A Justiça cearense negou ao paraibano Ridag de Almeida Dantas o direito de responder em liberdade no processo que apura seu envolvimento em um esquema internacional de tráfico de cocaína a partir do Porto do Pecém, em São Gonçalo do Amarante, na Região Metropolitana de Fortaleza (RMF).
A decisão da 11ª Vara Federal do Ceará foi tomada em maio deste ano, mas os expedientes de notificação formal só foram processados no sistema eletrônico do Judiciário recentemente, na última terça-feira (1º). Consta no processo, ao qual a reportagem obteve acesso, que o Ministério Público Federal (MPF) já havia se manifestado contra a soltura devido à gravidade dos delitos cometidos.
Ridag está preso cautelarmente desde o ano passado, quando se apresentou espontaneamente às autoridades no município de Patos, na Paraíba. Ele é acusado, entre outras coisas, de integrar uma organização criminosa interestadual destinada ao tráfico internacional de drogas e de ter utilizado uma identidade falsa, sob o nome de Richarde de Almeida Dantas, para movimentar o dinheiro do crime.
Além disso, ele estava foragido desde a deflagração da Operação Néctar pela Polícia Federal, em março de 2024. Àquela época, o Diário do Nordeste publicou que a investigação mirou alvos em oito estados, incluindo o Ceará, que movimentaram pelo menos sete toneladas de cocaína em diferentes portos brasileiros. O intuito era transportar a droga para a Europa via modal marítimo portuário.
A reportagem entrou em contato com a defesa do investigado para comentar a decisão judicial e não teve retorno até o fechamento desta matéria. Também foi contatado o Complexo Industrial e Portuário do Pecém (CIPP) para tratar do assunto. Quando as respostas forem enviadas, este texto será atualizado.
Como começou a investigação?
A investigação que resultou na Operação Néctar começou em agosto de 2019, a partir de uma informação da Divisão de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos da América (ICE) dando conta da suspeita de carregamento de droga em um contêiner localizado no Porto do Pecém, no Ceará. Segundo as autoridades norte-americanas, o contêiner, que continha um carregamento lícito de mel e que seria enviado para o Porto de Antuérpia, na Bélgica, teria sido "contaminado" com entorpecentes na modalidade rip on/rip off por uma quadrilha internacional.
.Nessa modalidade de rip on/rip off, os criminosos se infiltram nos portos e escondem as drogas dentro de carregamentos legais, sem que os donos tenham conhecimento e após a primeira inspeção na mercadoria
Com a informação, a Receita Federal fez uma nova inspeção no contêiner e encontrou cerca de 330 quilos de cocaína em dez bolsas de viagem pretas escondidas na carga de mel. Depois disso, o caso passou para as mãos da Polícia Federal, que iniciou as investigações dentro do próprio porto, a partir da quebra de sigilo telefônico dos funcionários envolvidos no fluxo do contêiner específico.
Foi assim que os investigadores descobriram que operadores portuários haviam sido corrompidos para participar do esquema e chegaram aos nomes de Amâncio da Silva, o 'Baixinho' ou 'Gigante'; Karine de Oliveira Campos, tida como uma das maiores narcotraficantes do País, tratada neste caso como 'Patroa' ou 'Minnie', e Marcelo Mendes Ferreira, o 'Roku' ou 'Patrão'.
A Operação Néctar tinha alvos no Ceará, na Paraíba, no Rio Grande do Norte, em Pernambuco, no Piauí, em São Paulo, no Paraná, em Santa Catarina e no Rio de Janeiro. Em território cearense, a base logística do Porto do Pecém, considerada uma das mais importantes para a organização criminosa, era comandada por Amâncio, que mantinha uma relação de amizade e parceria com Ridag.
Ridag, que é conhecido como 'Zidaque' ou 'Maestro' na quadrilha, é apontado no processo como o responsável pela logística e manutenção dos caminhões que transportavam drogas para o Pecém. Além de Amâncio, ele se comunicava frequentemente com a cúpula da quadrilha: o casal Karine e Marcelo. "A mulher eu não conheço, mas, pelo que falam, ela não alisa muito. Mas, graças a Deus, deu tudo certo", teria dito ele ao comparsa em um diálogo interceptado pela PF. O interlocutor teria respondido: "Quem manda é a mulher".
Amâncio foi preso em março de 2024, quando desembarcou em Brasília de um voo vindo de Fortaleza.
Casal de narcotraficantes adquiria e negociava a droga enviada à Europa
Durante a investigação, a PF constatou que Karine e Marcelo eram os responsáveis por adquirir e negociar a cocaína enviada à Europa pelo porto cearense. Eles também eram quem definiam as tarefas no grupo, garantiam o suporte financeiro e distribuíam telefones celulares criptografados para a comunicação dos seus subordinados.
O casal está foragido desde 2019. Seu último paradeiro é em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, de onde acredita-se que ainda hoje os dois coordenam as ações da quadrilha.