De janeiro a 25 de setembro deste ano, os açudes do Ceará perderam 1,75 bilhão de metros cúbicos (m³) de água para a evaporação, de acordo com a Companhia de Gestão de Recursos Hídricos do Ceará (Cogerh). O processo, que é natural, pode ser intensificado pelo El Niño muito forte, fenômeno que deve aumentar temperaturas e diminuir a umidade do ar no Estado neste segundo semestre.
As perdas por evaporação são uma tendência histórica do Ceará, que está quase totalmente inserido no semiárido. Entre fevereiro e maio, os açudes do Ceará recebem recargas de água durante a quadra chuvosa. Ao final desse período, a reserva dos 144 açudes monitorados pela Cogerh está no ápice.
Em 1º de julho de 2026, os reservatórios do Estado estavam com 52,93% da capacidade preenchida, representando 9,624 bilhões de m³ de água.
Depois, começam as perdas por usos múltiplos, por infiltração dos reservatórios e, principalmente, pela evaporação. Esta última foi responsável por 81% dos 1,038 bilhão de m³ a menos entre julho e setembro de 2026.
Valor evaporado equivale a um ano de consumo residencial do Ceará
O valor de 845,7 milhões de m³ evaporado nesses três meses poderia abastecer o consumo residencial do Estado inteiro por mais de um ano.
Para o cálculo, o Diário do Nordeste utilizou a média de consumo individual de 140,7 litros de água por dia dos cearenses, conforme dados do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (Sinisa), de 2024.
Já para o número de habitantes, foi considerada a projeção do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para o Ceará em 2024: 9.233.656.
Com esses números, seria preciso, em média, 1,299 bilhão de litros por dia para sustentar o consumo diário das residências do Estado. A quantidade evaporada de 845.787.186 m³ equivale a 845,8 bilhões de litros de água. Ou seja, o suficiente para garantir esse consumo médio por 651 dias, ou cerca de 1 ano e 9 meses.
Se considerada a evaporação desde o início de 2026, a quantidade evaporada corresponderia a mais de três anos de consumo residencial no Estado.
O cálculo é ilustrativo, coloca em perspectiva a quantidade de água perdida por evaporação e considera apenas uma estimativa do gasto residencial dos cearenses, sem levar em conta os outros múltiplos usos do recurso, como as vazões liberadas para consumo industrial, para a agricultura irrigada e para dessedentação animal.
“É importante lembrar que a redução dos volumes armazenados durante o segundo semestre é um comportamento esperado no Ceará, em razão da estação seca. A evaporação representa uma parcela expressiva das perdas de água dos açudes cearenses”, explica Tércio Dantas Tavares, diretor de operações da Cogerh.
Como o El Niño pode influenciar a evaporação
Com o fenômeno El Niño muito forte, seguindo tendência de se intensificar durante os últimos meses do ano, o Ceará pode ter aumento na temperatura de até 2° C acima do esperado para o período. A diminuição da umidade relativa do ar também é um efeito esperado do evento climático. Tércio projeta uma perda de 10% a mais das águas dos açudes para a evaporação.
Estimativa da Cogerh para a evaporação no segundo semestre – um volume que pode ser comparado ao do açude Orós cheio.
Isso ocorre porque a evaporação das águas de um reservatório depende de sete fatores:
- Temperatura
- Radiação solar;
- Umidade relativa do ar;
- Velocidade dos ventos;
- Nebulosidade;
- Pressão de vapor;
- Dimensão de geometria do espelho d'água.
No primeiro semestre do ano, a queda costuma ser menor porque o Ceará registra mais chuvas e menos vento. Também há uma maior quantidade de dias nublados, influenciando no nível de radiação solar que chega até nós. É neste período que os reservatórios recebem os maiores aportes e há um decréscimo na evaporação.
Mesmo assim, dados da Cogerh mostram que, de janeiro a junho de 2026, evaporaram 905.732.760 m³ dos açudes monitorados pela Companhia.
Já no segundo semestre, o Estado tem menos dias nublados e menor umidade relativa do ar. Enquanto isso, a velocidade dos ventos aumenta e a radiação solar também. Resultado: a evaporação na segunda metade do ano chega a ser quase o dobro daquela registrada nos seis primeiros meses.
Com o El Niño influenciando em temperaturas ainda mais altas e níveis mais baixos de umidade relativa do ar, dois fatores que compõem o cálculo estariam aumentando a tendência de evaporação.
O que foi perdido para a evaporação somente de julho até 25 de setembro de 2026 (845.787.186 m³) é quase a mesma quantidade evaporada em todo o primeiro semestre.
Apesar de já ser significativo, o valor foi inferior às projeções da Cogerh para os primeiros meses do segundo semestre, segundo Tércio. “O fato de a redução observada ter sido inferior à estimada naquele período é um resultado favorável, mas não garante que essa tendência será mantida até o final do semestre”, afirma.
O que uma evaporação maior representaria para as reservas do Ceará
Caso o cenário de altas temperaturas e baixa umidade do segundo semestre seja ainda mais intensificado pelo El Niño, a evaporação das águas dos açudes pode fazer com que o balanço hídrico do Ceará seja negativo: um volume recebido por precipitação menor do que a quantidade liberada para uso ou perdida para a evaporação.
No entanto, não é possível saber se o balanço hídrico será afetado antes do final do semestre.
“O possível aumento das temperaturas reforça a necessidade de acompanhar esse fenômeno, mas ainda não podemos afirmar que as perdas atuais estejam acima dos padrões históricos”, explica Tércio.
Atualmente, com 46,11% de capacidade preenchida, Tércio afirma que o Estado não está mais na categoria “confortável”. Abaixo de 50% é considerado situação de alerta. “Mas é um alerta que vamos conviver”, afirma.
Comparado a outros estados do Nordeste, o Ceará segue tendo a maior quantidade armazenada de água, segundo boletim de acompanhamento dos reservatórios da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (Ana).
“Isso não significa que não vamos ter dificuldades para 2027. Vamos ter se não tiver chuvas em abundância. Mesmo o Ceará estando com quase metade das águas, e isso é um bom sinal, temos locais, como Sertões de Crateús, Sertão Central e Sertões de Canindé, que já são sofridos com essa questão”, relata o diretor.
As regiões hidrográficas do Rio Banabuiú, dos Sertões de Crateús, do Médio e do Baixo Jaguaribe tiveram a situação crítica de escassez hídrica declarada pela Secretaria dos Recursos Hídricos (SRH) do Ceará, em 13 de agosto. A declaração, publicada no Diário Oficial do Estado, é emitida quando as bacias chegam a menos de 30% da capacidade de reserva.
É possível driblar o alto índice de evaporação?
O professor Carlos Alexandre Gomes Costa, do Departamento de Engenharia Agrícola da Universidade Federal do Ceará (UFC), explica que uma das principais formas de mitigar as perdas por evaporação é recuperando a mata ciliar dos açudes e mananciais.
Segundo o pesquisador, a vegetação ripária, a mais próxima dos corpos hídricos, pode contribuir com a diminuição da temperatura naquela zona. Além disso, a preservação dessa mata previne o assoreamento desses reservatórios.
Após as chuvas, uma certa quantidade de sedimento é carregada para dentro dos açudes. Sem a mata ciliar para “filtrá-lo”, ele acaba sendo acumulado nos corpos hídricos.
“Se ela não estiver [preservada] para reter a erosão, tudo é aportado para os reservatórios. Em vez de armazenar água, estão armazenando solo erodido”, explica.
Estudos apontam que o Ceará perde cerca de 2% da capacidade de reservar água a cada década devido ao assoreamento. Isso também influencia na evaporação, já que o processo se torna mais intenso em açudes mais rasos.
Preservar a mata ciliar não é tarefa fácil. Fora a grande extensão, essa zona é geralmente ocupada por agricultores que buscam os espaços de solo mais úmido para plantar.
“O Ceará só tem chuvas em um determinado período, e as pessoas precisam sobreviver por mais tempo, esperar até o próximo período chuvoso. Então elas utilizam essas áreas próximas aos rios, onde retém mais umidade. Lá a agricultura sobrevive um pouco mais”, explica Carlos Alexandre.
A recuperação e preservação dessas áreas precisa passar, portanto, pela garantia de alternativas sustentáveis à atividade desses agricultores.
“É uma coisa urgente. Não dá para resolver isso [rápido]. Você tem que prevenir. Mesmo que não ocorra nada, que nunca tenha seca, a gente tem que estar preservando”, afirma.