Escola pública do Ceará vence prêmio nacional de inovação com projeto contra desperdício de frutas

Revestimento sustentável e de baixo custo foi um dos 10 finalistas entre mais de 2 mil projetos inscritos

Com um projeto inovador e de baixo custo para prevenir o desperdício de frutas, a Escola de Ensino Médio de Tempo Integral (EEMTI) Marconi Coelho Reis, da cidade cearense de Cascavel, se tornou uma das três vencedoras do Júri Popular do prêmio Solve For Tomorrow (Respostas para o Amanhã), que chegou à 10ª edição em 2023. O anúncio ocorreu na manhã desta terça-feira (28), em São Paulo. Ao todo, 10 iniciativas de todo o país foram finalistas.

O projeto “PectiVitalis: Revestimento Sustentável Anti-Desperdício para Frutos” desenvolveu um produto comestível e biodegradável, à base de pectina e outras fibras extraídas da casca do maracujá, para ser aplicado em frutas, legumes e verduras e aumentar a vida útil desses alimentos.

Os estudantes da escola cearense fizeram um teste com a banana. Em temperatura ambiente, ela dura em média de 5 a 6 dias. Com a aplicação do revestimento, ela passou a durar de 12 a 14 dias, já que a pectina, fibra extraída de frutos e hortaliças, é conhecida por fornecer viscosidade e maciez aos alimentos. 

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projetos de escolas públicas de todo o Brasil se inscreveram na edição de 2023 do evento.

Segundo Heloina Lopes Capistrano, professora de Biologia e orientadora da equipe, o processo começou com a identificação de um problema comum na comunidade de Cascavel: o apodrecimento rápido da colheita de muitos agricultores - inclusive dos participantes da tradicional Feira de São Bento, a maior feira livre do Ceará e a segunda maior do Brasil.

Além dos danos mecânicos, ou “machucados”, muitos produtos ficam à mercê de fungos e bactérias. Como o Ceará é um dos maiores produtores de maracujá do país, o fruto foi escolhido para a extração da pectina. 

“O pai de uma aluna é dono de uma polparia e as cascas eram desperdiçadas num lixão. Nós começamos a estudar e a produzir essa pectina de maneira simples, fervendo a casca. Muitas indústrias já utilizam para fazer gel e gelatina, por exemplo”, explica.

O material foi misturado ao açafrão, planta com potencial antioxidante, anti-inflamatório e antimicrobiano, gerando um revestimento que tanto pode servir para imersão como para borrifamento. “Depois que seca, ele vira um filme plástico. Fizemos muitos testes e baterias laboratoriais até identificarmos a melhor consistência. Foi algo simples, fácil e de ótima comercialização”, afirma a professora, destacando ainda o eventual uso do papel do produto no combate à fome.

Responsabilidade social

Em conversa com o Diário do Nordeste, os estudantes participantes do projeto, todos do 3º ano, se mostraram empolgados e orgulhosos da conquista. Nicole Viana, 17, lembra que a ideia surgiu dentro da própria casa, já que o avô é agricultor e presenciava um “desperdício imenso” de frutas e verduras. Parte do excedente era enviado para a neta distribuir entre os colegas de sala.

“Eu me sinto muito realizada porque entrei na escola nesse ano e não tinha noção desse universo de projetos. A escola me ajuda bastante a me desenvolver tanto pessoal quanto profissionalmente”, destaca.

Lucas Targino, 18, comemora o resultado após meses de estudos e experimentos. “Conseguimos conquistar o que estávamos buscando. Foram n testes com n falhas, mas sempre almejando o protótipo final. Foi muito esforço e dedicação”, recorda. 

O terceiro integrante, Edoardo Paz, 18, ressalta o papel social e transformador do projeto. Os alunos percorreram quiosques de feirantes de Cascavel, um a um, para apresentar a iniciativa e compartilhar a conquista. “A maioria sempre ficava muito orgulhosa. Uma senhora disse que se sentia muito respeitada e valorizada com a ideia, porque eles sabem que pode melhorar a vida financeira e a produção deles”, conta.

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centavos por fruto revestido é a estimativa do custo do PectiVitalis.

Segundo os participantes, o projeto já beneficiou pelo menos 27 famílias agricultoras e 27 feirantes de Cascavel. 

Para a diretora da escola, Iara Valente, a conquista é resultado de uma metodologia de trabalho que incentiva a pesquisa científica desde cedo. Contudo, também pontua a dedicação dos estudantes, já que eles possuem uma série de atividades no tempo integral e não podem se ater apenas ao laboratório.

“É um orgulho ensinar a esses alunos a resolver problemas da comunidade, a perceber que eles podem ter uma ideia e pesquisar. É uma dinâmica bem complexa, mas que nos traz muito resultado. Nossa escola foi inaugurada em 2017, ainda é uma menina, mas muitos alunos estão com a gente porque querem aprender”, comemora.

Como prêmio, os alunos e a professora orientadora levam um fone de ouvido sem fio. Já a escola receberá um projetor e um troféu. Por terem sido finalistas, eles também ganharam tablets.

Destaques anteriores

A Escola Marconi Coelho já recebeu o 1º lugar do Júri Técnico do Solve For Tomorrow em duas ocasiões. A primeira vez foi em 2019, tendo reconhecida uma matriz polimérica biodegradável a partir de folhas de goiaba que pode ser usada em curativos para vítimas de queimaduras ou pessoas com lesões cutâneas.

O bicampeonato veio em 2022, com o projeto Arbocaps. A equipe responsável produziu cápsulas que, quando colocadas em água parada, liberam gradualmente biocompostos que combatem a proliferação do mosquito Aedes aegypti, responsável por transmitir dengue, zika e chikungunya - problemas de saúde pública no Estado.

Desde 2014, o Ceará contabiliza participações exitosas em oito das dez edições. Em 2016, na 3ª edição do programa, um dos projetos mais votados pelo Júri Popular era do município de Granja. O mesmo aconteceu nos anos de 2019 e 2020, com escolas de Cascavel, e em 2021, com uma escola de Crateús.

Solução para problemas reais

O Solve For Tomorrow é uma iniciativa global da Samsung. No Brasil, a ação é coordenada pelo Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec) e estimula o interesse de jovens de escolas públicas em Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (abordagem STEM). 

Segundo Anna Karina Pinto, diretora de Marketing Corporativo da Samsung, a premiação desafia docentes e estudantes a desenvolver soluções inovadoras para problemas reais. Desde 2014, foram inscritos mais de 14 mil projetos de 6 mil escolas brasileiras, envolvendo 36 mil professores e mais de 173 mil alunos.

“Esse programa tem cumprido seu papel ainda mais do que a gente esperava há 10 anos, que é fomentar a educação, a tecnologia, a matemática e as ciências da natureza para que a gente melhore a sociedade brasileira, olhando sempre para as gerações futuras”, reforça.

Letícia Araújo, coordenadora de Programas e Projetos do Cenpec, garante que o uso de metodologias ativas estimulam os jovens a buscarem soluções viáveis para problemas do seu entorno. “A gente não espera que estudantes do Ensino Médio resolvam problemas do planeta, por causa da idade, mas podem resolver um problema de uma realidade local que também pode ser global”, diz.

Vencedores nacionais

Os outros dois projetos contemplados pelo Júri Popular foram o "Biofábrica sustentável: produção de bioinsumos agrícolas", de Vila Velha (ES), e "SPP Sustentável: reciclando no Potengi", de São Paulo do Potengi (RN).

Já os vencedores nacionais após avaliação da Banca Julgadora foram:

  • 1º lugar: NanoFotoCream: antioxidante, fotoprotetor com ação repelente (Porto Velho/Rondônia)
  • 2º lugar: Produção de biogás e biofertilizante: alternativa sustentável na comunidade (Penalva/Maranhão)
  • 3º lugar: Produção de Combustível Sólido de Alto Rendimento com Cascas de Coco e Serragem (Tutóia/Maranhão)

*O Diário do Nordeste viajou a São Paulo a convite da Samsung.