Clássico do cearense Adolfo Caminha, “Bom Crioulo” mantém-se atual ao ganhar nova edição

Editora Todavia assume as rédeas do novo exemplar, pondo em evidência polêmica trama de amor e tragédia

Escrito por Diego Barbosa diego.barbosa@verdesmares.com.br
05 de Julho de 2019 - 23:00
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Legenda: Aracatiense Adolfo Caminha transgrediu padrões na época da primeira publicação de "Bom Crioulo"
Foto: Arte: Lincoln Souza

Poucos clássicos da literatura nacional ombreiam a magnitude e o rebuliço que a trama de “Bom Crioulo” foi e ainda é capaz de gerar, mesmo 124 anos após a primeira publicação. Escrito pelo cearense Adolfo Caminha (1867-1897), o romance narra a história do escravo foragido Amaro que, ingressando na Marinha, vê se realizar o sonho de liberdade. Com abundante força física e biótipo vigoroso, logo torna-se um marujo benevolente e caprichoso, daí o apelido, homônimo ao título.

Aleixo atravessa a vida do homem exatamente nessa nova etapa da vida, culminando numa relação de intenso desejo, frustrações e tragédias entre eles. Um entrelaçar de perspectivas e cores (um deles é negro e o outro branco) que ecoa temas considerados tabus no fim do século XIX e cujo alcance contorna a dinâmica do tempo ao permanecer pautando acaloradas discussões na contemporaneidade.

Tal visão é compartilhada pela escritora e mestranda em Literatura Comparada na Universidade Federal do Ceará (UFC), Carla Castro, diante da publicação da nova edição do volume, mais recente lançamento da editora Todavia, saído na última sexta-feira (5).

“Este é um acontecimento consciente do papel que a literatura desenvolve em promover a discussão por meio da ficção, pois os temas que o título traz estão cada vez mais atuais; a editora à frente da ação, assim, cumpre um papel social”, avalia. 

Segundo ela, analisando a repercussão do romance no ano da publicação oficial, 1895, observa-se a denúncia da crítica de que a obra era obscena, pois abordava temas que iam contra a moral, sobretudo por retratar relações sexuais classificadas como “anti-naturais”.

“Era algo que não era nobre e causava repugnância. Além de massacrar o tema da homossexualidade, a crítica também tratou com preconceito a questão do negro, demonstrando o comportamento da sociedade da época, hipócrita e escravocrata, no final do século XIX”, complementa, evidenciando o excerto do periódico carioca “A Notícia”. Em 20 de novembro de 1895, trazia uma dura impressão do clássico.

“Este moço (Adolfo Caminha) é um inconsciente, por obcecação literária ou perversão moral. Só assim se pode explicar o fato de haver ele achado literário tal assunto, de ter julgado que a história dos vícios bestiais de um marinheiro negro e boçal podia ser literariamente interessante”, anunciava uma das partes do texto.

Transgressão

Estudioso de temáticas como erotismo e transgressão na literatura brasileira , o professor do Programa de Pós-Graduação em Letras da UFC, Claudicélio Rodrigues, observa que colocar a obra novamente nas prateleiras porá em evidência ao público do século XXI um romance que, a despeito do foco cientificista, narra de maneira pungente, com uma potência erótica ímpar, os sortilégios do desejo.

“Os escritores ‘malditos’, ou seja, aqueles que insistiram em relatar os amores tidos como não normativos, merecem ser lidos, não apenas porque fizeram dos desejos excelente literatura, mas porque permitem situar no horizonte da história e do espaço literários esses amores”, opina.

Ele explica que o aspecto contraventor da trama não está no modo como o amor homossexual é apresentado, mas no fato de isso ser o centro do enredo. “Adolfo Caminha segue exatamente os moldes do cientificismo ao tratar do assunto, ou seja, o desejo entre homens é visto como patologizante. O que causou escândalo é o fato do autor narrar a paixão de um negro marinheiro adulto por um adolescente branco”.

Entre as instituições que mais se sentiram feridas a partir da abordagem do livro, Claudicélio cita a Marinha do Brasil – que o autor conhecia muito bem por ter estudado na Escola Naval – e a sociedade da época, pautada nos valores da moral cristã. Para o pesquisador, o que se sobressai nessa história toda é que o desejo homossexual é um campo onde a poética se debruça sobre amores sussurrados, vividos às escondidas.

Olhares postos em discussão no seio literário local não apenas pelo pioneirismo de Adolfo, mas pela continuação do trabalho de tantos. Os textos do Coletivo As Travestidas – especificamente aquele de “BRtrans” (Cobogó, 2017), de Silvero Pereira – e os livros do escritor e ativista Júnior Ratts, autor de “A parede cor-de-rosa de Rodrigo Blue” (Expressão Gráfica, 2011), por exemplo, perpetuam o outrora incômodo gerado na província quando da publicação de “Bom Crioulo”, indo além: ressaltam as dores e delícias do universo LGBTI+. 

“As lutas políticas em prol da diversidade sexual e de gênero e o mergulho nas artes, assim, têm contribuído para o debate na Terra do Sol”, salienta Claudicélio.

De fato, que a revisita ao clássico não apenas aqueça o setor editorial como alavanque maiores expressões da vontade de ser.

Bom Crioulo
Adolfo Caminha
Todavia
2019, 176 páginas
R$ 49,90 / R$ 9,90 (e-book)