Bailarinas gordas explicam relação entre corpo e performance no palco

Jussara Belchior, do espetáculo Peso Bruto, e Carolina Conde, estudante, questionam estereótipos

Escrito por Mylena Gadelha mylena.gadelha@diariodonordeste.com.br
26 de Outubro de 2018 - 00:00 (Atualizado às 23:11)
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Legenda: Jussara Belchior apresenta 'Peso Bruto', no qual discute e promove resistência aos padrões estéticos
Foto: Foto: Divulgação

A urgência em mostrar o corpo como um meio para representar a arte, livre dos estereótipos e dos padrões impostos todos os dias. O espetáculo Peso Bruto, trabalho solo da bailarina Jussara Belchior, com apresentação marcada para esta sexta-feira (26), na Bienal Internacional de Dança do Ceará, levanta a questão e parte do estranhamento causado pelo corpo gordo na dança. Elemento de um questionamento ainda maior, a intenção é levantar o assunto que é realidade na vida de bailarinas e bailarinos.

"Sempre fui gorda e isso nunca deixou de ser uma questão", inicia de pronto Jussara ao falar ao Verso sobre o espetáculo. Para ela, o fato de não se encaixar no que é esperado na sociedade deve ser discutido abertamente nos mais diversos âmbitos. Com a dança, não seria diferente. "O nosso corpo é muito associado a estigmas de um corpo preguiçoso, que não controla seus impulsos, que não é desejado, feio e doente. E a proposta é de provocar outros olhares possíveis para esse corpo a partir do meu", comenta.

"A gente precisa descobrir quais as nossas formas de lutar, de existir e de resistir" - Jussara Belchior

Ao todo, treze cidades já receberam Peso Bruto, e agora é a vez de Fortaleza entrar no cronograma. Segundo Jussara, os envolvidos com a montagem acreditam na importância do tema.

Para se afirmar

Quem também acredita na força necessária para derrubar esses modelos é a cearense Thereza Rocha. Ela se iniciou na dança criança, e percebeu os olhares e os pedidos por adequação desde então. "Eu não correspondia aos padrões de beleza que me eram impostos naquela época e essa não correspondência durante muito tempo foi vivida como sofrimento, mesmo na minha adolescência", exemplifica. Hoje, ela se dedica aos estudos e às pesquisas relacionadas diretamente à dança e é pesquisadora da área, atuando como professora do curso de graduação em dança da Universidade Federal do Ceará (UFC).

Ainda sobre a performance, que realiza sozinha nos palcos, Jussara afirma que frutos já foram gerados a partir do início. Agora, ela estuda a recepção do público diante do que apresenta. "Esse projeto tem tomado proporção. Comecei com a urgência em fazer esse solo e aí, apresentando essa performance, percebi que essa urgência não é só minha. É muito viva a resposta que o público dá em relação a esse trabalho".

Novos olhares

Enquanto isso, Carolina Conde, de 21 anos, vem trilhando a cada passo nesse caminho e entende que o papel de autoafirmação dentro desse espaço tem sido fundamental para ela. A jovem ressalta que o sentimento não pode faltar em nenhuma apresentação artística e, para isso, é essencial que se esteja de corpo e alma no que se está fazendo.

"Com a onda do empoderamento da mulher gorda, eu notei que, entre as mulheres, essa aceitação do próprio corpo é uma pauta, sabe? Porque antes, se a gente pensava em querer se amar do jeito que é e demonstrar essa força, logo rolava aquela culpa por não estarmos encaixadas em um padrão", questiona.

A estudante de dança Carolina Conde, 21 anos, ingressou ainda criança no ballet. Logo depois, foi o sapateado que também ganhou o coração da menina
Legenda: A estudante de dança Carolina Conde, 21 anos, ingressou ainda criança no ballet. Logo depois, foi o sapateado que também ganhou o coração da menina
Foto: Foto: arquivo pessoal

No entanto, ela acredita que tudo ainda não configura um cenário ideal e conta que vê o reforço de muitos preconceitos. "Eu tenho visto mais mulheres gordas indo dançar, claro, mas as professoras de ballet e a maioria das alunas continuam ainda presas nesse padrão, como se um corpo gordo não pudesse fazer muito", questiona.

Para Thereza, é justamente este o papel da arte: o de proporcionar a reflexão. "Eu acho, inclusive, que algumas danças demonstram mais isso: o corpo não é simplesmente uma anatomia, ele é mais que isso. É pensamento, ideologia, política e formas de existir no mundo", diz.

Jussara é outra que corrobora esse ponto de vista e reitera a importância disso. A bailarina faz questão de martelar no quão necessário é pensar em maneiras de tornar possível esse novo olhar por meio do corpo.