Por que a imunização é mais revolucionária que a chegada à Lua?

Escrito por Márcia Datz Abadi producaodiario@svm.com.br
05 de Junho de 2026 - 06:00
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Legenda: Márcia Datz Abadi é médica

As vacinas e os imunizantes estão diretamente ligados à evolução da nossa saúde. Ao longo da história, poucos avanços tiveram impacto tão profundo, duradouro e mensurável na longevidade humana quanto a imunização. Esses marcos, muitas vezes invisíveis no cotidiano, possuem magnitude comparável, ou até maior, à de conquistas inovadoras e amplamente celebradas, como a internet ou a chegada do homem à Lua.

Há cerca de 200 anos, a expectativa de vida global era inferior a 40 anos, não ultrapassando 30 anos em muitas regiões. Não era um limite biológico humano, e sim a altíssima mortalidade infantil e a recorrência de doenças infecciosas associadas à ausência de saneamento básico, água potável e intervenções médicas eficazes. Hoje, a expectativa de vida humana supera os 70 anos. Em alguns países, a média supera os 80 anos. Um avanço sem precedentes na história da humanidade.

Antes das vacinas, surtos de varíola, difteria, sarampo, poliomielite e coqueluche eram episódios rotineiros, especialmente entre crianças. A redução drástica dessas enfermidades não ocorreu por acaso, nem por mudanças comportamentais isoladas, mas como consequência direta dos avanços da medicina e de programas de imunização em escala populacional.

A imunização coletiva garante o controle e até a eliminação de doenças. Por isso, a ação de todos é tão importante quando o assunto é vacinação.

Quando olhamos para os imunizantes sob a ótica da eficácia e da segurança, os dados são inequívocos. Vacinas estão entre os avanços médicos mais rigorosamente testados da história, e as milhões de doses administradas ao longo de décadas permitiram comprovar, de forma robusta, perfis de segurança elevados e benefícios à saúde coletiva.

Ao longo da minha trajetória profissional, tive a oportunidade de ver, de forma muito concreta e triste, o impacto da ausência de vacinação. Acompanhei o caso de três crianças que não foram vacinadas por decisão dos pais e morreram em decorrência da difteria. Foram as únicas mortes por essa doença evitável que presenciei em toda minha carreira. Não se trata de um relato distante ou histórico, mas de uma tragédia real, humana, que poderia ter sido evitada com a vacinação. Essa experiência marcou profundamente minha percepção sobre o custo real da desinformação e da negligência com a ciência.

A imunização infantil, em particular, alterou radicalmente as estatísticas de mortalidade e morbidade em todo o planeta. Doenças infecciosas que antes faziam parte da infância, como o sarampo e a poliomelite, passaram a ser exceções. Nesse sentido, um exemplo recente desse avanço é a proteção contra o Vírus Sincicial Respiratório (VSR), uma das principais causas de hospitalização de bebês e crianças pequenas por infecções respiratórias graves. O desenvolvimento de imunizações eficazes contra o VSR representa um novo capítulo na prevenção de doenças respiratórias, com impacto direto na redução de internações, sequelas e óbitos.

Vírus, bactérias e outros patógenos se multiplicam com facilidade, e o crescimento populacional, combinado com a expansão dos centros urbanos, criam ambientes e situações que favorecem o surgimento, a proliferação e a transmissão de doenças infecciosas. O avanço da imunização em escala global precisa acompanhar essas tendências.

Poucos nomes simbolizam tanto esse avanço quanto Maurice Hilleman. Considerado um dos maiores cientistas do século XX, Hilleman, que liderou o departamento de biologia celular e viral da MSD de 1957 a 1984, foi responsável pelo desenvolvimento ou aprimoramento de mais de 40 vacinas, incluindo aquelas contra sarampo, caxumba, rubéola, hepatite A, hepatite B e varicela. Estima-se que seu trabalho tenha salvado centenas de milhões de vidas. Seu legado é uma lembrança poderosa de que ciência, quando sustentada por evidência e compromisso público, transforma a vida.

Um dos exemplos mais extraordinários e impactantes da vacinação moderna é o fato de que, pela primeira vez na história, caminhamos para a erradicação de um câncer por meio da vacinação. Não apenas controle da doença. Eliminação. O câncer do colo do útero, causado majoritariamente pela infecção persistente pelo HPV, já apresenta taxas próximas de eliminação em países com altas coberturas vacinais e programas organizados de rastreamento. Austrália e Suécia são exemplos concretos desse avanço histórico.

A vacinação contra o HPV é uma demonstração potente de que a prevenção pode ir além das doenças infecciosas e atuar diretamente na prevenção e na redução de cânceres. Trata-se de uma mudança de paradigma: vacinas que não apenas salvam vidas no curto prazo, mas que podem eliminar doenças e evitar que elas sejam um risco para as gerações futuras.

Vacinas são um patrimônio coletivo, construído com ciência, evidências e responsabilidade individual e coletiva. Ao celebrar os avanços da imunização, é fundamental lembrar que eles não pertencem ao passado. São conquistas que precisam ser mantidas, fortalecidas e defendidas diariamente.

 Márcia Datz Abadi é médica 

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