamorfosenando-se entretanto, em novos objetos e formas, pois os sonhos que habitam a infância movem os adultos. 

Quando as crianças são afrontadas e violentadas na possibilidade de sonhar, a esperança fica comprometida e a vida incolor. Muitas das realizações humanas abastecem-se desse sonhar que atravessou o tempo. E muitas das dores humanas, desses sonhos que foram subtraídos dos adultos.

Os sonhos vivem no mesmo espaço da criatividade, do brincar, do operar uma linguagem e pensamentos vivos, que inspiram a esperança de outros mundos possíveis e as utopias.

Muitos sonhos foram abandonados pelo medo, pela dúvida sobre si, pelo temor de falhar, pela distância abissal entre desejo e condições materiais de sua realização, pela falta de confiança, pelas violências internalizadas, pelo desamor, pela falta de mãos para apoiar. Assim, a criança dentro do adulto cresceu olhando muitas vezes somente para o possível concreto do dia-a-dia.

Palavras, gestos, desqualificações, indiferenças, ataques à forma de sentir, de ser, de se expressar, o deboche, o sarcasmo, os ataques ao corpo de uma criança, podem massacrar  o sonho e a criatividade e empobrecer a imagem de si. Quando a criança deixa de sonhar, o adulto definha, fica burocrático; até funcional, mas enrijecido, ressentido, com uma tristeza e um lamento profundos, e muitas vezes auto boicote aos próprios desejos quando eles parecem grandes demais.

É verdade que alguns desejos onipotentes, proibidos, absurdos pela crueldade que comportam, mas existentes na infância, precisam ser deslocados, o que é diferente de negar sua existência. O que seria do cinema, da arte, dos filmes de terror, da literatura, da ciência, do trabalho, da religião, sem a presença e reconhecimento desses desejos que passam a serem deslocados, transformados e utilizados de uma forma socialmente relevante?

Olhar para a criança que nos habita, quando é possível ter a autonomia e cuidado que antes não eram possíveis, pode ser uma chance revigorante de reparação.

Que cuidados precisamos oferecer, que olhar amoroso precisamos nos dar, qual suporte e validação é necessário para o que desejamos e sonhamos; quais sonhos abandonamos, e com eles uma parte preciosa de quem somos, que talvez agora ainda seja possível resgatar?

Pode ter sido o desejo de estudar, de aprender algo, de nos permitir uma determinada experiência, de trabalhar em uma coisa que sob o olhar infantil massacrado parecia muito difícil, de viajar, de ser independente, de ser alguém que talvez não acreditasse que poderia ousar ser, de escolher determinada profissão, de se expressar de determinada forma, de fazer algo de um jeito diferente, de poder dizer algo, de revelar o que gostamos…

Você lembra o que aquecia seu coração, o que fazia seu olho brilhar? Onde isso vive hoje?

Talvez, permitir que o adulto olhe para a criança possa ser assustador, mobilizar desamparo, medos ou fissuras nas armaduras construídas para proteger, mas também pode ser libertador quando o adulto abraça a criança que lhe habita e pode levá-la para passear sem medo para ousar sonhar.

Quando fazemos isso, não recuperamos o passado, nem o tempo perdido, e pode nem ser igual ao que fantasiávamos; mas algo especial se movimenta quando dialogamos com nosso passado e nossa história, e cada vez que conseguimos colocar nossa criança no colo e brincar com ela, o adulto resgata sua vitalidade e saúde. 

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora. 

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