A cearense DelRio, maior fabricante de lingerie do Brasil e fornecedora da norte-americana Calvin Klein, negocia a fabricação de peças para uma marca esportiva de alcance mundial.
"Eles estiveram aqui. Passaram cinco dias com a gente", diz o fundador da empresa, Carlos Pereira, sobre a visita da comitiva estrangeira às fábricas no Ceará. As conversas já duram três anos e envolvem protocolos técnicos definidos pela contratante.
O negócio, se fechado, está alinhado ao objetivo da companhia de elevar as exportações dos atuais 25% para algo entre 50% e 70% do faturamento em médio prazo, segundo ele.
Para isso, a DelRio afirma que está automatizando etapas de produção e incluindo no portfólio mais peças sem costura e artigos esportivos.
A aposta no mercado externo responde a um cenário interno adverso. A indústria nacional de moda íntima opera pressionada pela concorrência asiática e pelo custo do crédito. No varejo, segundo Pereira, há ainda a concorrência desleal de operações informais.
O nosso grande inimigo aqui no mercado interno é a informalidade. Você precisa saber como competir com esses dois inimigos, que são seríssimos".
Americanas é maior cliente nacional
A DelRio tem produção anual de 75 milhões de peças. Segundo Pereira, o volume da companhia supera em 50% o do segundo colocado no mercado nacional, que produz cerca de 50 milhões de itens por ano. No Brasil, a varejista Lojas Americanas é sua maior cliente.
A produção está distribuída em 10 fábricas no Ceará (Amontada, Baturité, Cascavel, Canindé, Fortaleza, Itapipoca, Madalena, Maracanaú, Serrinha e Trairi), que geram mais de 5 mil empregos diretos.
Do total do quadro funcional, cerca de 90% são mulheres, em funções operacionais, administrativas e de gestão, segundo a empresa. Pereira afirma que a operação é sustentada por uma integração vertical em que a própria empresa fabrica fios, tecidos, elásticos e aviamentos.
Só é possível esse crescimento porque nós fazemos a matéria-prima. A DelRio é uma empresa integrada, e existem muito poucas no mundo com esse modelo".
Sobre inovações de produto, como a lingerie colada sem costura, a empresa faz uma transição gradual do parque fabril. "Não temos uma fábrica especializada na colagem, temos um departamento dentro de uma fábrica", pondera.
A ampliação desse maquinário é o principal investimento previsto pela DelRio, mas segue o ritmo da demanda. "Já estamos fazendo (o investimento) na proporção que o mercado for exigindo", explica.
"White label" e Calvin Klein
As parcerias no formato white label, em que a fábrica produz e terceiros vendem o produto com suas próprias marcas, tornaram-se um pilar para ocupar a capacidade fabril. Segundo Pereira, toda a moda íntima vendida pela Calvin Klein no Brasil sai das fábricas da DelRio.
A adesão ao modelo exigiu uma mudança de posicionamento diante dos padrões globais de suprimento. "Aceitamos entrar nesse mercado de uns dois anos para cá, pois não tem outra alternativa, é isso que é feito na China", diz.
As exportações respondem hoje por cerca de 25% do faturamento, com foco nos Estados Unidos. O percentual, segundo o fundador, se deve à ausência de um parque fabril próprio de moda íntima no País, que depende do abastecimento externo.
O movimento coincide com uma busca crescente de marcas globais por diversificação de cadeias de suprimento.
Segundo a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), gargalos logísticos, custos na Ásia e a necessidade de reduzir riscos têm aberto espaço para modelos de white label e terceirização no Brasil, aproveitando a estrutura de cadeia completa e a proximidade geográfica do País com os mercados das Américas.
Os desafios do setor no Brasil
A preocupação com a informalidade e a pressão das importações é respaldada por dados da Abit.
De acordo com a entidade, esses fatores causam perdas estimadas em R$ 454 bilhões para a economia brasileira, "sendo o setor têxtil e de confecção um dos mais afetados por ser intensivo em mão de obra e pulverizado em micro e pequenas empresas".
Além da informalidade, a concorrência externa tem pesado sobre os resultados nacionais. Nos primeiros cinco meses de 2026, enquanto a produção brasileira encolheu 3,2% no setor têxtil e 5,8% no vestuário, as importações convencionais de vestuário saltaram cerca de 54%, segundo a Abit.
A representante do setor alerta ainda para a explosão das remessas internacionais via e-commerce, que chegaram a 28 milhões de encomendas em junho de 2026 (alta de 100% em relação ao ano anterior).
Apesar dos gargalos nacionais, o Ceará se consolida como um dos principais ecossistemas produtivos de moda do Brasil. O Estado encerrou 2025 com mais de 55 mil empregos formais gerados nos segmentos têxtil (13,8 mil) e de confecção (41,8 mil), de acordo com dados do Caged.
A estimativa da Abit é que o Ceará responda por 10% a 12% da produção brasileira de moda íntima, um mercado que movimenta cerca de 1,4 bilhão de peças por ano no País.