As rodovias são a marca registrada da logística cearense, como em todo o Brasil. São 18,6 mil km de estradas conectando os polos econômicos do Estado, 16,3 mil km de malha estadual e 2,3 mil km de trechos federais, segundo a Superintendência de Obras Públicas (SOP-CE) e o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit).
Essa dependência, contudo, está acompanhada de gargalos. Menos de 3% das rodovias cearenses são consideradas ótimas e um terço dos trajetos estaduais previstos não saiu do papel, conforme a Pesquisa CNT de Rodovias 2025.
Na Grande Fortaleza, há dois grandes gargalos: o Arco Metropolitano, anunciado há mais de 15 anos e ainda no papel, e o 4º Anel Viário, cujas obras de duplicação se arrastam desde 2010.
Na segunda parte da série sobre logística no Ceará, o Diário do Nordeste mostra como as limitações do modal rodoviário encarecem o frete de mercadorias no Estado. Na primeira parte, abordamos o papel do modal ferroviário.
O que encarece o frete?
O custo do frete no Ceará é pressionado por uma combinação de fatores, como pavimento em más condições que eleva em 31,1% o custo operacional do transporte, segundo a Pesquisa CNT de Rodovias 2025.
A dependência do modal rodoviário, responsável por 65% da carga movimentada no País, é outro problema porque concentra o escoamento em vias congestionadas e o tempo perdido nesses trechos acaba recaindo sobre a remuneração de quem transporta.
Os outros componentes que entram nessa conta são combustível, mão de obra e manutenção da frota. De acordo com especialistas, pesa ainda a ausência de indústrias de transformação no Estado, que obriga a trazer de outras regiões produtos de consumo recorrente.
O Ministério dos Transportes informa que conduz seis projetos rodoviários no Ceará, além de duas duplicações, para as quais destinou R$ 96,6 milhões neste ano.
O professor do departamento de Engenharia de Transportes da Universidade Federal do Ceará (UFC), Bruno Bertoncini, avalia que, apesar de projetos estruturantes em andamento na região, como a Transnordestina, a tendência é de que o modal rodoviário siga como base do escoamento logístico do Estado, o que deve continuar pressionando as cifras do frete.
"Temos percebido que, nos últimos anos, tem havido investimentos em vários projetos. A tendência é de que, em um futuro não muito distante, comecemos a ter uma condição melhor de oferta de serviços de frete, o que deve repercutir em uma melhoria da competitividade e dos custos, mas por ora, ainda não temos isso tudo pronto, então teremos uma alta parcela de custo a ser pago", diz.
Como essa dependência pressiona o preço do frete?
A duplicação do 4º Anel Viário tem 32 km de extensão e liga a CE-040, no Eusébio, ao entroncamento das BRs 020 e 222, em Caucaia, cortando ainda a BR-116 e as CEs 060 e 065.
Foi durante essas obras, na década de 2010, que surgiu o projeto do Arco Metropolitano de Fortaleza. O projeto prevê 108 km entre a BR-116, em Pacajus, e a CE-155, na entrada do Complexo Industrial e Portuário do Pecém (Cipp), passando por diversas rodovias estaduais e federais.
A proposta gerou expectativa entre os caminhoneiros que cruzam a região diariamente e enfrentam trânsito congestionado, como Fernando Souza.
"O Arco Metropolitano iria melhorar muito. Nós, caminhoneiros, ficaríamos aliviados. Não iria perder tempo, só ia passar pelo Anel Viário quem tivesse necessidade realmente de passar pela cidade", avalia o motorista, que trabalha em uma empresa de logística.
Sem a nova rodovia, a alternativa é transitar pelo 4º Anel Viário, ainda em obras.
Para se ter ideia sobre como isso afeta não apenas a rotina do caminheiro, mas também impacta no preço da mercadoria que ele transporta, na empresa em que ele trabalha, o frete é calculado com base no tempo de entrega.
Eles me dão 5h30 para sair de Fortaleza para Iguatu. Se eu perder uma hora no trânsito do Anel Viário, que é a coisa mais comum, perco 10% do frete, mas não falo só do dinheiro não, falo de qualidade de vida. Se chego no horário no meu destino, vou ter tempo para almoçar, jantar, tomar banho, descansar, falar com a família. Chegando atrasado, chego estressado, e acaba complicando tudo".
O que precisa ser destravado para baratear o frete?
Para o caminhoneiro, o 4º Anel Viário resume a situação das estradas cearenses. "Quando os veículos passam, jogam aquela areia da obra para a lateral da via e fica juntando lixo, levantando poeira. É uma série de problemas com relação à saúde e ao ambiente também. Fica tudo sujo, prejudica todo mundo num geral", lamenta.
A via, diz ele, "deixou de ser uma rodovia" e virou uma avenida de grande fluxo dentro de Fortaleza e das cidades vizinhas. "Com o aumento da população em Aquiraz, Itaitinga e Eusébio, muita gente se mudou para lá. Isso acaba impactando no trânsito, o que piora com tudo", diz
O projeto, porém, segue sem prazo. Segundo a Secretaria de Infraestrutura do Ceará (Seinfra-CE), o Arco Metropolitano está em fase de estudos técnicos internos.
Esse é o investimento necessário para viabilizar o Arco Metropolitano de Fortaleza. Há a perspectiva ainda de que seja a primeira estrada inteiramente pedagiada do Estado
A pasta aponta que o avanço de empreendimentos estruturantes, como as obras da Transnordestina, levou à revisão do projeto. "Somente após a conclusão desses estudos será possível avaliar sua viabilidade e eventual encaminhamento pelo Governo do Ceará", afirma.
Bertoncini elenca que combustível, mão de obra do trabalhador, estado de conservação dos veículos e impostos são componentes que pressionam o preço do frete, além do fator tempo, cuja combinação de fatores inevitavelmente impactará no dia a dia dos cearenses.
"Um produto continua sendo um produto. Não é o fato de ele ter sido transportado que vai mudar a característica, mas dependendo de como é operacionalizado o transporte, passa a ter custo maior e a impactar no poder de compra das pessoas. Se forem produtos de alto consumo, como da cesta básica, vamos ter populações vulneráveis sendo penalizadas por não termos planejamento de transporte de carga para atender à sociedade", reflete.
Isso também pode ser percebido pela distância do Ceará de grandes áreas industriais do País. Ainda que haja uma concentração em regiões nas vizinhanças do 4º Anel Viário, como em Maracanaú, ainda é insuficiente para atender a crescente demanda da população.
"Não temos no Ceará indústrias de transformação de elementos que são altamente consumidos em condição de atender com plenitude a nossa população. Isso faz com que a gente tenha que trazer de outras localidades, aumentando o custo de transporte. Se tenho o mercado consumidor, deveria tentar aproximar a geração daqueles elementos que esse mercado consome", opina o especialista da UFC.
Para Ângela Falcão, doutora em Geografia pela Universidade Estadual do Ceará (Uece), a indefinição sobre soluções logísticas efetivas no Estado também tem efeito sobre a atração de investimentos.
"Faz com que diversas empresas que procuram o Ceará para se instalar repensem sobre tempo, custos e cumprimento de prazos. Em conjunto com questões ambientais, cada vez mais levadas em consideração nas tomadas de decisão empresarial, diminuem a competitividade do Ceará a nível regional e até mesmo internacional", opina.
Prejuízos são logísticos e ambientais
O Ceará tem 12 rodovias federais e 269 estaduais, conforme o Dnit e a SOP-CE e a maior parte está longe do ideal. Mais da metade (52,9%) foi classificada como "regular" e cerca de 10%, como "ruim" ou "péssima", segundo a Pesquisa CNT de Rodovias 2025, divulgada em dezembro de 2025 pela Confederação Nacional do Transporte (CNT).
Ainda no mesmo estudo, "estima-se que houve um consumo excessivo de 43,1 milhões de litros de diesel devido à má qualidade do pavimento da malha rodoviária no estado".
O levantamento identifica ainda 66 pontos críticos no Estado. "Esse desperdício gerou um prejuízo de R$ 255,39 milhões aos transportadores e uma emissão de 112,30 mil toneladas de gases de efeito estufa na atmosfera", acrescenta a pesquisa.
Falcão acredita que há um duplo prejuízo. "Prejudica empresas de logística com a frequência de manutenção em sua frota e o meio ambiente, tendo em vista que a lentidão em determinados trechos ou a frenagem brusca em virtude das condições das vias exige mais das condições mecânicas dos veículos, consequentemente, necessitando maior consumo de combustível", expõe.
Desenvolvimento urbano no Ceará precisa priorizar logística aliada ao ambiente
Os especialistas ouvidos pela reportagem estimam que um terço do valor do frete é consumido na chamada "última milha", o trecho final até o comprador.
"Fortaleza e as outras cidades do Ceará precisam se expandir, é uma questão de desenvolvimento urbano. Como é que uma cidade é abastecida sem ter acessos? Tem que ter toda a saída dela, cinturão verde, indústrias e até periferia. Tudo isso faz parte da economia das cidades", afirma Marcus Quintella, diretor da FGV Transportes.
Para ele, a substituição gradual da frota por veículos elétricos é solução apenas parcial, pois resolve a emissão dos combustíveis, mas não as demais dimensões logísticas e ambientais.
"Vai até diminuir emissões, melhorar a qualidade do ar, mas os congestionamentos, os acidentes e as perdas de tempo continuarão. O problema da cidade não é só o combustível fóssil, é não ter um sistema de mobilidade urbana baseado em transporte de massa, como trens e metrô. O importante é melhorar o tempo e a vida das pessoas. Tudo é uma visão sistêmica para os cearenses", expõe.
Hoje a transição energética não está baseada só em eletrificação. Pode hoje melhorar toda a transição energética com a parte de biocombustíveis. Não pode se pensar só em eletrificação porque também tem problemas, como descarte de baterias".
A dependência excessiva do modal rodoviário, em detrimento principalmente das ferrovias, na avaliação de Falcão, é uma questão de saúde pública.
"A constante exposição das pessoas residentes em áreas próximas aos locais de grande circulação de caminhões pode contribuir para o adoecimento dessa população, principalmente relacionado a questões respiratórias. Além disso, há o crescimento urbano desordenado próximo aos centros de distribuição que se instalam nesses eixos rodoviários, gerando conflitos entre as áreas residenciais e as de escoamento industrial", frisa.
Créditos
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