Mosquitos 'especiais' que ajudam a combater dengue começam a ser soltos em outubro no CE

Mosquitos integram tecnologia de redução da transmissão de arboviroses e serão soltos nos municípios de Eusébio, Maranguape e Crato.

13 de Outubro de 2026 - 16:52 (Atualizado às 17:35)
capa da noticia
Legenda: Foto de apoio ilustrativo.
Foto: Alexandre Carvalho.

As cidades de Eusébio, Maranguape e Crato recebem, a partir deste mês, mosquitos que podem colaborar com a redução da transmissão de arboviroses. A tecnologia, que ficou conhecida como Método Wolbachia, é baseada na soltura de mosquitos com a bactéria Wolbachia. Ela é inofensiva para seres humanos, mas, quando inoculada em fêmeas de Aedes aegypti, pode reduzir a capacidade delas de transmitir doenças.

O anúncio da chegada da tecnologia ao Ceará foi feito em uma coletiva na manhã desta terça-feira (13), no Eusébio, mas o projeto já era esperado no Estado. De acordo com Gabriel Sylvestre, gerente de implantação da Wolbito no Brasil, empresa que desenvolve o Método Wolbachia no País, o intuito é “trocar” os mosquitos Aedes aegypti, que transmitem doenças, por proles de mosquito Wolbachia, que não conseguem transmitir as arboviroses. 

“O primeiro objetivo é entomológico: ele diz respeito a fazer essa troca dos mosquitos. Os efeitos epidemiológicos, que é a redução de doenças, estima-se que apareçam em um a dois anos. Aqui em Eusébio, a gente tem uma característica muito legal, que a gente está conseguindo fazer um planejamento que vai prevenir possíveis grandes epidemias”, aponta.

Segundo a Prefeitura da cidade, a primeira fase do Núcleo Wolbachia no Eusébio deve contemplar nove bairros do município, beneficiando 32.625 munícipes, que correspondem a 39,8% da população local.

O que é o Método Wolbachia?

Larvas do mosquito chegaram ao CE em cápsulas; ao lado, 'baldinhos' que disseminarão os Wolbitos.
Legenda: Larvas do mosquito chegaram ao CE em cápsulas; ao lado, 'baldinhos' que disseminarão os Wolbitos.
Foto: Divulgação.

A bactéria Wolbachia é comum em muitos mosquitos, mas ausente no Aedes aegypti. Com inoculação dela na espécie, transforma o Aedes em um inseto inofensivo. O método surgiu com pesquisadores da Escola de Ciências Biológicas, da Universidade de Queensland, na Austrália, em 2009. 

Desde 2015, o método passou a integrar as diretrizes nacionais de controle e prevenção das arboviroses do Brasil, por introdução da Fiocruz, em parceria com o World Mosquito Program (WMP).

Segundo Gabriel Sylvestre, o processo de liberação dos mosquitos será realizado a partir da instalação de Dispositivos de Liberação de Ovos (DLOs) em campo. Os equipamentos, que se assemelha a pequenos baldes verdes, serão instalados em diversas ruas dos municípios, seguindo rotas de liberação que não foram detalhadas. 

Depois, uma pequena cápsula de água é inserida nos baldes e, 15 dias depois, os mosquitos saem e colonizam o ambiente. No Eusébio, servidores foram treinados para a instalação dos DLOs, e a logística será realizada de segunda a sexta-feira.

“Nas próximas semanas, os baldinhos já vão estar todos distribuídos na cidade. Esse trabalho leva cerca de 26 semanas, ou seja, são seis meses que os Wolbitos vão estar sendo liberados aqui na cidade. Então, a gente pode falar que até março de 2027 a população de Eusébio vai estar vendo essa liberação acontecendo”, aponta Sylvestre.

O pesquisador ressalta que a tecnologia é segura, autossustentável, não utiliza produtos químicos e também não altera geneticamente os mosquitos. 

Ampliação para outros municípios

Foto de apoio ilustrativo.
Legenda: Foto de apoio ilustrativo.
Foto: Alexandre Carvalho.

A escolha das cidades do Ceará que receberão o Método Wolbachia nesta primeira fase foi feita pelo Ministério da Saúde, e a logística da execução da tecnologia conta com o apoio da Fiocruz Ceará, da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa) e das secretarias municipais da saúde. 

Em Maranguape, a implantação será acompanhada por ações de orientação e diálogo com a comunidade, que poderá receber informações sobre as etapas do processo e esclarecer dúvidas. A Prefeitura deve divulgar o cronograma, áreas contempladas e ações de mobilização.

No Crato, Agentes de Combate às Endemias e Agentes Comunitários de Saúde continuam em campo levando informações sobre essa ferramenta. Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, a etapa da pesquisa de pré-liberação dos mosquitos está sendo realizada em oito localidades.

Sylvestre afirma que, em breve, outras cidades do Ceará e do Brasil podem receber a instalação de núcleos do projeto. “O Sistema Público de Saúde está implementando o Método Wolbachia como uma política pública, seguindo as diretrizes nacionais de controle de arboviroses. Então, a ideia é que quanto mais municípios a gente conseguir chegar, melhor”.

A chegada inicial no Eusébio ocorreu por três fatores, segundo as autoridades de saúde: a cidade é um território estratégico, tem capacidade operacional adequada e possui histórico de transmissão relevante.

Jorge Costa, assessor técnico na vice-presidência de produção e inovação em saúde da Fiocruz, destaca que a ação deve ser ampliada pois “efetivamente estará melhorando a saúde pública da população”, inclusive em municípios que não têm epidemias graves de dengue. 

“É uma ação profilática. A gente não espera o caos, a explosão de casos de dengue para começar o método. Nós estamos trabalhando numa situação onde o número de casos hoje é pequeno, mas com a questão do El Niño, nós não sabemos qual impacto esperar em Eusébio e em todo o território nacional”, ressalta.

Fábrica de ‘Wolbitos’ pode chegar ao Ceará

Em entrevista coletiva, a coordenadora geral da Fiocruz Ceará, Carla Celedônio, afirmou que, com a implantação do Método Wolbachia em território nacional, é possível que o Estado também passe a contar com uma fábrica de Wolbitos. Atualmente, eles são “produzidos” em uma única fábrica, em Curitiba (PR).

“A gente tem discutido tanto com a Fiocruz, com o Ministério da Saúde, com o Instituto de Biologia Molecular do Paraná e a Wolbito, essa possibilidade da ampliação da tecnologia para outros municípios do Ceará, da região Nordeste e também do país”, destacou Carla.

“A fábrica da Wolbito, que é instalada no estado do Paraná, hoje suporta toda a demanda oriunda do Ministério da Saúde para os primeiros municípios que estão sendo cobertos com a tecnologia. Mas com certeza com a ampliação, o escalonamento da tecnologia para outros estados e para todo o território nacional, a gente vai precisar ampliar a produção de ovos, de mosquitos, e consequentemente nós trabalharemos nessa perspectiva”, completou.

Este conteúdo é útil para você?

Newsletter

Escolha suas newsletters favoritas e mantenha-se informado

Colunistas