Ludopatia: o que é, sintomas, causas e como tratar o vício em apostas

Entenda o que é ludopatia, quais são os sinais do vício em jogos e apostas, como identificar o transtorno e onde buscar tratamento no Ceará.

Escrito por Raísa Azevedo raisa.azevedo@svm.com.br
17 de Outubro de 2026 - 07:00
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Legenda: Vício em apostas pode incluir sintomas como irritabilidade, ansiedade, inquietação e insônia.
Foto: Pancasona photos/Shutterstock.

O que começa como uma aposta por diversão, na expectativa de ganhar dinheiro, pode se transformar em um problema que compromete a saúde mental, as relações familiares e a estabilidade financeira.

Também conhecida como transtorno do jogo, a ludopatia é uma condição caracterizada pela dificuldade de controlar o impulso de apostar, mesmo diante de prejuízos e consequências negativas.

Com a popularização das plataformas de apostas on-line e a facilidade de acesso aos jogos de azar nos últimos anos, as chamadas bets passaram a fazer parte da rotina de milhões de brasileiros. Para algumas pessoas, no entanto, a prática ultrapassa os limites do entretenimento e passa a ocupar um espaço central na vida, levando a dívidas, ansiedade, isolamento social e conflitos familiares.

No último mês, a Medida Provisória 1.394/2026 foi assinada pelo presidente Lula, proibindo a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade de apostas esportivas e jogos on-line no Brasil. Segundo o governo, a medida visa proteger a população diante do cenário de endividamento e transtornos de cunho psicossocial.

Mas como identificar quando o hábito de apostar se torna um problema? Quais são os sinais de alerta, as consequências para a saúde e os caminhos para buscar tratamento?

Em entrevista ao Diário do Nordeste, o médico psiquiatra Alfredo Holanda explica os sintomas da ludopatia, as possibilidades de recuperação e onde encontrar atendimento gratuito pelo Sistema Único de Saúde (SUS) no Ceará.

O que é ludopatia?

A ludopatia é um transtorno de saúde mental reconhecido, caracterizado pela  perdade controle sobre as apostas e continua jogando apesar das consequências negativas graves.

Para o psiquiatra Alfredo Holanda, o avanço das medidas contra as apostas online no Brasil coloca em evidência um problema que não desaparece junto com as plataformas: os impactos deixados em quem desenvolveu uma relação compulsiva com o jogo.

Não se trata de falta de força de vontade. A pessoa não é fraca. O cérebro dela foi sequestrado por um sistema projetado para viciar".
Alfredo Holanda
Psiquiatra

Segundo o especialista, a ludopatia é classificada como transtorno de comportamento aditivo na CID-11 (Código Internacional de Doenças), sob o código 6C50, e no DSM-5 (Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais), no mesmo capítulo das dependências químicas.

Quais são os sintomas da ludopatia?

  • preocupação constante com as apostas;
  • necessidade de apostar quantias cada vez maiores para sentir a mesma excitação;
  • irritabilidade ao tentar reduzir ou interromper o comportamento;
  • fracassos repetidos nas tentativas de controlar o jogo;
  •  jogar para escapar de problemas ou de sentimentos de tristeza e ansiedade;
  • tentativa de recuperar perdas anteriores.

Conforme o médico, o transtorno também pode acarretar comportamentos como esconder ou mentir sobre o tempo e o dinheiro gastos com apostas, comprometer salário ou economias, mudanças no sono e no humor, abandono de atividades importantes e conflitos familiares relacionados ao jogo.

Os sintomas mais comuns incluem:

  • Irritabilidade;
  • Ansiedade;
  • Inquietação;
  • Insônia;
  • Tremores;
  • Dor de cabeça;
  • Queimação no estômago;
  • Desejo intenso e recorrente de voltar a jogar.

Como saber se estou viciado em apostas?

O diagnóstico é clínico, feito por profissional de saúde mental. Alfredo Holanda diz que a perda de controle é um sinal muito importante e orienta sobre o que fazer diante dos sintomas que podem persistir.

“Se você se identificar com quatro ou mais sintomas persistentes por mais de 12 meses, é recomendável buscar avaliação. Mas um alerta importante aparece quando a pessoa tenta parar e não consegue manter essa decisão. Quando alguém percebe que está tendo prejuízos, decide que vai parar e, mesmo assim, volta repetidamente às apostas, precisamos olhar para esse comportamento com atenção. Não é simplesmente uma questão de força de vontade. Existe um transtorno reconhecido e existem formas de tratamento”, destaca o médico.

O que causa o vício em apostas?

Vício em apostas pode causar quadro de abstinência, que exige tratamento multidisciplinar.
Legenda: Vício em apostas pode causar quadro de abstinência, que exige tratamento multidisciplinar.
Foto: Saulo Ferreira Angelo/Shutterstock.

Segundo o especialista, as causas são multifatoriais. Há fatores neurobiológicos: alterações cerebrais em áreas relacionadas à tomada de decisão, ao controle inibitório e à liberação da dopamina.

Ele explica como a química do nosso cérebro pode mudar diante do estímulo dos jogos.

“Imagine que o cérebro tem três partes que deveriam trabalhar juntas: uma que age por impulso, uma que pensa antes de agir e uma que sente o desejo. No transtorno do jogo, a parte impulsiva fica acelerada, a parte que pensa fica lenta demais e a parte que sente o desejo fica fora de controle. É como um carro com o acelerador travado e os freios danificados”, exemplifica Alfredo Holanda.

O médico diz que a dopamina é liberada em excesso durante as apostas. Com o tempo, o cérebro se acostuma e passa a precisar de cada vez mais estímulo para sentir o mesmo prazer. Assim, o comportamento de apostar, que começou como escolha, vai se tornando automático.

Também há fatores psicológicos e emocionais, como usar o jogo para fugir de problemas, tristeza ou ansiedade, além das características das próprias plataformas, com estímulos constantes, notificações e facilidade de acesso.

Comorbidades como depressão, ansiedade, alterações do sono e uso de álcool ou outras substâncias são frequentes.

Quais as consequências da ludopatia?

O especialista alerta que as consequências atingem várias áreas da vida. O problema não se resume ao apostador: familiares também enfrentam endividamento, desgaste emocional e conflitos dentro de casa.

Prejuízo financeiro

Há endividamento, falência econômica e até necessidade de cometer fraudes ou roubos para sustentar o vício.

Desgaste na família e nas relações sociais

Ocorrem conflitos, divórcios, isolamento, negligência com filhos e outras obrigações, quebra de confiança.

Danos à vida profissional

No trabalho, podem ocorrer perda de emprego e prejuízos profissionais.

Riscos de doenças

Na saúde mental, pode haver aumento do risco de depressão, ansiedade e ideação suicida. 

Ludopatia tem cura?

O psiquiatra Alfredo Holanda diz que não há uma cura definitiva garantida ou um tratamento que elimine o transtorno para sempre, mas que a recuperação é absolutamente possível. Ele destaca a MP de proibição das bets no Brasil como medida de intervenção essencial para a saúde pública do País e a luta contra a ludopatia.

“É fundamental entender uma coisa: o primeiro e mais importante passo para a recuperação é a decisão de parar de jogar. Sem essa decisão, nenhum tratamento funciona. É ela que inicia todo o processo. Foi exatamente por isso que a Medida Provisória que proibiu as bets no Brasil teve um papel tão importante. Para muitas pessoas que estavam em uma relação compulsiva com o jogo, essa proibição funcionou como uma intervenção externa obrigatória”, pontua o especialista.

Ele afirma que muitos pacientes não conseguem tomar a decisão de parar sozinhos, e a retirada das plataformas criou uma oportunidade concreta de interrupção.

“A MP encerrou o ciclo de exploração regulada das apostas de quota fixa no país e impediu a massificação desse vício. Quando a pessoa para de jogar, ela não passa ilesa. O cérebro estava acostumado com a descarga de dopamina que as apostas proporcionavam, e a interrupção abrupta gera um quadro de abstinência”, alerta.

Segundo o profissional, suportar a abstinência exige estratégias como a psicoterapia, o acompanhamento psiquiátrico, grupos de apoio e o suporte familiar.

É importante que a pessoa entenda: a abstinência não é um sinal de fraqueza, é um sinal de que o cérebro está se readaptando. E ela passa. A química cerebral tende a voltar aos níveis normais de produção de dopamina depois de um período de abstinência. Os sintomas mais intensos costumam diminuir bastante nos primeiros dias, mas cada pessoa tem seu ritmo".
Alfredo Holanda
Psiquiatra

Tratamentos

O tratamento para ludopatia é composto por diferentes abordagens, sendo a psicoterapia uma das principais estratégias.

“A Terapia Cognitivo-Comportamental ajuda o paciente a reconhecer gatilhos, pensamentos e comportamentos associados às apostas e a desenvolver estratégias para lidar com o impulso de jogar. A terapia psicodinâmica busca compreender as causas profundas. O acompanhamento psiquiátrico também pode fazer parte, principalmente quando existem outros transtornos mentais associados”, explica o psiquiatra.

O médico pontua que os medicamentos não são indicados em todos os casos. É necessário que o especialista faça uma avaliação individual, considerando o quadro clínico e eventuais condições associadas, como ansiedade, depressão e uso de álcool e outras substâncias.

“O apoio familiar é fundamental. Outra medida importante é dificultar o acesso ao jogo. O tratamento não se resume a dizer para a pessoa simplesmente parar de jogar. Precisamos compreender os gatilhos, trabalhar a perda de controle, tratar condições associadas quando elas existem e reconstruir gradualmente aspectos da vida que foram afetados”, detalha.

Como ajudar alguém com ludopatia?

Primeiro, informe-se: entenda que a adicção não é falta de disciplina ou caráter. Escute sem julgar, ofereça apoio emocional e validação dos sentimentos. Converse em um momento calmo, mantendo a calma. Acompanhe a pessoa na busca por tratamento e participe da terapia familiar, se possível. Estabeleça limites para se proteger financeira e emocionalmente, sem deixar de oferecer suporte”.
Alfredo Holanda
Psiquiatra

Fique atento aos riscos

Em caso de pensamentos suicidas, é necessário buscar ajuda de emergência. Segundo Alfredo Holanda, o auxílio profissional é mais produtivo do que simplesmente julgar ou cobrar que a pessoa pare de jogar. Quanto mais cedo essa relação problemática com o jogo for identificada, maiores são as possibilidades de intervenção.

Como tratar a ludopatia pelo SUS no Ceará?

O SUS oferece dois caminhos principais: o teleatendimento e o atendimento presencial nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).

No Ceará, o tratamento pelo SUS é realizado principalmente pela Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), com encaminhamento a partir da Atenção Primária, nos postos de saúde, ou diretamente nos CAPS.

Há iniciativas municipais em Fortaleza para criar um protocolo específico de acolhimento para pessoas com ludopatia. Um local de referência em Fortaleza é o CAPS AD II Dr. José Glauco Bezerra Lobo, Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas.

O local atende adultos com dependência de jogos, incluindo jogos eletrônicos e apostas, em regime de porta aberta, com acolhimento inicial de 7h às 17h. O endereço é Rua Giselda Cysne, s/n, Cidade 2000, Fortaleza, próximo ao Posto de Saúde Rigoberto Romero.

No interior do Estado, municípios-polo como Sobral, Juazeiro do Norte, Crato, Maracanaú e Limoeiro do Norte contam com CAPS AD que funcionam como referência regional. Isso significa que cidades vizinhas, que não têm unidade local, encaminham seus moradores pela UBS para o CAPS mais próximo.

Os atendimentos presenciais que acontecem nos CAPS AD funcionam por livre demanda, ou seja, a pessoa chega e é acolhida no mesmo dia, sem precisar de agendamento prévio.

Se o município não tiver um CAPS AD, a Unidade Básica de Saúde (UBS) local faz o primeiro acolhimento e encaminha para o CAPS regional.

Veja o passo a passo para teleconsulta pelo SUS

O Ministério da Saúde também oferece teleatendimento em saúde mental para pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas e seus familiares, sendo a porta de entrada mais rápida.

  • Basta baixar o aplicativo “Meu SUS Digital” no celular, ou acessar a versão web;
  • Entre com a conta gov.br e encontre na seção “Miniapps” a opção “Agora Tem Especialistas em Saúde Mental para Quem Aposta”
  • Nesta aba, é possível fazer um autoteste anônimo ou simplesmente pedir o atendimento direto, sem responder ao questionário.

O atendimento é feito por videochamada, com duração de cerca de 50 minutos, por psicólogos, enfermeiros e outros profissionais capacitados. São ciclos de 10 a 13 sessões semanais. O serviço também atende familiares e pessoas da rede de apoio.

"A ludopatia adoece a família inteira. Muitas vezes são mães, esposas e irmãs que percebem o problema primeiro e buscam ajuda. A grande vantagem do teleatendimento é que ele quebra o estigma. Como explicou o Ministério da Saúde, muitas pessoas não procuram ajuda por vergonha. Com o autoteste e o teleatendimento, elas podem identificar sinais de risco e se sentir mais à vontade para fazer esse atendimento em casa, pelo celular", enfatiza o especialista.

Segundo Holanda, é indispensável que o paciente se consulte com um psiquiatra que tenha Registro de Qualificação de Especialista (RQE), validado pelo Conselho Regional de Medicina (CRM). Esse é o profissional adequado para avaliar necessidades específicas e fazer a prescrição de medicamentos e outros tratamentos. 

"Tanto no teleatendimento quanto nos CAPS, é fundamental que o paciente tenha acesso a um médico psiquiatra com RQE. É a garantia de que aquele médico tem residência ou título de especialista reconhecido na área. É o psiquiatra quem tem a formação para avaliar a necessidade de tratamento medicamentoso, considerando também as comorbidades frequentes, como ansiedade, depressão e dependência química. Não é todo mundo que vai precisar de remédio, mas essa avaliação precisa ser feita por quem tem qualificação específica", aconselha Alfredo Holanda.

Desafios para o tratamento

Para Alfredo Holanda, apesar dos avanços, a rede de cuidado à ludopatia no SUS ainda enfrenta problemas sérios.

O primeiro gargalo seria a capacidade do teleatendimento. Segundo o Ministério da Saúde, em março de 2026, o serviço começou com apenas 600 atendimentos mensais. Em agosto, conforme a pasta, a oferta foi ampliada para até 100 mil teleatendimentos por mês. O especialista considera um salto importante, mas que ainda precisa ser acompanhado de perto.

"Um artigo científico sobre o tema classificou a capacidade inicial de 600 vagas como uma 'insuficiência dramática' para um problema que, segundo estimativas de pesquisas sobre prevalência de apostas no Brasil, afeta dezenas de milhões de brasileiros", aponta.

Outro desafio seria a falta de preparo da Atenção Básica de Saúde.

"A UBS é a porta de entrada natural do SUS, mas falta formação específica dos profissionais para identificar e tratar a ludopatia. Isso gera subdiagnóstico. Muita gente passa pela UBS sem ser percebida como alguém que precisa de ajuda", lamenta o profissional.

Ainda conforme Holanda, um terceiro gargalo é a falta de uma linha de cuidado nacional específica para ludopatia. Hoje, o tratamento geralmente acontece dentro dos CAPS AD, que já lidam com álcool e outras drogas, mas não há um protocolo nacional exclusivo para o transtorno do jogo, com financiamento próprio e metas claras.

"A rede presencial no interior ainda é limitada. Embora municípios-polo como Sobral, Juazeiro e Crato tenham CAPS AD, muitas cidades menores dependem de encaminhamento para essas referências, o que pode significar viagens longas e espera por vaga", frisa Holanda.

Quando procurar ajuda para ludopatia?

Deve-se procurar ajuda o quanto antes, especialmente se você percebe que está apostando mais tempo ou gastando mais do que planejava, se apresenta quatro ou mais sintomas de forma persistente por mais de 12 meses, se o jogo já está causando problemas financeiros, familiares, profissionais ou emocionais, ou se há pensamentos de desesperança ou suicídio.

Nesse último caso, a recomendação é procurar ajuda de emergência imediatamente. Também é motivo para buscar avaliação quando a aposta começa a determinar o humor, compromete dinheiro destinado às despesas da casa, provoca mentiras, conflitos ou a sensação de que é preciso continuar jogando para recuperar o que foi perdido.

“Esperar que as dívidas se tornem insustentáveis não deve ser o parâmetro. Quanto mais cedo houver reconhecimento e cuidado, melhor. E o melhor mesmo é nunca jogar. Precisamos fazer a prevenção primária e impedir a massificação desse vício”, conclui o médico.

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