O olhar do Serviço Social
Será que os leitos hospitalares abrigam apenas a dor física? Será que esta dor tem contexto? Por vezes, a dor chega em um corpo sem identidade ou companhia, que nos fala da falta ou da insuficiência de vínculos e de políticas públicas, invisibilizados em uma sociedade marcada por desigualdades.
A Lei nº 8.080/90, que instituiu o SUS, estabelece, em seu artigo 3º, que a saúde é determinada por fatores como alimentação, moradia, saneamento básico, meio ambiente, trabalho e renda, entre outros serviços essenciais. Logo, saúde não se resume à ausência de doença.
O usuário que adentra a rede de atenção hospitalar por vezes passa a ser um número no leito. Mas é marcado por determinantes sociais, econômicos e culturais que influenciam sua condição.
Convido o leitor a mergulhar nesta rede para conhecer seus desafios, a presença do profissional de Serviço Social e as possibilidades para além da dor física e da abordagem clínica. Existe uma comunidade interprofissional que orquestra uma sinfonia nem sempre tão afinada, mas sempre desafiada a buscar a harmonia.
O assistente social atua nesta orquestra, com uma partitura que evoca seu Código de Ética e a Cartilha dos Direitos Humanos, mobilizando os demais profissionais a reconhecerem os usuários do SUS como protagonistas de uma jornada marcada por dores e esperanças. Ele acompanha o usuário da admissão à alta, à transferência hospitalar ou ao óbito.
Neste local, nossas lentes miram o usuário e seu contexto social, orientando o acesso às políticas públicas que tecem a dignidade e a construção de vínculos. Acolher com humanização é um imperativo ético de todos no SUS, apesar dos desafios estruturais e de processos. O assistente social olha para esta exigência com foco na justiça social, nos direitos humanos e na qualidade de vida.
Neste 15 de maio, que marca a regulamentação da profissão do Serviço Social no Brasil, destacamos sua presença nas lutas históricas do país, consolidando-se como profissão crítica com projeto ético-político, voltada à questão social e suas múltiplas expressões.
Daí porque os leitos hospitalares não são números. As dores de seus usuários exigem um olhar cuidadoso. O assistente social, portanto, acolhe, traduz, medeia e orienta direitos.
Ondina Canuto é assistente social