Filme 'De Repente Drag' homenageia arte Drag Queen e reconstrói cena do reality 'Glitter'

Vai ter "choque de monstro" nos cinemas. Cearenses Rochelle Santrelly, Sangalo Schneider e Silvero Pereira participam de filme de ficção gravado no Maranhão

Escrito por Antonio Laudenir, laudenir.oliveira@svm.com.br

Verso
No longa, a protagonista Kimberly participa do concurso
Legenda: No longa, a protagonista Kimberly participa do concurso "NorDrags Race", uma lembrança pontual do mega sucesso norte-americano "RuPaul's Drag Race"
Foto: Letz Amorim

A origem da cultura drag queen remonta aos primórdios da arte teatral, mas também é presença marcante na sétima arte. A mais recente aposta chega hoje às salas de cinco cinemas brasileiros. "De Repente Drag" homenageia esta tradição com um elenco repleto de estrelas do segmento.

A direção e roteiro é de Rafaela Gonçalves e a produção filmada no Maranhão alia comédia e pitadas de suspense para contar a transformação de um jornalista em diva da performance. O Ceará é presença com Silvero Pereira e as participações especiais de Rochelle Santrelly e Sangalo Schneider.

O longa estreia em Fortaleza no dia 11 de agosto, com exibição no Cinema do Dragão. Além da capital cearense, a obra pode ser vista em salas de São Luís, Palmas, Salvador, São Paulo e Rio de Janeiro.

Nasce uma estrela

Na trama, conhecemos Julião (Ruan do Vale), um repórter de TV sem muita fama no mercado. Por acaso do destino, ele e a amiga de trabalho Yasmin (Brena Maria) esbarram com Lohanny Bombom (Frimes). Quando a drag explica ser vítima de tráfico de pessoas, a vida de Julião passa a trilhar novos destinos. 

Além de ajudar Lohanny, o jornalista vê no caso a chance de produzir a grande reportagem da carreira. Contudo, para efetivar sua investigação, ele precisa eliminar preconceitos e mergulhar neste universo. Para isso, será necessário concorrer no maior concurso de drags do Nordeste, produzido pela fictícia agência "NorDrags".

Para o ator Ruan do Vale, as diferenças físicas e comportamentais entre seus personagens demonstram a riqueza da história. "Enquanto ele mostra a insegurança, ser uma pessoa retraída, fechada e tímida... A Kimberly mostra força, poder, segurança, ousadia e 'sex appeal', descreve. 

Ruan explica que a criação de Kimberly não se deve a uma única referência cultural. Trata-se de uma personagem pensada a partir de uma profunda pesquisa. Vai desde a presença do humor de caricatura facial, bem como inspirações que vão da artista drag Adore Delano à Mitzi (de Hugo Weaving) em "Priscilla, A Rainha do Deserto"  (1994).

A parti desse conjunto, testemunhamos o renascimento de Julião para Kimberly Vegeta. "De Repente Drag" homenageia esta expressão cultural e reafirma a força do cinema atual cinema nordestino. Mesmo com os desafios por conta o orçamento reduzido, o projeto movimentou São Luís, empregando drag queens, entre outras profissionais, mulheres, pretas e LGBTQIA+.

Choque de monstro

A galeria de estrelas e participações especiais é um dos destaques do filme. Estão em tela Márcia Pantera, 
Pepita, Potyguara Bardo, Kaya Conky, Silvetty Montilla e Tchaka. Silvero Pereira foi o ator convidado para o longa e interpreta Pepita Ruiz, uma importante aliada nas descobertas de Julião.

Silvero Pereira interpreta a drag Pepita Ruiz que ajuda o protagonista do filme a se expressar
Legenda: Silvero Pereira interpreta Pepita Ruiz, que ajuda o protagonista do filme a se expressar

"Drag Queen é uma identidade artística. É a arte de você criar uma personagem mais exagerada, sabe, como uma forma de expressão. De questionar os padrões que são impostos, independente de você ser gay ou não", explica Pepita Ruiz para o protagonista em certo momento do filme. 

"De Repente Drag" entrelaça uma série de referências pop. O concurso no qual Kimberly se envolve é conhecido como "NorDrags Race", uma lembrança pontual do mega sucesso norte-americano "RuPaul's Drag Race". Popular no mundo online, o reality "Glitter: em busca de um sonho" da TV Diário retorna com as presenças de Rochelle Santrelly e Sangalo Schneider.

"Glitter: em busca de um sonho" na telona

"Quando me convidaram, não acreditei. Será que é verdade?", conta Sangalo Schneider. A artista resgata que as filmagens no Maranhão aconteceram em 2020 e a experiência de estar na companhia de tantos profissionais é considerada incrível. O resultado é um filme que aborda preconceito com humor e mexe com os sentimentos, descreve. 

"Me passaram o roteiro e fiquei me perguntando se era para mim. Aceitei, afinal, quando trabalhamos com o que gostamos, nós desenrolamos", afirma. Passado esse medo inicial, a partir de então foi se jogar no projeto. "Passei para telona! Eu não brinco", se diverte Sangalo.

Sangalo defende que "Glitter: em Busca de um Sonho" está muito bem representado, dessa vez, na arte cinematográfica.  Não ganhei a premiação maior, mas o prêmio que levo para o resto da vida é o carinho e reconhecimento do programa. Se quero fazer mais cinema? Com certeza, estou estudando para isso", finaliza Sangalo. 

Rochelle Santrelly comemora a sintonia da parceria em dupla. "O sucesso eu acho que foi esse esse conjunto bem gostoso com é a Sangalo. Essa disputa, essa briga, né? Eu acho que as pessoas gostam disso. É como fosse Batman e Robin". 

Arte e combate ao preconceito 

Com a imposição social de que apenas homens podiam atuar no teatro, a expressão Drag Queen ganhou espaço a partir de diferentes territórios. Conseguiu atravessar dos palcos de igrejas ao teatro elisabetano do século XVI. Especula-se que a própria origem do termo advém do ambiente cênico.

Duas teorias tentam explicar o tema. Conta-se que quando atores interpretavam figuras femininas, era comum ouvi-los comentar como os vestidos usados "arrastavam" (do inglês "drag") pelo chão. Já outra história sugere que o bardo William Shakespeare usava a sigla para sinalizar quando uma personagem seria vivida por um homem. 

Esta forma de entretenimento ganhou força com o espetáculo vaudeville dos EUA (unindo comédia, música e dança), atravessou a cena underground entre os anos 1960 e 1980 e hoje testemunha a popularidade de novas gerações a partir de nomes como RuPaul, Pablo Vittar e Gloria Groove. Vale lembrar, trata-se de uma expressão que mesmo com essa história ainda luta contra o preconceito.