Brasileiros apostaram quase R$1 bilhão em bets durante Copa do Mundo, diz levantamento

Atividade teve mais adesão de homens e de pessoas da classe A.

Escrito por Gabriel Bezerra* producaodiario@svm.com.br
21 de Julho de 2026 - 14:30
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Legenda: No Brasil foram gastos R$ 992 milhões em bets no período de 39 dias.
Foto: Vlad Vasnetsov/Pexels

Os brasileiros gastaram R$992,1 milhões com apostas esportivas durante a Copa do Mundo de Futebol 2026, segundo o indicador Placar das Bets, desenvolvido pela empresa Klavi. O valor acumulado corresponde a uma média de aproximadamente R$ 25,4 milhões apostados em cada um dos 39 dias da competição.

O monitoramento avaliou uma amostra de 1,2 milhão de pessoas, de diferentes faixas de renda, sexo e regiões do Brasil, e leva em conta apenas casas de apostas legalizadas no País, não considerando apostas realizadas em meios clandestinos.

Embora tenha uma das menores proporções de apostadores do país, ocupando o último lugar entre as 27 Unidades da Federação, o Ceará acumulou 35% da população da amostra apostando no período.

Os dados da Klavi também mostram que as apostas alcançam diferentes perfis sociais. Entre os apostadores identificados pela pesquisa, 64% são homens e 36% são mulheres.

Quando analisadas as faixas de renda, a maior proporção de apostadores aparece na classe A (53%). No entanto, como a maior parte da população brasileira está concentrada nas classes C e D/E, os números absolutos de apostadores nesses grupos também são relevantes (29%).

A presença crescente das plataformas de apostas online tem ampliado o debate sobre seus impactos econômicos e sociais. Atualmente, empresas do setor estão presentes em transmissões esportivas, redes sociais e patrocínios de clubes de futebol, ampliando a exposição do público a esse tipo de serviço.

Como as plataformas estimulam o engajamento dos usuários

Para compreender os mecanismos utilizados pelas casas de apostas para atrair e manter usuários nas plataformas, o Diário do Nordeste ouviu o publicitário e professor da Universidade Federal do Ceará (UFC), Chico Neto, e a psiquiatra e pesquisadora da UFC, Luíza Weber Bisol.

Segundo Chico Neto, as plataformas utilizam estratégias de comunicação que associam a experiência das apostas a sensações positivas, diversão e entretenimento.

“As bets se vestem de um contexto da semiótica da alegria, de que tudo é bom, de que tudo está certo, para nos envolver e trazer as pessoas para os jogos de azar”, explica o publicitário.  

A psiquiatra Luísa Weber Bisol ressalta que, muitas vezes, os apostadores não conseguem parar de jogar porque o vício e a vontade avassaladora de continuar têm uma ligação direta com o cérebro. Conhecido como “sistema de recompensa”, ele funciona de maneira bem parecida com a dependência de substâncias químicas.  

“Ele (o ato de jogar) provoca alterações nesse circuito cerebral que vai envolver algumas estruturas específicas que estão relacionadas a essa gratificação que, num primeiro momento, o jogo traz”, conta.   

As plataformas utilizam estratégias de comunicação que associam a experiência das apostas a sensações positivas.
Legenda: As plataformas utilizam estratégias de comunicação que associam a experiência das apostas a sensações positivas.
Foto: Freestocks/Pexels

Dentro desse sistema de recompensa, há um neurotransmissor que tem grandes liberações instantâneas: a dopamina. Quando o cérebro recebe grandes liberações de dopamina, vem uma sensação de prazer instantânea que torna mais difícil sair das plataformas.

“A gente, talvez, tenha que buscar comportamentos que nos deem essas descargas de dopamina e que não sejam tão destrutivos para nós”, indica Luísa.  

Para além do cérebro

Para além de questões cerebrais, o publicitário Chico Neto afirma que as bets são projetadas tecnicamente para atrair e aprisionar os usuários até no design. Ele cita como exemplo botões de entrar e sair e a quantidade de perdas.

“Você não têm clareza do quanto você está perdendo lá dentro e de quanto tempo você está dentro da plataforma. E o botão de entrar é muito mais notável do que o botão de sair”, exemplifica.  

Esses padrões, chamados de “Dark Patterns”, são criados para que o usuário não consiga sair do jogo. O design, porém, não é o único mecanismo: as plataformas também investem em “chutes na trave”, quase acertos que são bem articulados.  

“Você consegue perder em uma rodada, mas bater na trave e ir para a rodada seguinte, de uma forma muito célere, que responde a essa ansiedade gerada pelo próprio mecanismo da plataforma”, explica.  

Saiba como e onde encontrar ajuda especializada  

Em Fortaleza e no restante do Brasil, existem plataformas e grupos de apoio que ajudam pessoas com vício em jogos. O Sistema Único de Saúde (SUS) disponibiliza um questionário confidencial no qual o usuário pode descobrir se tem predisposição à ludopatia. 

Na capital cearense, também é possível participar de encontros presenciais com pessoas que enfrentam o mesmo problema por meio do Jogadores Anônimos. Os encontros abertos são aos sábados, às 10h.

Os encontros em Fortaleza ocorrem em dois locais:

  • Grupo Fortaleza reúne-se às segundas e quartas-feiras, das 19h30 às 21h30, no Centro (Rua São Paulo, 32, Sala 316).
  • Grupo Iracema realiza reuniões às quintas-feiras, das 19h30 às 21h30, e aos sábados, das 10h às 12h, na Praia de Iracema (Av. Almirante Barroso, 949).

As informações e inscrições podem ser obtidas pelo telefone (85) 98929-5529.

*Estagiário sob supervisão dos jornalistas Nícolas Paulino e Aline Conde.

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