Circuit breaker para a Bolsa pela primeira vez desde 2020: o que é e o que muda para o investidor

Escrito por
Alberto Pompeu producaodiario@svm.com.br
(Atualizado às 12:05)
Legenda: O circuit breaker é o mecanismo que suspende os negócios na Bolsa quando o Ibovespa cai 10% em relação ao fechamento anterior.
Foto: Shutterstock.

Seu Raimundo, motorista de aplicativo em Messejana, abriu a corretora às 10h desta segunda-feira para conferir as ações do Banco do Brasil que compra todo mês. A tela estava travada. Não era defeito no celular: a B3 havia acionado o circuit breaker.

O circuit breaker é o mecanismo que suspende os negócios na Bolsa quando o Ibovespa cai 10% em relação ao fechamento anterior, que na sexta foi de 205.082 pontos. Foi acionado às 9h57, a primeira vez desde março de 2020, no início da pandemia.

Em quase 30 anos de existência, o mecanismo foi usado mais de 20 vezes. No mesmo início de manhã, o dólar subiu mais de 8%.

Como funciona

Em bom cearês, é o disjuntor da casa: quando a carga fica pesada demais, ele desarma para a fiação não pegar fogo. Na Bolsa, queda de 10% suspende os negócios por 30 minutos. Se, depois da volta, a queda chegar a 15%, a parada é de uma hora. No limite de 20%, a suspensão tem prazo definido pela B3.

A função é dar tempo para o investidor reavaliar antes de decidir sob pressão.

Impactos

No câmbio, o dólar mais alto encarece importados e combustíveis nas semanas seguintes e favorece exportadores. Nos juros, a taxa do contrato de DI para 2033 subiu quase dois pontos percentuais e chegou a 14,58% ao ano: o mercado passou a cobrar mais caro para financiar o país no longo prazo.

Nas estatais, papéis de grande peso no índice. Para o investidor pessoa física, a queda na tela só vira perda se houver venda.

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O motivo

O presidente Lula foi reeleito no domingo, ao vencer Flávio Bolsonaro no segundo turno. Desde agosto, boa parte do mercado trabalhava com a hipótese de troca de governo, e depois do primeiro turno o Ibovespa chegou a bater recorde. Quando a aposta não se confirma, os preços se ajustam de uma vez só, e o tombo é proporcional à confiança que havia antes.

O principal receio é fiscal: gasto público crescendo mais que a arrecadação e dívida em alta. É preciso separar as coisas. A eleição foi decidida nas urnas, não no pregão.

A Bolsa precifica hoje uma desconfiança, não dá um veredito, e essa desconfiança pode diminuir ou crescer conforme os primeiros sinais do governo sobre as contas públicas. Em 2002, o mercado também entrou em tensão com a primeira vitória de Lula, e quem vendeu tudo no desespero se arrependeu no ano seguinte.

O reflexo no Ceará

O Estado tem cerca de 160 mil contas de investidores na Bolsa, com quase R$ 10 bilhões aplicados. Entre os papéis preferidos dos cearenses estão Banco do Brasil, Itaúsa, Petrobras e Vale. Muita gente como Seu Raimundo está vendo a carteira encolher hoje.

O que fazer

Primeiro, não venda no susto: a queda só vira prejuízo de verdade quando você vende. Segundo, revise onde está a sua reserva de emergência. Dinheiro que você pode precisar nos próximos meses não deveria estar em ações.

Terceiro, se você tem reserva formada e pensa em anos, não em dias, momentos de tensão costumam abrir oportunidades, mas compre aos poucos, nunca tudo de uma vez. As orientações são gerais e não substituem a análise do seu perfil.

Seu Raimundo vai continuar comprando suas ações todo mês. A Bolsa desarmou o disjuntor hoje. Ele decidiu não desarmar o dele.

*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.

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