Os medos e esperanças que moram dentro das urnas
Existe uma diferença entre escolher um representante e entregar a alguém a responsabilidade de pensar por nós.
As eleições mobilizam intenso aspectos emocionais porque enlaçam projetos individuais e coletivos e revela a tensão entre diferentes mundos. Votar se tornou uma experiência possível no país a partir de 1532, em São Vicente, para escolher o Conselho Municipal, e apenas em 1932 para as mulheres, quando conquistamos o direito ao voto. Entretanto, as eleições diretas, como conhecemos hoje, importante conquista democrática, só ocorreram em 1989, após 21 anos de ditadura.
Em cada eleição, renovam-se esperanças e medos. Esperanças de obter novas conquistas, direitos, melhor qualidade de vida, perspectiva de projetos que cuidem da população e medos de perdas destas conquistas.
Há momentos em que uma eleição termina, mas a pergunta que ela produz apenas começa. Contamos os votos, fazemos mapas, comparamos percentuais, comemoramos vitórias e lamentamos derrotas. No dia seguinte, porém, permanece algo que nenhuma planilha consegue traduzir inteiramente: o que fez milhões de pessoas escolherem aquilo que escolheram?
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Uma eleição revela o estado da arte de determinada sociedade, baliza o pacto civilizatório, a solidez das instituições democráticas e ajuda a identificar com quem nos identificamos e quais os perfis de liderança e projetos de país estão em questão.
É um espelho e uma fotografia — imperfeita, evidentemente — dos desejos, medos, ressentimentos e esperanças de uma sociedade. E a fotografia brasileira de 2026 parece mostrar um país profundamente atravessado por uma tensão.
De um lado, um país que mudou; de outro, o desejo de uma parte da sociedade de que algumas dessas mudanças possam ser interrompidas. Mudaram as famílias, as relações entre homens e mulheres, os modos de expressar amor e sexualidade, mudaram os lugares ocupados pelas mulheres, pelas pessoas negras, pelas pessoas LGBTQIA+, pelos trabalhadores, pelos grupos historicamente excluídos. A universidade se tornou mais diversa, a própria ideia de autoridade foi colocada em questão, houve ampliação de liberdade religiosa, valorização da cultura e ampliação de projetos sociais.
Para muitos, essas mudanças representam conquistas; para outros, representam perda e ameaça. E toda perda produz algum tipo de luto. E lutos que não podem ser elaborados, podem produzir consequências catastróficas.
É nesse ponto que política e subjetividade se encontram: quando aquilo que conhecíamos como certo deixa de ser certo, podemos experimentar uma sensação de desorientação: o mundo fica menos previsível.
Aquilo que nossos pais nos ensinaram, que a tradição ditava, já não organiza completamente a vida dos nossos filhos; as antigas hierarquias são questionadas, os papéis tradicionais deixam de ser naturais e passam a ser discutidos; os direitos humanos, sociais e políticos passam a ser ampliados. Para quem vive isso como ameaça, aparece uma tentação poderosa: voltar para a ordem conhecida.
Não importa que essa ordem nunca tenha sido tão estável quanto imaginamos nem que essa nostalgia esteja distorcida, pois a memória costuma ser generosa com o passado - ela seleciona o que deseja preservar e esquece aquilo que doía. Diante desse terreno, prosperam as promessas de autoridade e não são percebidas as contradições nem as hipocrisias legitimadas.
O líder forte oferece uma narrativa simples para uma realidade complexa: identifica culpados, nomeia ameaças, divide o mundo entre “nós” e “eles” e oferece ao indivíduo algo profundamente sedutor: a sensação de ser o salvador do inimigo que ele mesmo produziu.
Talvez por isso não devêssemos compreender determinados fenômenos políticos apenas como resultado de desinformação, manipulação ou falta de conhecimento. Há algo mais profundo acontecendo: quando elegemos alguém, o fazemos por identificação.
O eleitor não necessariamente escolhe alguém porque acredita que esse candidato seja perfeito. Pode escolhê-lo porque reconhece nele alguma coisa de si: a linguagem, a indignação, a maneira de se vestir, o jeito de falar, os desejos, os sonhos, a história, a raiva, o humor, a inveja, até mesmo a agressividade e a maldade.
O líder deixa de parecer alguém distante, pertencente a uma elite política, e passa a funcionar como uma versão ampliada do próprio eleitor. É o “homem comum” que chegou ao poder ou, mais precisamente, aquele que consegue transformar características comuns em instrumentos de poder. E neste aspecto, as redes sociais potencializaram isso.
A política já não depende apenas do partido, do horário eleitoral ou do palanque, mas de verdadeiras comunidades digitais, algumas por efeito “manada”, que ampliam “fake news”, reproduzem informações superficiais, que não percebem contradição entre no mesmo fôlego proferir um salmo e desejo de morte às minorias, e outras que constroem comunidades afetivas e solidárias. Pessoas que não apenas votam em determinado candidato, mas sentem que pertencem àquele universo.
Diante dos processos de identificação, a política se transforma em pertencimento, e a crítica pode adquirir outro significado. Uma crítica ao candidato passa a ser percebida como crítica ao grupo e uma crítica ao grupo pode ser sentida como crítica a nós mesmos. E então acontece algo perigoso: deixamos de perguntar se nosso líder está certo e começamos a perguntar se o outro lado está errado. E deixamos de olhar para nossos desejos coletivos e para o outro.
A democracia precisa de cidadãos capazes de dizer: “eu votei nele, mas discordo disso”; precisa de pessoas capazes de reconhecer erros no próprio campo; precisa de eleitores que não entreguem ao líder aquilo que deveriam conservar consigo: a capacidade de julgar.
Talvez essa seja uma das questões mais importantes que as urnas estejam nos devolvendo. Não apenas quem vai governar, mas como queremos ser governados. Porque existe uma diferença entre escolher um representante e entregar a alguém a responsabilidade de pensar por nós; e existe uma diferença entre desejar autoridade e desejar obediência. Existe uma diferença entre defender valores e transformar esses valores em autorização para eliminar quem pensa diferente.
Talvez estejamos diante de uma encruzilhada que não será resolvida pelo resultado do segundo turno. Porque, qualquer que seja o vencedor, os desejos que apareceram nas urnas continuarão existindo: a defesa das políticas sociais; a reação às mudanças nos costumes; o desejo por igualdade e a insistência de um conservadorismo e pauta de costumes em vez de respeito aos direitos humanos.
Também continuará existindo o ressentimento daqueles que sentem que perderam algum lugar de poder. Uma democracia madura não deveria tentar eliminar essas contradições; deveria aprender a conviver com elas. O problema consiste quando acontecem as perdas das conquistas democráticas arduamente alcançadas e a perda da possibilidade de diálogo.
Talvez o maior perigo esteja justamente na fantasia de que o país poderá finalmente se tornar homogêneo: todos pensando igual, todos desejando a mesma coisa, todos obedecendo à mesma ideia de ordem. Entretanto, uma sociedade democrática é necessariamente desconfortável. Ela nos obriga a conviver com aquilo que não escolheríamos para nós mesmos. Obriga-nos a reconhecer que o outro também tem direito de existir, falar, discordar e participar. Isso pode ser angustiante.
É muito mais fácil acreditar que existe um inimigo responsável por tudo. Muito mais fácil imaginar que, se retirarmos determinada pessoa, determinado grupo ou determinada ideia do caminho, finalmente encontraremos a paz. Mas a política não cura nossas angústias; pois nenhum candidato consegue devolver o passado e nenhum governo consegue impedir que a sociedade continue mudando. Nenhum líder consegue eliminar a complexidade da vida.
O eleitor é alguém que está tentando, com os recursos que possui, responder à pergunta que todos nós enfrentamos: como viver em um mundo que mudou? Alguns responderão buscando mais liberdade; outros, mais autoridade; alguns buscarão proteção; outros, transformação; alguns querem sentar à mesa da fartura prometida pelo capital; alguns olharão para o futuro, outros tentarão recuperar alguma coisa do passado.
O papel da democracia talvez seja impedir que qualquer uma dessas respostas se transforme em verdade absoluta. Porque o problema não é termos medo; o problema começa quando o medo passa a decidir por nós. E talvez seja essa a mensagem mais silenciosa deixada pelo primeiro turno: há muito medo circulando pelo país: medo de perder; medo do outro; medo de não reconhecer mais o mundo; medo de que aquilo que conhecíamos como família, autoridade, segurança ou identidade esteja desaparecendo. E o medo pode fazer com que nos portemos de forma submissa ao líder e ao grupo.
Neste contexto, há uma pergunta que precisamos fazer antes de escolher quem nos governará: queremos alguém que nos ajude a enfrentar esse medo ou alguém que nos prometa nunca mais sentir medo? A primeira promessa pertence à democracia. A segunda costuma ser feita pelos salvadores. E toda sociedade que procura um salvador, um messias, deveria lembrar que, quando entregamos a alguém o poder de pensar, julgar e decidir por nós, talvez estejamos entregando muito mais do que um voto.
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Estamos, assim, entregando uma parte da nossa liberdade, pois o salvador afirma representar o verdadeiro povo como se ele fosse um grupo homogêneo, com uma única vontade; excluindo simbolicamente da comunidade legítima, aquele que discordar.
A existência da tensão é importante: existir direita, esquerda, centro, é necessário. O problema surge quando aparece o fascismo, que impossibilita a existência das diferenças e da democracia.
Umberto Eco, escritor e filósofo italiano, publicou um ensaio em 1995, na The New York Review of Books, chamando atenção para aquilo que ele considerava Fascismo, e produziria rupturas no tecido democrático. Para ele existiriam 14 características do Fascismo: culto à tradição; rejeição ao modernismo; culto à ação pela ação (pensar, refletir ou analisar algo criticamente são vistos como inutilidade e fraqueza); a discordância é percebida como traição (todos devem pensar iguais); medo da diferença (diversidade como imigrantes, grupos minoritários é transformada em ameaça); apelo às classes frustradas (ressentimentos e perdas de status social são utilizadas para serem ressarcidas através da culpabilização fantasiosa do inimigo responsável); obsessão por uma conspiração; o inimigo é percebido como forte e fraco simultaneamente; a vida é sentida como guerra permanente; há desprezo pelos fracos; culto ao heroísmo e à morte; machismo e culto às armas; populismo seletivo e empobrecimento da linguagem.
Tal projeto passa a deslegitimar a crítica, tratar jornalistas, intelectuais, universidades, opositores e instituições independentes como inimigos, pois ao transformar o líder em salvador e representante exclusivo do povo, define que somente ele expressa a vontade popular e que os limites institucionais são obstáculos à sua missão.
Dentro das urnas, no nosso voto, moram nossos nós, quem somos e o que nos habita de melhor e pior em nossa humanidade. Após uma eleição, descobrimos se avançamos ou retrocedemos enquanto humanidade capaz de conter o pior sobre os outros. Somos chamados a lidar com nosso desejo de poder e nossa solidariedade, com a possibilidade de ampliar sonhos, esperanças ou medos. Após cada eleição temos a chance de aguardar pelas próximas, ou lamentar a perda de ter existência, voz e voto.
*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora.