A prova de Ciências Humanas e suas Tecnologias do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2026, aplicada neste domingo (8), em todo o Brasil, abordou discussões como protagonismo de povos indígenas, desigualdades sociais, conflitos geopolíticos e questões ambientais.
Na avaliação de professores de quatro instituições de ensino ouvidas pelo Diário do Nordeste, o exame manteve características tradicionais do Enem, mas apresentou novidades na organização das questões e na presença de temas relacionados à realidade social e política contemporânea.
O nível de dificuldade da prova ficou entre fácil e mediano, de acordo com os profissionais. Contudo, alguns deles divergiram em relação às questões de História: enquanto especialistas do Colégio pH consideraram um pouco mais fácil, a professora Talitha Gorgulho, do Sistema de Ensino SAE, avaliou que foi mais complexo que no ano passado.
Além disso, um dos principais destaques neste ano foi a estreia do formato "testlet". A modalidade utiliza um único texto-base mais extenso para que o candidato responda a um bloco inteiro de questões.
Modelo inovador de questão abordou origem dos museus
O conteúdo escolhido para a estreia do modelo foi um texto da historiadora Lilia Schwarcz sobre a origem dos museus e sua relação com a construção da memória histórica.
A novidade foi identificada pelos especialistas do SAS Educação, do Sistema de Ensino COC, do Colégio pH e do SAE. No COC, o professor Caio Ferreira destacou que o texto serviu de base para cinco questões que envolveram as quatro disciplinas da área: História, Geografia, Filosofia e Sociologia.
A abordagem passou pela formação dos museus no século XIX, pela organização do conhecimento histórico e pela construção de identidade e pertencimento. Também foram exploradas as diferenças entre os museus europeus e os etnográficos, especialmente aqueles relacionados às culturas dos povos originários.
Para Fabiana Bernardo, especialista de Ciências Humanas do SAS Educação, a prova também trouxe uma reflexão sobre a fetichização das culturas indígenas e o papel dos museus na formação da identidade histórica.
Protagonismo indígena e movimentos sociais
A presença de questões relacionadas aos povos indígenas foi um dos aspectos mais recorrentes nas avaliações dos professores. Entre os assuntos abordados esteve o vestibular indígena da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que amplia as possibilidades de acesso de estudantes indígenas ao ensino superior.
Além da democratização do acesso às universidades públicas, as questões também abordaram a contribuição dos povos originários para a preservação ambiental e os desafios relacionados à integração desses estudantes ao ambiente acadêmico.
Para Talitha Gorgulho, do SAE, a quantidade de questões sobre indígenas foi um dos pontos mais originais da prova. Na percepção dela, houve uma mudança de enfoque em relação a abordagens anteriores, com maior atenção aos povos originários e menor concentração nas questões raciais relacionadas à escravização.
A professora também destacou a presença de questões sobre mulheres e seus papéis na sociedade, além de movimentos sociais como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e comunidades quilombolas.
A avaliação é semelhante à dos especialistas do COC e do SAS, que identificaram discussões sobre escravidão, racismo estrutural, pertencimento, desigualdade de gênero e inclusão social.
Os professores de História do Colégio pH também apontaram memória, identidade, patrimônio e história da escravidão entre os principais eixos da prova. Segundo a avaliação da instituição, apareceram questões sobre as formas de resistência e mobilização de diferentes grupos sociais ao longo da história.
Geopolítica e disputas por recursos estratégicos
Os acontecimentos internacionais também tiveram espaço na prova. Entre os temas identificados pelos professores estão os conflitos envolvendo Estados Unidos, Irã e Israel, com destaque para o Estreito de Ormuz, além das disputas pelo domínio das terras raras, recursos minerais considerados estratégicos para o desenvolvimento tecnológico.
Fabiana Bernardo, do SAS Educação, destacou a abordagem sobre o domínio chinês das terras raras e a posição do Brasil nesse cenário.
O tema também foi identificado por Caio Ferreira, do COC, e pelos professores de Geografia do Colégio pH. Na avaliação destes últimos, as questões sobre o fechamento do Estreito de Ormuz e as disputas tecnológicas entre China e Estados Unidos estiveram entre os principais assuntos de atualidades.
Questões ambientais e agrárias
Na avaliação dos professores do Colégio pH, que incluem Gabriel Félix, de História, Aluísio Júnior, de Geografia, e Matheus Kaliffi, de Sociologia e Filosofia, a questão ambiental foi o principal eixo norteador da prova de Geografia.
Entre os assuntos abordados estavam a importância das terras indígenas para a conservação ambiental, a expansão da energia solar no Brasil e os impactos relacionados à destinação de resíduos urbanos.
Também apareceram questões sobre agricultura familiar, irrigação agrícola e salinização do solo, além da atuação de movimentos sociais na luta pela posse da terra.
A abordagem ambiental também dialogou com questões sociais, especialmente no que diz respeito à demarcação de terras indígenas e à valorização dos conhecimentos das populações tradicionais.
História, ditadura e filosofia
Em História, a prova apresentou questões sobre a Revolta do Contestado, o nazismo, a ditadura civil-militar brasileira e a história medieval. Os professores do Colégio pH destacaram duas questões relacionadas ao período medieval, que abordaram a influência da religiosidade na formação do pensamento e das práticas sociais.
A ditadura brasileira também apareceu nas avaliações do SAE e do SAS Educação.
Já em Filosofia e Sociologia, foram identificadas discussões sobre ética, moralidade, política e organização da sociedade. Entre os pensadores presentes na prova estavam Epicteto, Aristóteles, Thomas Hobbes e Jean-Jacques Rousseau, além de filósofos iluministas.
Fabiana Bernardo, do SAS, chamou atenção para questões relacionadas à filosofia antiga, ao estoicismo e ao Iluminismo, incluindo a relação entre a produção de conhecimento e a prensa de Gutenberg.
Os professores do Colégio pH também identificaram uma presença significativa de conteúdos de Antropologia em Sociologia, com questões sobre relativismo cultural, multiculturalismo e valorização da diversidade.
Outro ponto observado por Fabiana Bernardo foi a ausência de questões diretamente relacionadas aos governos de Getúlio Vargas, tema frequentemente esperado pelos professores nas provas de História.