Não é mais raro falar em audiolivros no Brasil. O que antes poderia ser restrito apenas a um nicho tem crescido cada vez mais, com possibilidade de gerar impactos na Educação. Em solo cearense, o movimento de produzir conteúdos nesse segmento tem rendido frutos, sobretudo a partir do casamento entre iniciativas educativas e Literatura.
O Programa Escolas Criativas, por exemplo, da empresa Quitanda Soluções Criativas e do Instituto BR, em parceria com a Prefeitura Municipal de Itapipoca, selecionou 20 obras de escritores e escritoras do Ceará ou residentes no Estado para adaptação em áudio após chamada pública.
O resultado integrará a plataforma educativa do Escolas Criativas. Ao todo, as obras contempladas abordam temas como diversidade, respeito, igualdade, empatia, solidariedade e inclusão. A curadoria é do escritor, poeta, editor e produtor cultural Talles Azigon.
A intenção é que, para além da fruição artística, o conteúdo sirva como possibilidade de material didático para projetos de leitura e de mediação literária. Devido ao caráter inclusivo dos assuntos trabalhados nos livros, outra ideia é que diferentes públicos possam acessá-los, algo presente na própria natureza democrática dos audiolivros.
Nomes veteranos integram a lista de títulos a serem adaptados para o áudio. “O bicho singular”, de Lia Sanders; “Chuva de Tamarindos”, de Cupertino Freitas; “Entrou injeção, saiu o quê”, de Ana Márcia Diógenes; “Diálogos de João e Júlia - Filosofia para Crianças”, de Léo Mackellene; e “Bilbo, o Macaquinho”, de Rosa Morena, são alguns selecionados.
A dinâmica, de certa forma, espelha o que prevê a Lei nº 15.481, de 31 de julho de 2026. Ela alterou a Política Nacional de Cultura Viva para estabelecer critérios na direção de parcerias e intercâmbios entre Pontos e Pontões de Cultura e estabelecimentos de educação básica.
Conforme a norma, as ações deverão estar de acordo com a proposta pedagógica da escola. A legislação também determina que seja dada preferência aos Pontos e Pontões de Cultura localizados nas proximidades da comunidade escolar.
Os Pontos de Cultura são entidades e coletivos culturais certificados pelo Ministério da Cultura que desenvolvem atividades culturais nas próprias comunidades; por sua vez, os Pontões de Cultura atuam na articulação, formação e mobilização de redes de iniciativas culturais.
O lugar da literatura cearense na sala de aula
Outra reflexão pertinente diz respeito a como produções literárias cearenses podem ocupar a rotina escolar e, a partir daí, gerar resultados – tanto na assimilação de conteúdos quanto no consumo daquilo que é criado na própria terra.
Cearenses participantes da última edição da Bienal do Livro de São Paulo, de 4 a 13 de setembro deste ano, colocaram os pontos em perspectiva ao integrar atividades sobretudo no estande Cordel e Repente – tradicionalmente voltado para trabalhos do Ceará e de todo o Nordeste no evento.
Em junho deste ano, o Diário do Nordeste noticiou o desejo de escritores mirins do Ceará participarem da programação em solo paulistano – algo que aconteceu e promoveu resultados positivos – e, de igual forma, emplacar as próprias criações no ambiente escolar.
À época, o criador da proposta – o escritor Davi Moura, de apenas 12 anos, estudante da rede municipal de ensino de Fortaleza – afirmou que o Projeto Infância Inclusiva tinha como base aquisição e disponibilização de três obras literárias no acervo das bibliotecas das escolas públicas municipais da Capital.
Além disso, era desejo que a Secretaria Municipal da Educação (SME) firmasse parcerias com editoras, escritores e instituições culturais para ampliar o acesso às obras e desenvolver ações de leitura e cidadania na rede pública municipal.
À frente de experiências culturais também na Bienal paulistana por meio da Caravana Fantástica do Ceará, contemplada pelo edital de Mobilidade Artística do programa Ceará Criativo, da já citada Quitanda Soluções Criativas, Alexandre de Almeida concorda com a ideia, ao mesmo tempo que percebe: a inclusão da literatura cearense contemporânea em sala de aula é tema delicado e necessário.
“A gente não vê tanto, apesar de alguns escritores que trabalham com livros em sala de aula tenham obras compradas por colégios particulares. Sinto que ainda falta chegar um tanto nas escolas públicas. Vira e mexe, alguma escola me chama para conversar com os alunos sobre livros. Mas às vezes, a instituição não consegue que os próprios estudantes leiam o livro porque não tem orçamento pra isso. Falta essa atenção e esse incentivo”, analisa o escritor.
Atenção à formação de professores
Autor de dois livros – um de fantasia e outro de poemas, mais alinhados, respectivamente, a estudantes do Ensino Fundamental e Médio – Alexandre acredita que uma melhor formação dos professores, para que fiquem mais atentos a como trabalhar as diferentes variações da literatura cearense e adaptá-las a cada contexto (como exemplo, cita obras de ficção científica para aulas de Química ou Biologia), mudaria o panorama para melhor.
“Às vezes, um professor acha que fantasia não é algo que vá ensinar Matemática ou História para uma criança, por exemplo. E ela pode servir como isso, sim”.
Prova disso também são obras de Wilson Júnior, outro nome cearense de destaque nas letras. Com três romances publicados e um quadrinho a ser lançado, o escritor, professor e editor desenvolve narrativas nas quais se destacam assuntos como ficção histórica e negritude.
Os cenários são reconhecíveis: Aracati é um deles; a Fortaleza antiga é outro. “O Ceará e o Brasil são temas centrais na minha literatura porque eu trabalho justamente a questão da negritude diaspórica. A História se tornou a minha ferramenta principal no ato de criar ficção, bem como o fantástico, que se dá por meio da minha formação como leitor”.
Segundo ele, o criar cearense na Educação é parte fundamental no movimento de formar mentalidades, disputar campos de conhecimento e promover reflexões. “Quando você não consome arte produzida por pessoas de seu próprio Estado, vai formar uma visão de mundo de certa forma desconectada do espaço onde você cresceu”, situa.
“No que diz respeito a como a gente chega nesses estudantes e professores, a realidade é de que são necessárias políticas públicas. Mesmo para um autor grande chegar no espaço da escola, não é algo tão simples. Passa por editais federais, como o PNLD [Programa Nacional do Livro e do Material Didático]. Mas depender exclusivamente dele é um pouco complicado porque é bastante controlado pelo eixo sudestino de Cultura”.
Não à toa, a defesa do escritor por políticas institucionais mais sólidas e concursos nas secretarias de Cultura, para consolidação de projetos permanentes, entre outros passos. “A política do livro deveria ser encarada como objeto a ser trabalhado de maneira conjunta, no sentido de criar uma célula de diálogo entre a Cultura e a Educação para esse fim”.
O futuro do consumo de livros na Educação
Escritora, curadora e produtora, Mirella Paes coordenou a programação juvenil da Bienal do Livro de Pernambuco, no ano passado. Se o assunto for o futuro do consumo de livros, ela aposta no trabalho dia após dia na sala de aula e na parceria com a família.
“Percebo que professores têm feito um trabalho muito forte de incentivo à leitura. Não é fácil, principalmente devido ao celular. Mas, quanto menor for a criança, mais o livro faz sentido. Se a gente continuar fomentando isso, vamos ter futuros leitores mais ávidos”, torce.
Além de ser entusiasta da literatura independente – “são escritores independentes que movimentam a Literatura deste país e que fazem com que diferentes gêneros literários cheguem às grandes editoras” – ela elenca alguns passos para um horizonte mais promissor na seara dos livros e das letras.
“Falta as pessoas explorarem mais os sebos e os pais fazerem mais parte da educação dos filhos – além, é claro, de políticas públicas de incentivo. Professores estão com muita responsabilidade nas escolas para fazer com que a leitura funcione. Como é que essa roda vai girar?”, provoca.
Talvez continuando a investir na criatividade, como a escritora e jornalista cearense Sofia Osório – igualmente participante da Bienal do Livro de São Paulo neste ano. O mais novo trabalho dela, “Celeste e a Princesa Lazúli”, é uma fantasia juvenil que estimula o público a imaginar um portal mágico em pleno Parque do Cocó, em Fortaleza.
Para a autora, é forma divertida e inteligente de fazer com que os sentidos sejam aguçados para que em tudo haja leitura e criação. “Tendo mais incentivos para isso, acho que tudo tende a melhorar. Estou buscando caminhos para chegar a mais gente”.
Adriana Alcântara, diretora geral da Audible, o serviço de audiolivros e podcasts da Amazon, no Brasil, conclui: “Acreditamos que o audiolivro amplia as possibilidades de acesso à literatura e ao conhecimento. Na sala de aula, pode ser utilizado como recurso complementar à leitura tradicional, apoiando atividades de interpretação de texto, desenvolvimento da escuta, ampliação de vocabulário, contato com diferentes formas de narração e aproximação dos estudantes de autores e obras relevantes”, enumera.
“A experiência auditiva também pode favorecer estudantes com diferentes perfis de aprendizagem, além de contribuir com o aspecto da acessibilidade ao conteúdo. Por fim, o professor pode trabalhar com a obra em áudio em conjunto com o livro impresso ou digital, criando atividades de comparação entre as linguagens, análise de personagens, ritmo, ambientação e escolhas interpretativas do narrador”.
*O repórter viajou a São Paulo a convite da Audible Brasil.