Por que o Ceará pode virar uma potência mundial de data centers, dos gigantes aos pequenos?

Especialistas avaliam ambiente de negócios e recursos que aumentam competitividade do Estado.

Escrito por Mariana Lemos mariana.lemos@svm.com.br
20 de Outubro de 2026 - 10:00 (Atualizado às 10:34)
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Legenda: Construção do Data Center Pecém, que terá TikTok como principal cliente, entrará em fase de montagem eletromecânica.
Foto: Thiago Gadelha.

O Ceará abriga a construção de um data center que será o maior do Brasil em operação. Além disso, há outros 10 projetos hiperescala de processamento de dados na região do Pecém.

Especialistas que participaram da terceira edição do Atlantic Convergence, em Lisboa, apontam o que está por trás desse boom: energia renovável em abundância e o hub de cabos submarinos de Fortaleza, que representa o segundo ponto de maior conectividade do mundo.

Nesse contexto, o Estado caminha para se tornar uma potência global de processamento de dados, avalia o especialista em Transformação Digital e Inteligência Artificial do Banco Mundial, Luciano Charlita de Freitas.

"O Ceará já tem histórico de investimentos em infraestrutura digital, um cinturão que cobre todos os municípios e recebe cabos submarinos. Entendemos que o Ceará pode se tornar um exportador global de dados, não só para o mercado brasileiro, mas também para fora do Brasil", lista.

A agenda de expansão da geração e distribuição de energia foi desenhada antes do boom dos data centers, o que posiciona o Estado na dianteira, segundo o especialista.

"A capacidade instalada de data centers no Estado deve aumentar muito nos próximos anos. O Ceará tem força de trabalho qualificada, conhecimento sobre o negócio e posição estratégica dentro do Brasil para continuar nessa agenda", observa.

O Banco Mundial conversa com a gestão estadual para financiar projetos de tecnologia no Ceará. A instituição tem portfólio de US$ 1 bilhão no Brasil e já fez investimentos em Hdrogênio Verde.

Data centers menores

O Ceará também pode ficar na dianteira no mercado de data centers de menor porte, instalados o mais perto possível dos usuários finais, chamados de edge.

Ao contrário dos grandes empreendimentos, esses data centers ficam em regiões periféricas, para permitir o processamento e a entrega de dados de forma mais rápida.

De acordo com o CEO da holding de tecnologia e telecomunicações SAMM, Carlos Eduardo Sedeh, "os data centers menores vão permitir, por exemplo, que a população do Ceará tenha acesso a serviços como carros autônomos, inferências, internet das coisas, sensorização e cidades inteligentes".

"Tudo isso a partir de data centers descentralizados", frisa. O executivo destaca que o Brasil deve registrar expansão dos pequenos empreendimentos nos próximos anos, em paralelo à atração de projetos em grande escala.

"A economia digital está se tornando realidade. A demanda está aumentando muito, não só em telecomunicações, mas também em computação em nuvem e outros serviços", afirma.

Segundo Sedeh, o ambiente de negócios criado na Zona de Processamento e Exportação (ZPE) do Pecém é um atrativo para as empresas.

"Criar uma ZPE numa área que carece de desenvolvimento e direcionar energia e esforços para trazer as empresas é uma estratégia muito acertada. Não existe investimento dessa magnitude sem investimento do governo e estabilidade jurídica", diz.

DE-CIX avalia levar interconexão a Fortaleza

O Brasil desponta como um dos mercados com maior demanda por serviços de conectividade e processamento de dados, segundo o CEO do grupo DE-CIX, Ivo Ivanov. A empresa oferece interconexão premium e opera vários pontos de troca de tráfego ao redor do mundo.

"No nosso negócio, o Brasil é o mercado com crescimento mais acelerado neste ano. Chegamos a mais de 100 clientes atendidos. Estamos oferecendo a primeira plataforma de interconexão de inteligência artificial do país", afirma.

Com operação em São Paulo e no Rio de Janeiro, a empresa estuda levar seus serviços a Fortaleza, que caminha para se tornar o segundo maior mercado brasileiro, segundo Ivanov.

"Temos muita vontade de construir do Brasil para o Brasil, e não entregar serviços de fora. Fortaleza está no nosso mapa. Vemos como a inovação impulsiona a infraestrutura e como a infraestrutura precisa ser implantada em todos os lugares", aponta.

Ivanov ressalta que, com a crescente digitalização, as instalações devem ficar cada vez mais próximas dos usuários para diminuir o tempo de resposta.
Para o executivo, com a chegada de pequenos e grandes data centers, o país deve atentar para a soberania e a proteção das informações processadas.

"Dados de organizações e de pessoas que vivem no país devem ficar no país, e não ser enviados para treinamentos nos Estados Unidos ou na Europa. É uma questão de soberania. Também é preciso criar ambiente de inovação. Riscos sempre existem, mas temos de proteger e garantir que sejam mitigados", completa.

*A repórter viajou a convite da DE-CIX para a Atlantic Convergence em Lisboa.

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